
Página de história em quadrinhos
Em meio a notícias sobre a guerra no Paraguai e informes sobre o teatro, a revista A Vida Fluminense de 30 de janeiro de 1869 trazia uma surpresa a seus leitores. Duas de suas oito páginas estampavam o primeiro capítulo de As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à Corte, um novo formato narrativo gráfico que o semanário apresentou como um “romance ilustrado”. Tratava-se de uma combinação de texto e desenho contando a história de um rapaz interiorano, filho de um rico proprietário de terras de Minas Gerais, que, após se apaixonar por uma moça pobre, é enviado pelo pai ao Rio de Janeiro. Semana a semana, a saga de Nhô Quim prosseguia pela então capital do Império, onde o personagem se envolve em uma série de confusões e episódios rocambolescos.
Criada pelo ilustrador e caricaturista italiano Angelo Agostini (1843-1910), um dos sócios de A Vida Fluminense, o “romance ilustrado” é tradicionalmente considerado a primeira história em quadrinhos do Brasil. A data de sua estreia, 30 de janeiro, foi escolhida em 1984 pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo para a comemoração simbólica do Dia do Quadrinho Nacional.
“Nhô Quim teve como modelo o folhetim literário. A narrativa guarda muitas semelhanças com o romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida [1831-1861]”, afirma o historiador Gilberto Maringoni, da Universidade Federal do ABC e autor de uma tese de doutorado sobre Agostini, defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 2006. “A série é tida como a pioneira no país por ser uma narrativa sequencial com personagem fixo e publicada em um meio reprodutível, a imprensa.”
Republicado em 2013 pelo Senado Federal, Nhô Quim antecipou recursos formais que os quadrinhos norte-americanos só viriam a apresentar no início do século XX, como a utilização de um mesmo cenário em quadros consecutivos. No âmbito mundial, a obra tida pela crítica como a primeira HQ moderna é Yellow Kid, do cartunista norte-americano Richard Felton Outcault (1863-1928). Surgida em 1895, quase três décadas após Nhô Quim, Yellow Kid fazia uso de balões de fala, ao contrário da série brasileira, que apresentava legendas posicionadas abaixo de cada quadro.
No Brasil, o estabelecimento de um marco zero das HQ tem gerado controvérsias, uma vez que não existe consenso a respeito do que define uma história em quadrinhos. Em 2024, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro organizou uma exposição em homenagem ao “autor da primeira história em quadrinhos do Brasil”, o artista francês Sébastien Sisson (1824-1898). Sua narrativa pioneira, O namoro, quadros ao vivo, saiu em 15 de outubro de 1855 no jornal O Brasil Ilustrado, 14 anos antes de Nhô Quim.
“O namoro é simples em termos de desenho, mas já contém todos os elementos básicos de uma HQ: um enredo e uma narrativa sequenciada de texto e imagem. Pode ser que os historiadores descubram uma HQ anterior à do Sisson, mas, até o momento, ela foi a primeira”, afirma Bárbara Ferreira, cofundadora do Instituto Sébastien Sisson. O crítico de arte Herman Lima (1897-1981) em seu livro História da caricatura no Brasil (José Olympio, 1963), foi taxativo: “Trata-se evidentemente da primeira história de quadrinhos aparecida no Brasil e mostra, em deliciosas cenas cheias de graça e pitoresco, as diversas fases do namoro no Rio daqueles tempos recuados”.
Originário da Alsácia, região da França, Sisson aportou aos 28 anos no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu como litógrafo. “Ele aprendeu a litografia na oficina de Lemercier, uma das mais importantes de Paris no século XIX. Poucos anos após chegar ao Brasil, começou a desenhar charges e caricaturas em periódicos como O Brasil Ilustrado e a L’Iride Italiana, revista publicada em português e italiano, no Rio de Janeiro”, relata Ferreira. Sua obra mais célebre é Galeria dos brasileiros ilustres, com 90 retratos de personalidades da história do Brasil. Em 1866, ele recebeu o título de “litógrafo e desenhador da Casa Imperial” e, em 1882, foi condecorado pelo imperador com a Ordem da Rosa por restaurar voluntariamente algumas estampas do acervo da Biblioteca Nacional. “Sisson respeitava o imperador e, ao que parece, teve uma boa relação com ele. Mas, como caricaturista, fazia críticas sociais: abordava temas como reparos a obras públicas, atos administrativos, queixas contra o custo de vida, o lixo nas praias e a burocracia pública”, ressalva Ferreira.
Agostini tinha uma relação diferente com o Segundo Reinado. Nascido no Piemonte, norte da Itália, viveu em Paris antes de vir para o Brasil, em 1859. Nessa época, a imprensa ilustrada nacional se consolidava e se tornava um grande laboratório de experimentação gráfica, graças ao impulso dado pela chegada da litografia, na qual o desenho é traçado sobre uma pedra, servindo como matriz para a impressão em papel. A técnica, inventada na Alemanha no final do século XVIII, barateou o processo de reprodução de imagens e facilitou sua ampla circulação.
