
Anéis olímpicos na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina terminaram no domingo (22). A Noruega liderou o quadro de medalhas, com 18 ouros e 41 pódios. A delegação brasileira teve seu melhor desempenho na história da competição: a 19º colocação, com o ouro inédito de Lucas Pinheiro Braathen no esqui alpino.
Além dos jogos, a edição atual das Olimpíadas de Inverno teve manifestações políticas dos atletas e do público. Parte da delegação dos Estados Unidos, por exemplo, criticou a política interna do país e a presença do ICE, a agência americana de Imigração e Controle de Alfândega, em Milão-Cortina. Também houve apoio à não anexação da Groenlândia pelos EUA e homenagens a mortos na guerra na Ucrânia.
Neste texto, o Nexo mostra como a política apareceu na competição.
Uma das intenções do governo de Donald Trump nos Jogos de Milão-Cortina era promover os EUA como líder esportivo global, em meio à chamada “Década do esporte na América”. O país será a sede de uma série de eventos mundiais entre 2024 e 2034, como a Copa do Mundo de Clubes de 2025, a Copa do Mundo de 2026 e as Olimpíadas de Los Angeles de 2028.
Críticas ao governo dos Estados Unidos surgiram antes do início da edição de 2026 dos Jogos, em 6 de fevereiro. Um mês antes, representantes do ICE anunciaram que agentes iriam a Milão-Cortina para reforçar a segurança da delegação e de autoridades americanas.
Naquele momento, agentes do ICE haviam aumentado a repressão contra imigrantes e cidadãos nos Estados Unidos. Após as mortes a tiros de dois americanos em pouco mais de duas semanas, protestos irromperam em diferentes estados, especialmente em Minnesota.
Políticos italianos, especialmente de centro-esquerda, se disseram contra a presença do ICE no país. “Essa é uma milícia que mata… é claro que eles não são bem-vindos em Milão”, afirmou o prefeito da cidade, Beppe Sala, em entrevista à rádio local RTL 102.5. Estudantes também se manifestaram contra a agência antes das competições.
O embaixador americano na Itália, Tillman Fertita, afirmou em comunicado de 28 de janeiro que a segurança dos Jogos de Inverno era exclusiva da polícia italiana. Além disso, os agentes que iriam a Milão-Cortina eram do HSI (Agência de Investigações de Segurança Interna), departamento focado em crimes transnacionais. Eles não teriam poder de policiamento.
Atletas da delegação americana se posicionaram contra as ações internas do ICE. Em entrevista a jornalistas no dia 6 de fevereiro, os esquiadores Hunter Hess e Chris Lillis expressaram seu descontentamento. “Só porque estou vestindo a bandeira, não significa que represento tudo o que está acontecendo nos EUA”, afirmou Hess.
Em publicação na rede Truth Social, Trump chamou Hess de “um verdadeiro perdedor”. “Ele não representa seu país nas atuais Olimpíadas de Inverno. Se for esse o caso, ele não deveria ter tentado entrar para a equipe, e é uma pena que esteja nela. É muito difícil torcer por alguém assim”, disse o presidente americano.
Com três medalhas olímpicas no currículo, a snowboarder Chloe Kim apoiou Hess. “Temos o direito de expressar nossas opiniões sobre o que está acontecendo, e acho que precisamos liderar com amor e compaixão”, disse em entrevista a jornalistas no dia 8 de fevereiro. Os pais dela são sul-coreanos.
Outra estrela a se posicionar a favor de Hess foi a sino-americana Eileen Gu, que representou a China no esqui estilo livre em Milão-Cortina. “Como alguém que já esteve no fogo cruzado, sinto muito pelos atletas”, afirmou a jornalistas no dia 9 de fevereiro. Gu venceu um ouro e duas pratas na edição.
Fora os atletas, o público presente na cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno vaiou o vice-presidente americano J.D. Vance ao vê-lo no telão. Em 11 de fevereiro, ele disse que os esportistas não devem se posicionar: “Quando atletas olímpicos entram na arena política, devem esperar alguma resistência”.
