O lado cultural no ativismo de Laudelina pelas domésticas

Laudelina no VI Congresso Nacional de Trabalhadoras Domésticas, Campinas, São Paulo, 1989. Fotografia analógica em impressão digital

Laudelina no VI Congresso Nacional de Trabalhadoras Domésticas, Campinas, São Paulo, 1989. Fotografia analógica em impressão digital

Laudelina de Campos Mello tinha 29 anos quando fundou a Associação das Empregadas Domésticas do Brasil, em 1936. Ela exercia a profissão desde os sete anos, quando trabalhava para ajudar na renda de casa.

Ao longo da vida, a ativista abriu caminho para o reconhecimento de direitos da categoria de trabalhadoras e se dedicou a promover a cultura negra e as artes. Sua trajetória é lembrada na exposição “Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello” do IMS (Instituto Moreira Salles), em São Paulo, que aprofunda sua história e traz obras de arte feitas por e sobre trabalhadores domésticos.

Neste texto, o Nexo apresenta a trajetória de Laudelina de Campos Mello e mostra como diferentes artistas retrataram o trabalho doméstico em suas obras.

Quem foi Laudelina de Campos Mello

Laudelina de Campos Mello nasceu em 1904 em Poços de Caldas, Minas Gerais, filha de pais libertos pela Lei do Ventre Livre (1871).

“Laudelina é uma filha da abolição. Ela é o começo da liberdade”

Renata Sampaio

artista, educadora e uma das curadoras da exposição em entrevista ao Nexo

Seu ativismo começou aos 16 anos, quando foi eleita presidente do Clube 13 de Maio, agremiação que promovia atividades recreativas e políticas para a população negra de Poços de Caldas.

Na cidade mineira, trabalhou como empregada doméstica para famílias da elite local, como os Moreira Salles (do setor bancário) e os Junqueiras (da agropecuária). Em 1924, Laudelina se casou e foi morar em Santos, no litoral de São Paulo. Ela contribuiu em 1931 com a fundação da FNB (Frente Negra Brasileira), partido político extinto na ditadura do Estado Novo, em 1937.

Ela continuou a trabalhar como empregada doméstica até 1954, quando abriu uma pensão em Campinas. Em 1961, fundou a Associação de Empregadas Domésticas em Campinas, com foco na alfabetização e no entendimento das leis trabalhistas.

Laudelina de Campos Mello

Laudelina de Campos Mello

A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho, lei promulgada por Getúlio Vargas em 1° de maio de 1943) excluiu o trabalho doméstico da legislação trabalhista, o que só mudou em 2013. A partir desse ano, empregadas domésticas, motoristas particulares e caseiros tiveram direitos que já eram reservados a outros trabalhadores, como remuneração de horas extras e limite de trabalho.

“Laudelina foi uma pessoa que organizou as trabalhadoras domésticas como uma categoria da classe trabalhadora, numa época em que elas não eram reconhecidas assim. É uma luta pelo reconhecimento do direito de existir enquanto um grupo de trabalho”, disse Renata Sampaio, artista, educadora e uma das curadoras da exposição em entrevista ao Nexo.

Em 2023, Laudelina integrou o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que contempla personalidades brasileiras que foram importantes para o país na defesa da democracia e da liberdade e que dedicaram sua vida ao Brasil em algum momento da história. A inclusão de Laudelina surgiu da proposta de Celina Leão (PP-DF), governadora do Distrito Federal, e foi aceita pelo presidente Lula.

O reconhecimento formal da trajetória da pioneira foi tardio, na visão de Raquel Barreto, historiadora e uma das curadoras da mostra.

“O trabalho doméstico não é uma exclusividade brasileira, mas em países que passaram pela colonização, como o Brasil, ele é visto como algo de menor valor. Isso faz com que ela não seja reconhecida como outras figuras do movimento negro”, explicou Barreto ao Nexo.

Representantes dos sindicatos de Campinas na Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 10 de agosto de 1965

Representantes dos sindicatos de Campinas na Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 10 de agosto de 1965

A exposição, que passou antes pelo IMS Poços, traz recortes de jornais, fotografias e vídeos em que outras trabalhadoras domésticas narram como foi trabalhar ao lado da pioneira.

