
Pessoas esperando numa agência do INSS
O Ministério da Previdência Social anunciou na segunda-feira (13) Ana Cristina Viana Silveira como nova presidente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). A servidora de carreira do órgão entra no lugar de Gilberto Waller, que estava no cargo desde 30 de abril de 2025.
Waller havia assumido a chefia do instituto em resposta às investigações do escândalo de descontos indevidos em aposentadorias e pensões. A gestão dele, no entanto, se desgastou por causa do tamanho da fila de pedidos de benefícios previdenciários e de seu potencial impacto eleitoral. O primeiro turno das eleições presidenciais acontece em 4 de outubro.
Neste texto, o Nexo relembra as promessas de Lula sobre o INSS, fala sobre o escândalo de corrupção envolvendo o órgão e explica como funcionam as filas do instituto. Também analisa como isso pode impactar a disputa pela Presidência da República.
Nas eleições de 2022, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu zerar a fila do INSS. “É possível fazer. Se nós voltarmos, vamos fazer isso porque o mundo digitalizado está muito mais moderno e as pessoas que fizeram a primeira vez estão todas vivas e muito dispostas a trabalhar”, disse.
Em dezembro de 2022, um mês antes de tomar posse, o petista criticou no X a “herança” deixada pelo então governo de Jair Bolsonaro (PL) no instituto. Ele reiterou a promessa de zerar a fila no discurso de posse.
A fila do INSS praticamente triplicou no primeiro ano do governo Bolsonaro, saindo de 680 mil em janeiro de 2019 para 2,03 milhões de pedidos de benefícios previdenciários pendentes em janeiro de 2020. O montante diminuiu para 1,09 milhão em dezembro de 2022, último mês do governo.
O INSS é uma autarquia federal criada em junho de 1990 por meio de decreto. É uma fusão dos extintos Iapas (Instituto de Administração Financeira de Previdência e Assistência Social) e INSP (Instituto Nacional de Previdência Social), e está vinculado ao Ministério da Previdência Social.
O instituto tem autonomia em sua gestão, exercida por meio de instruções normativas. O órgão diz que garante proteção, atualmente, a 118,47 milhões de brasileiros. Seu orçamento é de R$ 1,15 trilhão em 2026.
Além do problema da fila, um escândalo de corrupção veio à tona em abril de 2025, quando a Polícia Federal e a CGU (Controladoria-Geral da União) realizaram a primeira fase da Operação Sem Desconto, que apurava um esquema de fraude nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões.
O valor estimado dos desvios, que ocorreram entre 2019 e 2024, é de R$ 6,3 bilhões.
Essas contribuições são feitas por aposentados filiados a sindicatos ou a associações previdenciárias em troca de benefícios como descontos em farmácias, mensalidades de planos de saúde, assistência jurídica, entre outros. O valor é descontado diretamente na folha de pagamento.
Os acordos entre associações e o INSS são legais, mas precisam cumprir regras e ter autorização dos beneficiários — o que não ocorria. A taxa era cobrada mensalmente sem autorização das pessoas.
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A CGU detectou que a prática de descontos associativos vinha ocorrendo desde 2017, com um crescimento gradativo ano a ano a partir de 2019, tanto no número de associações conveniadas com o INSS como nos descontos efetuados nas folhas de pagamento dos associados.
A partir de 2022, último ano do governo Bolsonaro, houve um aumento nos descontos indevidos, na esteira de uma mudança na instrução normativa 128, que facilitou acordos de cooperação técnica entre as associações e o INSS.
O escândalo derrubou o então presidente do órgão, Alessandro Stefanutto, em abril de 2025. Ele foi preso em novembro de 2025. O então ministro da Previdência Social, Carlos Lupi (PDT), deixou o cargo em maio de 2025. Em seu lugar, assumiu o atual titular da pasta, Wolney Queiroz (PDT).
A fila do INSS corresponde, basicamente, à quantidade de pedidos de benefícios previdenciários pendentes, como aposentadoria, auxílio-doença ou pensão por morte, entre outros. Ou seja, todas as pessoas que fazem pedidos de benefícios entram nessa fila, que é virtual.
