A uma quadra do hotel, contemplo várias vezes ao dia a fachada da antiga penitenciária de Punta Arenas, construída no final do século 19. É um edifício neoclássico, como tantos outros erguidos na época da abundância econômica da cidade, de cor creme, com frontões, cornijas e grades de ferro forjado preenchendo esquadrias esverdeadas.
Mas não é sobre a arquitetura do imóvel que quero falar.
Preciso retornar a setembro de 1973, quando sindicalistas, funcionários públicos, operários, filiados aos partidos Comunista e Socialista, estudantes — enfim, cidadãos que, aos olhos dos golpistas, eram ameaças ao regime — foram ali encarcerados, tratados como inimigos e, assim sendo, torturados ou transferidos para outros centros de tortura, quando não sequestrados e lançados nas águas do estreito, acorrentados a pedaços de trilhos de ferrovia.
Sim, agora me escuto com atenção, me reconheço ao repetir aqueles nomes. A Penitenciária, o Estádio Fiscal, a Casa do Desportista, o Palácio de la Risa, os regimentos da região e, claro, os campos de concentração de Dawson. Locais onde foram confinados os cerca de 2 mil prisioneiros que a ditadura fez nas cercanias do estreito de Magalhães.
Sim, agora sou eu que estou falando; sigo encadeando nomes, despejando locais, datas, com especial atenção aos detalhes, até que noto a fisionomia de Jorge se transformar; agora, ele também age como um outro.
É claro que ele conhece muito bem essas histórias. Mas diferente de mim, repleto de leituras e de interpretações prévias, Jorge faz parte de um corpo orgânico, um elo na longa linhagem de transmissão oral espraiada por tantos moradores desta cidade.
Memórias pessoais que hoje são coletivas.
Uns haviam sido presos, torturados, ou testemunhado o que se passou em 1973 e nos anos seguintes. Outros lembravam em detalhes o que ouviram de pais, tios, pais de amigos, vizinhos Há ainda aqueles que, como Jorge, combinam dentro de si a infância — feita de ausências, promessas de visitas e retornos que não se confirmavam — e o que se intuía, o que se sabia sem saber, de algum modo referendado num futuro que hoje é dolorido, tomado por emoções que são tão suas quanto daqueles que se conhece, sem falar das aparições com quem se cruza num dos cafés ou bares do centro da cidade, ou próximo ao embarcadouro, vendo seus olhares perderem-se na volúpia das águas, que parecem convidar ao fim ou ao recomeço incessante de uma mesma história, uma história que não trata apenas do passado, mas perpetua-se numa forma própria de eternidade.
Mi padrino estaba allí.
Ouço Jorge falar, baixo, quase inaudível, como se sussurrasse para si. Digo a ele que não entendo. Por favor, pode repetir? Só então percebo que agora estamos além do contrato comercial que nos unia. Suas palavras são ditas de uma nova forma, articuladas em outro lugar de seu cérebro, expulsas de seu corpo com o coração e as vísceras, e me atingem com um tipo de emoção que até então não pude sequer especular nos livros. Sou capaz de dizer que ele gosta disso. Gosta de deixar de lado o roteiro, a sequência de informações que repete diariamente, recebendo em retorno, na maior parte das vezes, espasmos da frivolidade turística: pedidos de fotos, dicas de compra, lojas de presentinhos.
Veja, eles pegavam qualquer um, entende? Essas divisões da polícia, do Exército, para não falar dos psicopatas da dina [a polícia política de Pinochet] te buscavam em casa, na escola — sim, porque até menores de idade foram levados — ou na fábrica em que você trabalhava, quando não te arrancavam de seu próprio carro. E assim começava. Você estava preso, mas não como esperava, era um prisioneiro diferente. No presídio, era separado dos presos comuns, se juntava a outros que, como você, não estavam apenas fora da lei, por um possível delito que tivessem cometido, mas sim fora da lei, da proteção da lei, das mais básicas regras às quais qualquer Estado deveria obedecer.
Sim, ele agora prossegue, e com minha visão periférica procuro os mexicanos, torcendo para que nunca mais voltem. Nesse momento percebo que preciso gravá-lo, ou ao menos ter uma amostra do modo como Jorge diz essas coisas, até mais do que dos detalhes que me conta. Mas não quero interrompê-lo para pedir permissão. Minha atenção agora se divide entre ouvi-lo, reter tudo o que diz, buscar os mexicanos, considerando se devo interrompê-lo ou gravá-lo sem nada dizer, ou, simplesmente, me concentrar em como ele fala comigo.
Também o som de seu espanhol se altera, não sei dizer exatamente como, mas é diferente do que me acostumei a ouvir em Santiago, ou mesmo entre os moradores de Punta Arenas. Não tenho conhecimento, mas posso dizer que a música de suas palavras traz sons novos, ou será que o que sua voz projeta toca minha carne com algo além de palavras? Será que estas são portadoras de um eco que se mistura ao que lhe é seu, expandindo-se como o dialeto dos mutilados pela dor, pelo trauma e o desalento? Mas não posso me dispersar, deixar-me levar por minhas especulações, preciso me concentrar na fala de Jorge, e é o que faço.
Eles metiam os presos nessas celas minúsculas, superlotadas, e isso não era o pior, depois que você começava a entender o que estava se passando, assim me disse meu padrinho, rezava para não ser retirado dali. O pior que podia acontecer era sair, já que naqueles primeiros dias ninguém voltava para casa, a ninguém era dito pode ir, nos desculpe, foi um engano, volte para sua família. O que realmente acontecia era a inteligência militar te arrancar dali para ser interrogado, torturado, levado para outros campos de detenção. O que realmente acontecia é que os que saíam não eram mais vistos e, se por um acaso você os reencontrava em outros centros do horror, já não eram mais os mesmos, você já não era o mesmo. Era como um encontro entre estranhos, estranhos que perderam parte da audição, cujas mãos tremiam, estavam mais magros, não dormiam, ou tinham pesadelos terríveis, para não falar daqueles que você não mais via, mas sabia que estavam lá com você, mas tão deprimidos, tão subjugados pelo terror, que era como se simplesmente não fosse possível reconhecê-los.
Todos vocês, e agora sou eu quem falo, ouviram essas vivências do corpo e do espírito no vento que corta o estreito, e não apenas as ouviram, mas viram e veem, os mesmos prédios ainda de pé, as mesmas fachadas, afinal o que se construiu tem história, é uma coisa viva, guarda algo que se pode ouvir com atenção como um sussurro desesperado.
Não é apenas o que se passou com o corpo, mas no que se transformou a cidade. Como é possível que uma casa como a Beaulier — eu agora me empolgo, pois no dia anterior havia ido lá, em frente aos tapumes que cobrem a reforma que o Estado realiza na residência que o arquiteto mais importante da época de ouro de Punta Arenas ergueu para si nos anos 1930 —, um lugar que por anos serviu à Cruz Vermelha, possa ter se tornado o que se tornou? Um centro de choques nos tímpanos? De crânios perfurados? Como é possível, pergunto? Como dizer que o que foi feito nesses lugares se perdeu com os corpos que pereceram? Como dizer que a dor, o medo e a humilhação não seguem por lá, não permanecem incrustados naquelas paredes que hoje estão sendo lixadas, repintadas? Na verdade, extrapolam as paredes, chegam às ruas, tocam as matilhas de cães vadios que por ali circulam, e assim como cada corpo, cada visão, cada olhar que se pôs naquele lugar e se perguntou de si para si se é verdade o que dizem. Se é verdade que essas coisas tenham acontecido ali.

A ilha do silêncio
José Godoy
Fósforo
176 páginas