Raquel Barreto explica que, na época, as narrativas em torno de Laudelina se dividiam em torno de dois eixos: a redução à figura de “mãe preta” – como a personagem Tia Nastácia, do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, uma imagem de mulher benévola que cuida dos brancos com carinho –; e à de “terror das patroas”, como alguém que estava desorganizando algo que estava organizado.

O incentivo às artes

“Laudelina tinha uma percepção muito completa da luta antirracista. Ela entendia que trabalhar com essas questões também era trabalhar com a festa, com a sociabilidade, com o lazer”, explica Renata Sampaio.

Em 1854, Campinas – cidade em que Laudelina viveu dos anos 1950 até sua morte em 1991 – tinha 57,4% da população escravizada. As marcas deixadas pelo período escravocrata continuavam na cidade 100 anos depois: nos anos 1950, clubes da cidade promoviam bailes nos quais meninas negras não eram aceitas, por exemplo.

Laudelina e Ruth de Souza no “Baile da Menina Moça”, Campinas, São Paulo, 1957

Laudelina e Ruth de Souza no “Baile da Menina Moça”, Campinas, São Paulo, 1957

Na década de 1950, Laudelina criou o concurso Pérola Negra, primeiro baile de gala brasileiro onde mulheres negras eram protagonistas. Em 1955, ela fundou a primeira escola dedicada a ensinar balé e piano para crianças negras.

I Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes, Campinas, São Paulo, início de 1960. Laudelina aparece com Mário de Oliveira, artista cujo trabalho foi incentivado pela ativista

I Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes, Campinas, São Paulo, início de 1960. Laudelina aparece com Mário de Oliveira, artista cujo trabalho foi incentivado pela ativista

A ativista organizou outros eventos, como o Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes, que reuniu artistas da música, da poesia e das artes visuais. Também estimulou a Banda Musical dos Homens de Cor, em Campinas, criada em 1933, quando músicos negros encontravam impedimentos para participar das bandas existentes no município.

Trabalho doméstico nas artes 

Além de focar na vida de Laudelina, a exposição traz obras de diversos artistas sobre o trabalho doméstico e de pessoas que foram trabalhadores domésticos, como Maria Auxiliadora, Madalena dos Santos Reinbolt e Sidney Amaral.

"Toda Doméstica Tem Um Pouco de Dandara", de Dayane Tropicaos. Contagem, Minas Gerais, 2023.

“Toda Doméstica Tem Um Pouco de Dandara”, de Dayane Tropicaos. Contagem, Minas Gerais, 2023.

A exposição, organizada em sete núcleos, retoma a história social do trabalho doméstico no Brasil, relacionando-o ao sistema escravocrata. Nesse primeiro núcleo, aparecem obras como “Lavar e erguer”, da artista Mariana Maia, que traz falas de trabalhadoras domésticas sobre seus cotidianos.

"Lavar e erguer" (2024), de Mariana Maia

“Lavar e erguer” (2024), de Mariana Maia

Em outra parte da exposição, são destacados quadros clássicos que pensam de que maneira a história da arte incluiu a presença da trabalhadora doméstica.  “Parece algo muito distante, mas as trabalhadoras domésticas sempre estiveram presentes. Nós tentamos mostrar como elas aparecem”, explicou Sampaio. 

Já o último núcleo trata do direito ao lazer e ao descanso. Faz parte dessa seção uma cadeira de balanço adornada com elementos que remetem ao universo de Laudelina e do trabalho doméstico, como sapatos de dança e uma carteira de trabalho, da artista mineira Dyana Santos.

Um móvel com quatro itens encerra a mostra. Ele traz o livro “Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada” (2019), de Preta Rara; o diploma “doutora honoris causa” de Creuza Maria, primeira trabalhadora doméstica a receber uma distinção do tipo; uma foto de Benedita da Silva, primeira governadora negra do Rio de Janeiro, que foi empregada doméstica; e o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), de Mirtes Renata de Souza, mãe de Miguel Otávio de Santana – criança que morreu após cair de um prédio de luxo em Recife.

“São as Laudelinas contemporâneas. As mulheres que levaram o legado dessa mulher adiante”, afirma Sampaio.