Disputas internacionais também levantaram discussões ao longo dos Jogos Olímpicos de Inverno. A partida entre Estados Unidos e Dinamarca no hóquei — com vitória dos EUA — teve contornos geopolíticos em função das recentes tensões entre os países pelo território da Groenlândia.
Um dos principais interesses de Trump em seu segundo mandato é a anexação da Groenlândia, região autônoma dinamarquesa na América do Norte. Situada entre os oceanos Atlântico e Ártico, a ilha tem 2,1 milhões de km² e 56 mil habitantes — um dos territórios com as menores densidades populacionais do mundo.

Como região autônoma, a Groenlândia tem um governo local responsável por questões internas. No entanto, a Dinamarca controla os assuntos de política externa, segurança e defesa.
A ilha abriga a base aérea americana de Pituffik, com um sistema de alerta de mísseis balísticos e cerca de 100 militares. Além disso, ela tem a rota comercial mais curta entre a América do Norte e a Europa e é rica em recursos naturais, como urânio e petróleo, e minerais de terras raras — conjunto de elementos químicos de difícil extração vitais para a produção de diversos produtos e tecnologias, como celulares, lasers e mísseis.
As relações entre os Estados Unidos e a Dinamarca ficaram estremecidas em 2026. Em 17 de janeiro, Trump anunciou tarifas comerciais a oito países europeus contrários às suas ameaças à Groenlândia. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou no dia seguinte que “a Europa não seria chantageada”.
O presidente americano retirou as taxações no dia 21 de janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Na partida de hóquei entre EUA e Dinamarca, em 14 de fevereiro, dois torcedores da Letônia levaram a bandeira da Groenlândia às arquibancadas. “Para nós, como europeus, era importante mostrar este símbolo como um símbolo de unidade europeia”, afirmou Alexander Kalniņš, um dos manifestantes, à agência de notícias Associated Press.
Atletas nascidos na Groenlândia competem sob a bandeira da Dinamarca nos Jogos Olímpicos. Em Milão-Cortina, os representantes da região foram os irmãos Ukaleq Slettemark e Sondre Slettemark.
“Todo mundo sabe que sou da Groenlândia. Vemos as bandeiras da Groenlândia aqui, competimos com o uniforme da Groenlândia, realmente sinto que represento tanto a Dinamarca quanto a Groenlândia”
Ukaleq Slettemark
atleta dinamarquesa do biatlo, ao jornal britânico The Guardian
Nas vésperas dos quatro anos da guerra entre Rússia e Ucrânia, um capacete se tornou uma questão diplomática para o COI (Comitê Olímpico Internacional) em Milão-Cortina. O ucraniano Vladyslav Heraskevych, do skeleton, queria competir nos Jogos de Inverno usando um equipamento com retratos de 18 atletas mortos durante o conflito, como forma de homenageá-los.
Após análise, o COI proibiu o uso do “capacete da memória”, como o acessório foi nomeado. A justificativa se baseou na regra 50 da Carta Olímpica — documento sobre os princípios fundamentais do torneio —, que não permite manifestações políticas, religiosas ou raciais durante as Olimpíadas. Heraskevych se recusou a usar outro equipamento e foi desclassificado da competição.
Mesmo com as brechas oferecidas pelo COI para que ele continuasse — como o uso do capacete nos treinos e uma braçada preta nas descidas —, o atleta ucraniano não aceitou. Ele afirmou em entrevista a jornalistas que considerava a proibição uma propaganda russa.
“Eu poderia estar entre os medalhistas nesta prova, mas, de repente, devido a uma interpretação das regras com a qual não concordo, não posso competir”
Vladyslav Heraskevych
atleta ucraniano do skeleton
Mais tarde, a falta de atitude do COI contra o snowboarder italiano Roland Fischnaller agravou a situação. O atleta disputou sua prova com uma pequena bandeira da Rússia no capacete.
A Rússia e a Bielorrússia foram suspensas das Olimpíadas de Paris, em 2024, e de Milão-Cortina, em 2026. A decisão do COI se deu pelo rompimento russo da trégua olímpica — fundamento simbólico de suspensão de conflitos mundiais durante as competições — ao invadir a Ucrânia, em fevereiro de 2022, em meio aos Jogos de Inverno de Pequim.