
Cena de ‘Sonhos de trem’ (2025)
O Brasil vive, novamente, a expectativa para uma nova estatueta na cerimônia do Oscar, que acontece neste domingo (15). “O agente secreto” concorre em quatro categorias, incluindo Melhor Filme, enquanto Adolpho Veloso, que trabalha em “Sonhos de trem”, foi indicado a Melhor Fotografia.
Duas das cinco indicações brasileiras ao Oscar de 2026 são em categorias técnicas – Gabriel Domingues também foi indicado à inédita Melhor Elenco pelo filme de Kleber Mendonça Filho.
Neste texto, o Nexo apresenta as indicações técnicas brasileiras do Oscar de 2026 e explica a importância do reconhecimento cinematográfico técnico.
De acordo com as regras da Academia, a nova categoria de Melhor Elenco se refere “ao processo pelo qual um diretor de elenco colabora com o diretor e os produtores de um filme na consideração criativa e na seleção dos atores que compõem o elenco”.
Gabriel Domingues foi o responsável por selecionar o elenco de “O agente secreto”, composto por atores como Wagner Moura – que concorre a Melhor Ator –, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Gabriel Leone e Tânia Maria.
“Você vai para um lugar de leitura das pessoas. Quanto a força humana que essa pessoa tem pode contribuir para o filme, se ela vai entender o roteiro, se ela vai entender a história, se ela vai entender a linguagem do diretor, o posicionamento do filme em relação à política, em relação a tudo”
Gabriel Domingues
diretor de elenco de “O agente secreto”, em entrevista publicada na quinta-feira (12) pelo jornal O Estado de S. Paulo
O diretor de elenco começou a trabalhar com Kleber Mendonça Filho em “Aquarius” (2016), ainda como assistente de seleção de elenco. Domingues também é roteirista de filmes como “Baby” (2024), exibido no Festival de Cannes de 2024, e “Yellow Cake”, com lançamento para 2026.
“O agente secreto” concorre na categoria de Melhor Elenco com “Hamnet”, “Marty Supreme”, “Uma batalha após a outra” e “Pecadores”.
A adaptação do livro “Sonhos de trem”, de Denis Johnson, apresenta os 80 anos da vida de Robert Grenier, lenhador de Idaho entre os séculos 19 e 20, comovido pelo amor e abalado pelo luto. O filme de Clint Bentley retrata as dificuldades da industrialização e da expansão ferroviária nos Estados Unidos.
A direção de fotografia do brasileiro Adolpho Veloso foi muito elogiada pela crítica especializada. “[As filmagens] revelam uma admiração tácita essencial para a mensagem central do filme sobre cura e conexão”, afirmou Adrian Horton, do jornal britânico The Guardian, em artigo de janeiro de 2025.
“A gente gostava muito da ideia de remeter memórias, de uma maneira que a gente chegou a uma metáfora: você acha uma caixa antiga, ali num porão, cheia de fotos da vida inteira da pessoa. Olhando aquelas fotos todas, você tenta entender um pouco quem foi aquela pessoa, quem estava ao redor daquela pessoa, o que ela viveu. E, assim como numa memória, não necessariamente você está lembrando o que de fato aconteceu”
Adolpho Veloso
diretor de fotografia de “Sonhos de trem”, em depoimento ao perfil oficial da Netflix no Instagram, em 16 de janeiro
Aos 37 anos, Veloso foi diretor de fotografia de filmes brasileiros como “Mosquito” (2020), ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, e o road movie “Rodantes” (2021). Ele também assumiu o posto nos clipes musicais “AMEIANOITE” (2022), de Pabllo Vittar e Glória Groove, e “Diamantes, lágrimas e rostos para esquecer” (2025), do rapper BK.
Seu trabalho no documentário “On Yoga: Arquitetura da paz” (2017) foi o que chamou a atenção de Clint Bentley. A primeira colaboração entre o brasileiro e o americano foi em “Jockey” (2019).
Em entrevista à revista americana Variety em dezembro, Veloso afirmou que a maior parte das filmagens de “Sonhos de trem” foi com luz natural e na proporção de imagem 3:2.
A temporada de premiações está sendo favorável para Veloso, que conquistou a categoria de Melhor Fotografia no Critics Choice Awards e no Film Independent Spirit Awards. No Oscar, o diretor de fotografia concorre com “Frankenstein”, “Marty Supreme”, “Uma batalha após a outra” e “Pecadores”.
De acordo com Cyntia Calhado, crítica e professora do curso de cinema e audiovisual da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), as disputas de “O agente secreto” e “Sonhos de trem” são difíceis. Na opinião dela, “Pecadores” é o favorito para Melhor Elenco, enquanto “Uma batalha após a outra” é o destaque de Melhor Fotografia.
“Nós estamos com uma concorrência bastante grande entre os filmes, diferentemente de alguns outros momentos do Oscar, em que você tinha um franco favorito absoluto e os outros meio sem chance alguma. Estamos concorrendo à altura, mas há um favoritismo que não pode ser ignorado”, afirmou Calhado ao Nexo.
Independentemente de as estatuetas virem ou não para o Brasil, a professora da ESPM afirmou que as indicações colocam o audiovisual brasileiro em um patamar de excelência técnica. “Estamos sendo reconhecidos por uma formação de talentos. Quer dizer que as universidades estão conseguindo produzir técnicos para disputar, em pé de igualdade, prêmios internacionais muito específicos”, disse.
A primeira vez que um brasileiro foi indicado para o Oscar foi na disputa de Melhor Canção Original. Em 1945, Ary Barroso concorreu pela composição de “Rio de Janeiro”, presente no musical “Brasil” (1944). A letra é de autoria do americano Ned Washington.
Quase sete décadas depois, o Brasil voltou a ser indicado para a categoria de Melhor Canção Original no Oscar de 2012. Os cantores Sérgio Mendes e Carlinhos Brown foram responsáveis por “Favo de mel”, presente na cena de abertura da animação “Rio” (2011), de Carlos Saldanha.
As quatro indicações de “O agente secreto” igualaram o recorde de uma produção brasileira no Oscar. Em 2004, “Cidade de Deus” concorreu às categorias de:
Lançado em 2002, “Cidade de Deus” foi o escolhido pela Ancine (Agência Nacional de Cinema) para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Estrangeiro – nome anterior da atual Melhor Filme Internacional. O órgão estatal era o responsável por essa escolha, função que é feita atualmente pela Academia Brasileira de Cinema.
Mas o filme de Fernando Meirelles não foi selecionado para a categoria no Oscar de 2003. A comissão da Academia desaprovou o longa brasileiro, pois o considerou muito violento. O representante alemão “Nowhere in África” conquistou a estatueta na edição.
As indicações à cerimônia de 2004 só foram possíveis porque “Cidade de Deus” estreou no ano anterior nos Estados Unidos. Isso gerou uma intensa campanha promocional da Miramax, distribuidora de Harvey Weinstein – condenado em 2020 por crimes de estupro e abuso sexual contra profissionais do cinema.
A principal concorrência aos brasileiros era “O senhor dos anéis: O retorno do rei”, um dos filmes recordistas de estatuetas (11) na história do Oscar.
O longa de Peter Jackson venceu de “Cidade de Deus” em Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Diretor e Melhor Edição. “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo” conquistou a categoria de Melhor Fotografia.