Foi nesse cenário de modernização da cultura visual que Agostini fundou, em 1876, a Revista Illustrada, considerada a mais importante publicação satírica do período monárquico. Conhecida pelas ilustrações e caricaturas críticas ao regime escravocrata e ao imperador dom Pedro II, foi considerada pelo jurista e diplomata Joaquim Nabuco (1849-1910) “a Bíblia abolicionista do povo, o qual não sabe ler”. Também foi nas páginas da Revista Illustrada que Agostini começou a publicar outra narrativa gráfica pioneira, As aventuras de Zé Caipora, a “primeira história de quadrinhos de longa duração publicada na imprensa brasileira”, nas palavras de Lima.
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“A memória construída sobre Angelo Agostini é a de um artista envolvido com as causas principais do seu tempo: a Abolição, a transformação do regime político de Império para a República, e o anticlericalismo fervoroso”, comenta o historiador Marcelo Balaban, da Universidade de Brasília, e autor dos livros Poeta do lápis: Sátira e política na trajetória de Angelo Agostini no Brasil Imperial (1864-1888) (Editora da Unicamp, 2009) e coorganizador de As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à Corte: Romance ilustrado (Chão, 2024). Balaban adverte, porém, que a obra do desenhista italiano é atravessada por preconceito racial e visões estereotipadas sobre pessoas negras que eram amplamente aceitas nos círculos intelectuais da sociedade oitocentista.
“Nhô Quim é uma narrativa inteiramente escorregadia. Por um lado, faz uma sátira à classe senhorial brasileira”, diz Balaban. “Ao mesmo tempo, é cheia de significados não necessariamente abolicionistas e já profundamente racistas, que se apoia na ideia de que pessoas negras não são confiáveis.”
As obras de Sisson e Agostini resultam de um processo abrangente e internacional de experimentação gráfica em curso na Europa, incorporando padrões estéticos desenvolvidos por artistas daquele continente desde a década de 1820. Um deles, o suíço Rodolphe Töpffer (1799-1846), considerado o precursor das HQ na Europa, criou um híbrido de texto e desenho que chamou de “literatura em estampas”, e, nesse formato, publicou narrativas completas que fizeram sucesso na França, como Histoire de M. Vieux Bois (1828). Na Alemanha, Wilhelm Busch (1832-1908) criou em 1865 a narrativa gráfica humorística acompanhada de versos rimados Max und Moritz, que se tornou muito popular. No Brasil, foi editada como Juca e Chico – História de dois meninos em sete travessuras, em tradução para o português feita pelo poeta Olavo Bilac (1865-1918). “É um momento histórico em que artistas de vários países propunham experimentos com caricatura e usavam imagens na construção de narrativas. A noção de HQ ainda não existia, então não dá para pensar em uma única origem para elas. Foi uma experimentação coletiva”, comenta Balaban.
O quadrinho brasileiro se consolidou no século XX. Em 1905, foi lançada a revista Tico-Tico, a primeira voltada para o público infantil. Aliando entretenimento e fins educacionais, o então chamado “jornal das crianças” teve Agostini entre seus colaboradores e se tornou uma das revistas mais longevas das histórias em quadrinhos nacionais, circulando como publicação periódica até 1957.
Na década de 1930, a influência do modelo europeu diminui, e os leitores brasileiros passam a ter contato com personagens de sucesso das HQ norte-americanas, como Super-Homem, Popeye e Pato Donald. Os quadrinhos eram publicados nas páginas do Suplemento Juvenil, lançado pelo jornalista e editor russo naturalizado brasileiro Adolfo Aizen (1904-1991), e do Globo Juvenil, de Roberto Marinho (1904-2003). Em 1939, o grupo Globo publicou Gibi, com 32 páginas, que com o tempo se tornou sinônimo de revistas em quadrinhos e seguiu até 1977, com diferentes formatos e periodicidade.
O aparecimento das grandes editoras, como a Ebal, fundada também por Aizen, em 1945, e a Abril, criada em 1950 pelo ítalo-americano naturalizado brasileiro Victor Civita (1907-1990), introduziu no país os heróis da DC Comics e da Marvel, como Capitão América, Homem-Aranha e Batman. “O estabelecimento de uma indústria brasileira foi muito difícil no início por causa da predominância econômica dos quadrinhos norte-americanos”, comenta o biblioteconomista Waldomiro Vergueiro, professor aposentado da Escola de Arte e Comunicação da USP e fundador do grupo de pesquisa Observatório de Histórias em Quadrinhos.
“O cenário só se modificou com o aparecimento de Maurício de Sousa, criador da Revista da Mônica, publicada em 1970 pela Abril. A partir daí o quadrinho brasileiro para o público infantil começou a predominar”, observa Vergueiro. Oliveira cita também a revista Pererê, criada pelo cartunista Ziraldo Alves Pinto (1932-2024) e publicada de 1959 a 1964, com personagens baseados nas lendas brasileiras.
Hoje, as HQ brasileiras proliferam no meio digital e a produção autoral tem crescido significativamente graças à possibilidade de autopublicação e à internet. Além disso, autorias historicamente sub-representadas, como as femininas – a exemplo de Ana Luiza Koehler – e as negras, como Marcelo D’Salete, têm alcançado visibilidade e conquistado relevantes prêmios nacionais, como HQ Mix e Jabuti.
Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.