Em seu último ano de governo, Lula vem tendo dificuldade de cumprir a promessa de zerar a fila. Em março de 2026, último dado disponível até o fechamento deste texto, houve 2.793.618 pedidos pendentes, uma redução de 10,6% em relação ao recorde de 3.127.690 solicitações pendentes registradas em fevereiro.
Leonardo Pessoa, advogado tributarista e professor do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), afirmou que a fila cresceu nos últimos anos por uma série de fatores, como o aumento das possibilidades de afastamento do trabalho por questões psicológicas — como estresse ou burnout —, o envelhecimento da população e a quantidade insuficiente de servidores para analisar os pedidos.
Há também uma crescente judicialização para receber os benefícios, como mostrou o site Poder360.
“A judicialização é uma consequência. Se o INSS cumprisse os prazos, as pessoas não entrariam na Justiça”, afirmou Pessoa ao Nexo. Ele acrescentou que, antes de acionar a Justiça, a pessoa precisa comprovar que tentou fazer o pedido administrativo.
Segundo dados do INSS, 48% dos pedidos pendentes são de benefícios por incapacidade, enquanto 23% são de assistências — entre eles, o BPC (Benefício de Prestação Continuada) — e benefícios de legislações especiais, como aposentadorias vitalícias para seringueiros e seus dependentes, pensão especial para dependentes de vítimas fatais por contaminação na hemodiálise e para pessoas atingidas pela hanseníase. Em seguida, 13% dos pedidos são de aposentadorias.
Além do tipo de benefício, o tempo de espera varia conforme a região – a espera na análise é maior no Norte do que no Sul do país, por exemplo.
O INSS vem adotando medidas para tentar reduzir o represamento de requerimentos. Em janeiro, o instituto publicou a portaria nº 1.919, nacionalizando a fila de análise. Ou seja, a fila do órgão deixou de ser regional e passou a ser única em nível nacional. Com isso, servidores de qualquer região podem atuar nos processos de localidades com maior tempo de espera.
A portaria também definiu que a análise dos pedidos deve priorizar os processos mais antigos e os benefícios com maior volume de solicitações — entre eles, o BPC e os benefícios por incapacidade, como auxílio-doença e aposentadoria por invalidez. Além disso, a autarquia tem promovido mutirões de análise administrativa e perícia médica.
O escândalo com o desvio do dinheiro de aposentados e pensionistas e o crescimento da fila têm pressionado o governo Lula em ano eleitoral.

Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista ao ICL Notícias no Palácio do Planalto
Marco Antonio Teixeira, professor de ciência política da FGV Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), afirmou que os problemas do INSS têm um grande potencial de prejudicar a reeleição de Lula.
“Os escândalos do INSS traduzidos no [desvio de] consignado ou no tempo de espera afetam a vida do trabalhador, tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista de se sentir injustiçado. O governo é imediatamente o primeiro culpado, ainda mais quando a expectativa de zerar a fila acabou sendo frustrada”, afirmou ao Nexo.
Teixeira destacou que esses são problemas que afetam não apenas as pessoas que dependem do INSS, mas as famílias de quem vive do benefício previdenciário. “Sem dúvida, é um fator de desgaste intenso para o governo. Um problema concreto para as eleições.”
Rodrigo Prando, professor de ciência política da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirmou que, diante de uma eleição polarizada, qualquer fatia do eleitorado que vote em Lula é importante para o projeto de reeleição.
“A questão da fila que aumentou, portanto, não houve o cumprimento da promessa. Isso pode gerar desgaste ao governo Lula e colocar em risco o projeto de reeleição”, afirmou ao Nexo.
Prando afirmou que, historicamente, as pesquisas indicam que mais de 50% dos aposentados e da população mais velha são eleitores de Lula, enquanto pouco mais de 30% preferem o adversário do momento — em 2026, o principal deve ser o senador Flávio Bolsonaro (PL). “Numa eleição polarizada, qualquer voto é bem-vindo, e perder espaço num segmento do eleitorado que sempre foi seu é muito ruim.”
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de março mostra que 45% do eleitorado com faixa etária de 60 anos ou mais apoiam Lula, enquanto 28% apoiam Flávio, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não há na pesquisa o recorte por aposentados.
“Talvez a demissão do presidente do INSS agora seja uma tentativa de o governo começar a se mexer, reagir e dar uma resposta de curto prazo”, ponderou Teixeira.