O que se pode vender?
Brinquedos muito baratos, que quebram pouco tempo depois de comprados. Pomadas, cremes para a dor. Roupas, sapatos. Adaptadores de tomada, tecidos, artesanatos, tigelas de plástico, plantinhas da serra. Comida. Licores, destilados, fermentados. Também se podem vender medicamentos, hormônios, saúde e doença. Pode-se vender a possibilidade de dormir, de não sentir mais nada, nunca, até a morte. Podem-se vender o consolo, a ideia de um céu e até uma grande variedade de castigos.
Podem-se vender prazeres, chicotadas, urina, merda, sexo simples, sexo mecânico, sexo oral, sexo anal, sexo sem proteção, sexo entre muitos, sexo sexo sexo. Podem-se vender a juventude, o carinho, também os beijos, os tapas, as pisadas, os cuspes e os arranhões. Vendem-se o drama, a tragédia, a fidelidade, a comédia, as atrizes se vendem, os roteiristas se vendem, e suas ideias são vendidas como pão quente.
Vendem-se também leis, votos, cumplicidades e traições. Vendem-se assassinatos, órgãos humanos, animais em extinção, a pele dos animais, o chifre dos animais, os cadáveres, os corpos vivos, os dentes, os caixões, o sêmen, os óvulos.
Podem-se vender o cuidado, o entretenimento, a impunidade. Obras de arte, filmes, viagens, ingressos para um grande show inesquecível, uma cadeira escangalhada num teatro distante, a leitura do futuro, a comunicação com os mortos. Uma visita à praia, a um cenote, um passeio pela selva ou pela savana. Podem-se vender o amor, a simpatia, a indulgência. O petróleo, o gás, a eletricidade, a internet. Toda a tecnologia possível. Podem-se vender um menino, uma menina, uma adolescente, a liberdade, a ideia de liberdade, a deformação da liberdade, um diploma universitário, uma libertação da prisão, um escravo. Vendem-se a beleza, o brilho, a tortura, venenos que fazem promessas. Joias, café para viagem, uma fotografia, seu nome escrito num grão de arroz.
Anos da sua vida, noites da sua vida, toda a sua juventude, sua velhice. Tudo isso.
Uma morte digna, a eutanásia limpa e indolor.
Podem-se vender os escritores, os editores, as ideias, os contos, as histórias familiares, as histórias de amor, as denúncias, os ativistas, o momento exato em que um coração se parte como uma taça, ao meio, irreversivelmente, o corpo de uma travesti, o conhecimento, a sensação de que somos importantes. Podem-se vender os filhos, os filhotes da sua cadela, a aliança de casamento que amargura seu rosto. Pode-se vender a memória de um corpo, tudo o que ele aprendeu com dor.
Podem-se vender os prêmios, os elogios, os espaços publicitários, os drinques, o salmão. O pão seco e morto que distribuem nos refeitórios escolares. Pode-se vender um tratado de paz, mas também uma faca e uma pistola.
Os órgãos de alguém saudável.
Tudo o que tem vontade de existir.
Vende-se a terra.
Uma casa, as pedras de uma casa, a areia de uma casa, a cal de uma casa, a segurança de uma casa.
Vende-se uma sepultura. Por um preço específico, podem reduzir você a cinzas.
E, se você quiser, pode vender o poder irrefutável do seu cu, o buraco que sabe tudo antes da sua consciência, o onisciente que governa o mundo. Não o sexo, não a penetração, nem sequer um jorro de saliva que escorre por entre as suas pernas. A energia radioativa, instável, invencível do cu, que ensinou você mais do que qualquer professor na vida.
Lá fora, o comércio acontece. Não há corrente que o segure. E é o trabalho mais exaustivo que existe. Quando acontece, alguém leva consigo o que antes estava a salvo em outras mãos. Comprar e vender são atos que pertencem à maldade. É um terreno hostil para os bons. É necessário, para abrir essa porta, estar amargurado com a vida. O comprador experiente fede, porque vem saturado de azedume.
Estamos vendendo algo neste momento. Pelo menos nesta noite gelada em que escrevo, está acontecendo o comércio das minhas palavras. Minhas palavras sobrevivem ao meu desejo, devoram-no. Não imagino outra música possível para o meu desejo senão o silêncio do desamor.
Por que se vende?
Pelo dinheiro. É sempre pela possibilidade de ter algo.
Um amante, um vestido novo, um perfume, um par de sapatos vermelhos, as mãos cobertas de ouro, sêmen na minha boca, um hotel entre a selva e o mar, uma janela da qual se contempla o entardecer incendiando o contorno das montanhas.
Os sabores que não foram feitos para minha boca. Os vinhos que meu paladar nunca provou.
O gosto vazio da vingança de uma mulher pobre. É por isso que se vende.

A traição da minha língua
Camila Sosa Villada
Trad. Silvia Massimini Felix
Fósforo
88 páginas