Por que priorizar dispositivos móveis no jornalismo de dados?

 

O conceito de “mobile first” ganhou força no fim dos anos 2000, especialmente a partir das contribuições do designer e pesquisador de experiência do usuário (UX) Luke Wroblewski, autor do livro Mobile First, publicado em 2011.

Naquele período, o acesso à internet por smartphones crescia rapidamente, mas os dispositivos móveis ainda eram tratados como uma tela secundária. Muitos sites eram projetados primeiro para computadores desktop, enquanto as versões mobile surgiam apenas como adaptações posteriores — frequentemente mais lentas, limitadas e difíceis de navegar.

Hoje, essa lógica se inverteu. O celular deixou de ser um complemento e passou a ocupar o centro da experiência digital, inclusive no consumo de notícias. Em 2025, 82% dos brasileiros acessavam conteúdo jornalístico pelo smartphone. No mesmo ano, 63,1% da audiência da seção de Gráficos do Nexo foi de dispositivos móveis.

Para o jornalismo digital, é fundamental considerar as condições reais de uso dessa audiência: telas pequenas, navegação por toque, conexões instáveis e atenção fragmentada. Neste mês, vamos mostrar como utilizamos o “mobile first” nos nossos gráficos, partindo dessas limitações para identificar o que realmente é essencial para a leitura.

 

Definindo o que é essencial

A abordagem “mobile first” também funciona como um exercício de hierarquia da informação. Ao priorizar o que deve aparecer primeiro em telas menores, decisões sobre texto, navegação, ritmo visual e interatividade acabam influenciando toda a experiência nas demais plataformas. Muitas vezes, isso resulta inclusive em interfaces mais limpas, claras e eficientes para os computadores desktop.

No caso das visualizações interativas, essa lógica se torna ainda mais importante. Nem todas as soluções comuns em computadores funcionam bem em telas touchscreen. A seguir, vamos apresentar alguns dos erros mais frequentes ao pensar os conteúdos para diferentes telas.

 

‘Mobile first é só fazer o gráfico caber na tela pequena’

Apenas redimensionar e reorganizar elementos não caracteriza, por si só, uma abordagem “mobile first”, mas sim responsiva. Enquanto o design responsivo adapta um layout já existente a diferentes tamanhos de tela, o “mobile first” considera desde o início as limitações e características dos dispositivos móveis. Isso implica definir previamente quais conteúdos, elementos visuais e interações terão prioridade antes da adaptação para telas maiores.

No material sobre atletas LGBTQIA+ nas Olimpíadas, optamos pelo gráfico em donut por funcionar bem em diferentes tamanhos de tela. O uso de cores para diferenciar categorias e a exibições só dos rótulos mais relevantes reduz a necessidade de texto e evita sobrecarga visual. Essas escolhas de síntese e legibilidade foram definidas desde o início da produção.

 

‘É só começar desenhando pelo celular’

Mais do que uma ordem de produção, a abordagem é conceitual. Ela exige tomar decisões estruturais importantes sobre foco, hierarquia e narrativa, que depois se expandem para telas maiores.

 

‘Mobile first significa simplificar tudo’

Não se trata apenas de simplificar, mas de reorganizar a complexidade da informação. Reduzir conteúdo sem uma estratégia pode comprometer a compreensão, especialmente em visualizações de dados. No celular, em muitos casos, a solução envolve dividir a informação em blocos verticais ou alterar a forma de navegação, não apenas remover elementos da interface.

 

‘O desktop é menos importante’

O “mobile first” não elimina a importância das telas grandes, mas reorganiza o processo de design a partir das características das telas menores. Cada plataforma oferece possibilidades distintas. No desktop, por exemplo, há mais espaço para organizar as visualizações lado a lado, maior densidade de informação e formas de exploração mais amplas em visualizações de dados.

 

Na versão desktop do interativo das notas das escolas de samba, os gráficos aparecem lado a lado, facilitando a comparação, além de incluírem tooltip exibida por efeito hover. No mobile, os gráficos são organizados verticalmente, priorizando a leitura sequencial, enquanto a tooltip é exibida por toque. Cada formato explora melhor as possibilidades da tela.

 

‘Serve só para UI/UX, não para conteúdo ou jornalismo’

No jornalismo e na visualização de dados, essa abordagem influencia diretamente a forma como a narrativa é construída e consumida, afetando o ritmo de leitura, a estrutura da história, as escolhas editoriais e a definição do que será priorizado na experiência.

No material sobre as escalas de trabalho no Brasil, não nos limitamos a reorganizar os elementos para os diferentes tipos de tela. O próprio conteúdo textual foi desenvolvido de forma mais sucinta e direta, considerando desde o início as condições de leitura no mobile, sem comprometer a experiência no desktop ou a profundidade do conteúdo.

 

Numa edição futura dos bastidores do Nexo, veremos algumas soluções simples para aplicar o “mobile first” na visualização de dados.