
O compositor Ideval Anselmo
O compositor Ideval Anselmo morreu na Quarta-Feira de Cinzas (18), aos 85 anos, vítima de um aneurisma na aorta abdominal. Ele deu entrada no Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, após passar mal.
Anselmo foi pentacampeão do carnaval paulistano, o maior vencedor do estado de São Paulo. Ao longo da carreira, ele foi um dos principais compositores da escola de samba Camisa Verde e Branco. “Narainã, a alvorada dos pássaros”, samba-enredo da agremiação em 1977, foi eleito como o maior do século 20, em concurso do jornal Folha de S. Paulo. A autoria é do sambista, em parceria com Zelão e Jordão.
Neste texto, o Nexo apresenta a trajetória de Ideval Anselmo e mostra os sambas-enredo históricos do compositor.
Ideval Anselmo nasceu em Catanduva, no interior de São Paulo, em 18 de setembro de 1940. Seu interesse musical veio da família, com seu avô tocando acordeão e seu pai, cavaquinho. Enquanto adolescente, ele tocava trompete na banda do município de Votuporanga, a 140 km da cidade natal.
Em entrevista ao portal Alma Preta em 2024, Anselmo afirmou que a ideia de compor veio ao assistir aos desfiles do Carnaval do Rio de Janeiro, em especial da Acadêmicos do Salgueiro, e conhecer a ala dos compositores.
“Não sabia de nada disso e perguntei pra uma pessoa que já estava dentro do Carnaval, conhecido nosso que depois veio a ser parceiro de música minha. Ele me explicou o que era a ala de compositores. Então eu vou entrar na ala de compositores”
Ideval Anselmo
compositor, em entrevista ao Alma Preta em 2024
Alsemo foi a São Paulo na década de 1960, para trabalhar como torneiro mecânico. Entrou no Carnaval paulistano e na Camisa Verde e Branco em 1971. No ano seguinte, compôs “Literatura de cordel” para a agremiação, enredo que ficou na terceira colocação nos desfiles.
Ao longo da carreira, ele também compôs para as escolas de samba paulistanas Rosas de Ouro, Unidos do Peruche e Tom Maior. Sua última composição a ir para o Sambódromo do Anhembi foi “Paulistano viva, vista a camisa. A mais paulista das avenidas”, da Camisa Verde e Branco, na divisão de acesso de 2011, quando a agremiação foi vice-campeã.
Desde 2005, Anselmo era integrante da Embaixada do Samba Paulistano, grupo da Uesp (União das Escolas de Samba paulistanas) que homenageia sambistas com grandes serviços prestados à cultura.
Em 2012, ele lançou seu primeiro disco autoral, “Ideval Anselmo – Memória do samba paulistano”. O projeto foi uma parceria de resgate do gênero musical entre o Kolombolo Diá Piratininga e a Associação Sambatá. O álbum tem alguns de seus principais sambas-enredo.
Anselmo também era integrante do Encontro das Velhas Guardas, trio formado com os compositores de sambas-enredo do Carnaval paulistano Zé Maria e Marco Antonio. Em 2024, eles foram indicados ao Prêmio da Música Brasileira na categoria Samba – conquistado pelo Grupo Revelação.
Em 2023, o Encontro das Velhas Guardas lançou o álbum “Talismã: Negro maravilhoso” em homenagem ao centenário do carnavalesco Octávio Silva. Em vídeo publicado pela gravadora Selo Sesc em setembro de 2024, Anselmo explicou o tamanho de Talismã para o samba.
Ao todo, Ideval Anselmo emplacou 22 sambas-enredo para o Carnaval paulistano. Desses, cinco venceram os desfiles: quatro pela Camisa Verde e Branco e um pela Rosas de Ouro.
O primeiro de seus títulos veio em 1974, com “Uma certa Nega Fulô”. O enredo – que também foi a primeira conquista da Camisa Verde e Branco na divisão de elite do Carnaval – faz referência à personagem do poema de Jorge de Lima que descreve uma mulher escravizada como sensual.
“Ô abram alas, pois chegou Nega Fulô / E chegou de verde e branco / espalhando seu encanto / uma filha de Nagô”
Camisa Verde e Branco
refrão do samba-enredo “Uma certa Nega Fulô”, de 1974
Até o fim dos anos 1970, a parceria de Anselmo com a Camisa Verde e Branco resultou em outros três campeonatos. “Atlântida e suas chanchadas” foi o campeão de 1976, uma homenagem a um dos primeiros estúdios brasileiros de cinema.
O tricampeonato de Anselmo – e o quarto da escola de samba – veio com “Narainã, a alvorada dos pássaros”, em 1977. O enredo conta a lenda indígena em que um pajé transforma uma jovem em ave por amar outro homem.
“Mulher te viro bicho / No feitiço, pajé falou / Calou a sua voz / Ela em ave transformou / Guerreiro, moço valente chorava / Até a lua prateada implorou / Das lágrimas de um curandeiro / Virou alado o guerreiro e voou”, diz o samba-enredo.
“Almôndegas de ouro” foi o samba-enredo campeão de 1979. O enredo faz referência a João Batista Ferreira de Souza Coutinho, homem que enriqueceu a partir da mineração em Minas Gerais no século 18.
O título com a Rosas de Ouro veio com o enredo “A velha academia berço de heróis”, em 1984. A composição faz referência à história da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), localizada no Largo São Francisco, no centro da capital.
Anselmo também foi o responsável pelo samba-enredo “Os sete tronos dos divinos orixás”, da Unidos do Peruche, que levou o vice-campeonato em 1989. A composição foi uma das primeiras a retratar religiões de matriz africana na avenida.
“Senti / Um bom fluido envolvendo / Tão longe foi meu pensamento / E pedi licença pra buscar / Oh! Senhores deuses africanos / e quando hoje ergue o pano / Os peruchianos vem mostrar”
Unidos do Peruche
refrão do samba-enredo “Os sete tronos dos divinos orixás”