‘Derrocada’: à procura do que fazer de uma vida mínima

Sento na poltrona de leitura de veludo creme. Ela é muito grande para o apartamento. Apesar de ser uma poltrona de leitura, eu sempre cochilo nela. Ou melhor, eu costumava cochilar nela no antigo apartamento. Não consigo deixar de pensar que a poltrona de leitura de veludo creme é exagerada para este espaço, o que faz com que o antigo prazer de cochilar nela diminua sensivelmente. Mesmo assim me parece tola a ideia de que um móvel possa perder parte do seu conforto, digamos assim, por conta do ambiente, pensei agora. Ninguém costuma entrar aqui. Na verdade, ninguém nunca entra aqui, então não deveria haver problema na falta de jeito da poltrona com os demais móveis ou com o próprio espaço reduzido em si; uma poltrona não se envergonha de nada! Aluguei este apartamento quarto e sala no centro da cidade para provar que todo o aparato anterior de classe média, bem como seu horizonte implícito, e explícito, de conforto burguês, me eram absolutamente dispensáveis. Pensando bem, não deixa de ser um ato de sacrifício patético, se é que se pode colocar nesses termos, no que diz respeito ao sacrifício, claro, e não ao seu caráter patético, já que me envergonharia de receber visitas neste apartamento quarto e sala, justamente pela ausência dos chamados aparatos burgueses de conforto e distinção. Quando eu era jovem, um apartamento quarto e sala como este era chamado de quitinete, e eu jamais morei em um deles, ao menos não até hoje. A poltrona de leitura de veludo creme ficou comigo após o divórcio; uma espécie de troféu. Ou de vingança, reflito melhor. Hans Castorp não era capaz de entender por que os seus amados charutos Maria Mancini haviam mudado de sabor após a chegada dele em Davos-Platz. Ele continuou fumando por pura teimosia. Ele não fazia parte do mundo lá de cima, como o primo de Hans Castorp costumava se referir ao universo do sanatório Berghof; não fazia parte ao menos no início do livro, e portanto manter hábitos e prazeres antigos parecia funcionar como uma prova disso; uma prova para ele mesmo e para os outros, os doentes, no caso. O olhar dos outros, dos doentes, parecia então confirmar para Hans Castorp que ele definitivamente não era parte daquele mundo, o mundo lá de cima, uma vez que ainda lhe era permitido ostentar certos luxos da planície, vetados, ao menos Hans Castorp pensava assim inicialmente, ao grupo de tuberculosos do sanatório Berghof — pensei que ele talvez pensasse dessa forma sobre os seus charutos, como se Hans Castorp não fosse o personagem de um livro, mas um sujeito autônomo com vontades e pensamentos próprios, além daqueles que o narrador do livro havia inventado para ele. Mas, conforme Hans Castorp se adapta à rotina do sanatório Berghof, me lembrei agora, os charutos recuperam o sabor original. Mesmo assim, apesar de sua gradual adaptação, ele fala, ou melhor, o narrador escreve que ele fala, para ser mais preciso, algo como habituar-se a não se habituar — o que funcionaria como uma espécie de defesa e proteção em relação à vida no sanatório Berghof, com todas as implicações para ele mesmo, para os de lá de cima e também para os familiares na planície; a frase habituar-se a não se habituar também poderia funcionar como uma reserva, uma carta na manga, como se diz, isso no caso de algum tipo de arrependimento futuro. A imagem me parece boa, a de habituar-se a não se habituar, pensei agora, mas sem saber exatamente como aplicá-la em outra situação. Isso acontece muito com a literatura, pensei, um tipo de sabedoria sempre aguardando o momento certo de ser usado, que, no entanto, parece nunca chegar; uma sabedoria latente, que precisa ter sua forma decifrada para ganhar o mundo, como se diz. Nesse caso, a ideia fica à espera da forma, que se repita algo da situação para a qual ela havia sido desenvolvida. As primeiras três semanas no sanatório parecem exigir três semanas para serem lidas, o que pode ter sido mais ou menos calculado pelo autor, Thomas Mann, claro, já que há, por todo o livro, inúmeras reflexões sobre a passagem do tempo. Não tenho, no entanto, certeza a respeito disso, refleti por um instante, desconfiado se era possível tamanha precisão por parte do autor. Como saber o tempo de leitura de cada um? Moro há três semanas neste apartamento quarto e sala no centro da cidade. O assento da poltrona de leitura de veludo creme parece de fato mudado. Talvez tenha sido danificado na mudança, pensei. Não sou mais capaz de encontrar posição na qual eu possa me acomodar por horas sem me lembrar da existência do meu próprio corpo, como costumava fazer antes do divórcio, no antigo apartamento, que definitivamente não era um apartamento quarto e sala. Ao meu lado, na verdade ao lado da poltrona de leitura de veludo creme, está a pilha de livros que eu havia separado para o meu aluno mais talentoso. Ele está interessado no mal. Por todas as paredes da sala do apartamento sala e quarto há pilhas de livros que chegam quase a tocar o teto; não há de fato mais paredes livres. Pensei que era uma bobagem, ou melhor, uma futilidade, comprar estantes para exibir os livros como se fossem troféus — ou, pensando melhor, essa atitude, a de não comprar móveis para projetar sobre eles o olhar dos outros, talvez revele uma provisoriedade inconsciente em relação a esta situação difícil de ser sustentada: viver livre da parafernália de distinção burguesa. Sempre o olhar dos outros, pensei enquanto me lembrava novamente dos Maria Mancini de Hans Castorp. Engraçado, pensei, intrigado, uma vez que eu nunca fumei, a impressão de saber diferenciar o sabor correto e o meio estragado de um Maria Mancini, ou seja, o sabor dos charutos na planície e lá em cima, como o primo de Hans Castorp se referia ao mundo do sanatório Berghof, ou seja, o dos doentes, é uma falsa informação que a literatura implantou na minha mente como se fosse fruto de uma experiência direta. Em plena Guerra Fria, muitas pessoas comuns, que procuravam ajuda para os seus sofrimentos emocionais em institutos ligados às grandes universidades norte-americanas, acabaram, inadvertidamente, servindo de cobaia involuntária para todo tipo de experimento: apagamento de memória, substituição de personalidade etc. — as melhores cabeças, como se diz, daquele país, não poucas vezes usaram seu talento para fins nada louváveis, pensei.

Derrocada

Tiago Ferro
e-galáxia
130 páginas