‘Ecos do Antropoceno’: questões ambientais urgentes

O clima sempre foi um dos principais parceiros e, ao mesmo tempo, um dos limitadores da civilização humana. Nos últimos 10 mil anos, um clima estável foi a força motriz dos primeiros agrupamentos humanos, da agricultura e das primeiras civilizações. Nesse período, as interferências humanas na ecologia foram tímidas. Foi quando surgiram ecossistemas mais estáveis e biodiversos nos climas temperados, o que levou várias espécies a se adaptarem às estações e ao aumento da biodiversidade tropical. É como se a Terra nos tivesse dado uma tela em branco para começarmos a pintar nossa história. 

Até a Revolução Industrial, o clima, em sua essência, não tinha sido alterado pela ação humana. Apesar de mais de duzentos mil anos de história do Homo sapiens, o aquecimento global pela ação humana emergiu apenas há 170 anos, tornando-se realmente grave nos últimos 30 anos. Antes da era industrial, o balanço de carbono era ditado por fatores naturais, com cerca de 280 ppm (partes por milhão) de CO₂ na atmosfera. Com o início do Antropoceno, por volta de 1850, esse balanço começou a se alterar lentamente, mas foi um século depois, a partir de 1950, que as mudanças se intensificaram. Em 2025, a concentração de CO₂ chegou a 424 ppm, formando o temido “efeito estufa”, que já elevou a temperatura da Terra em 1,2°C em relação aos níveis pré-industriais. Como se não bastasse, desde 2024, temos presenciado meses com temperaturas superiores a 1,5°C em relação ao mesmo período. 

Os cientistas do IPCC, ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, um órgão das Nações Unidas que avalia a ciência relacionada às mudanças climáticas, apontam que 1,5°C deveria ser o nosso teto de aumento de temperatura sobre as bases da Revolução Industrial. Esse aquecimento já causa distúrbios significativos, esgotando a resiliência da Terra em várias funções climáticas e ecológicas, provocando eventos climáticos extremos. Os tipping points estão na esquina da instabilidade climática, à espreita, para as próximas gerações. Nunca foi tão verdadeiro dizer que o tempo é agora! 

Os eventos extremos, como secas, furacões e tempestades, são cada vez mais frequentes e intensos. Não era assim até meados do século 20, mas, desde então, o número de desastres naturais disparou. Na década de 1920, foram apenas 53 eventos. Já na década de 1990, esse número aumentou para 2.380! E continuou a crescer no século 21, atingindo mais de 3 mil desastres em sua segunda década. Sim, há ressalvas sobre as estatísticas de coleta de dados de desastres há 70, 80 anos. Mas é inegável que o número de eventos climáticos extremos escalou de forma exponencial desde 1950. O aquecimento global criou um cenário perfeito para mais tempestades, com os oceanos absorvendo mais de 90% do calor gerado pelas emissões de gases do efeito estufa. Isso resulta em mais evaporação e tempestades intensas, um ciclo de “aquecimento que gera mais aquecimento”. 

Para enfrentar as mudanças climáticas, o caminho possível é o da cooperação, no qual ciência, governos, indústria e sociedade reúnam as forças necessárias para vencer o negacionismo de alguns. O grande desafio é alcançar a tão falada “ambição climática”, rumo a uma economia descarbonizada, enquanto o mundo parece estar preso em um ciclo de promessas não cumpridas. Desde o emblemático Acordo de Paris, na Conferência das Partes para o clima (COP) de 2015, os países têm lutado para manter o aumento da temperatura global dentro de uma meta ideal de 1,5°C. Mas essa ambição não saiu do papel. Na prática, corremos atrás de uma dívida que só cresce. Segundo dados do State of Climate Action 2025, da International Energy Association e do IPCC, para manter o teto de 1,5°C, o mundo precisaria:

Para atingir as metas climáticas, o mundo precisaria reduzir drasticamente suas emissões. No entanto, apesar das promessas, os compromissos de redução de emissões parecem estar presos em uma mentalidade ultrapassada do século 20. As emissões globais continuam a crescer, e a transição para energias renováveis ainda é lenta. É como se estivéssemos correndo contra o tempo, mas vivendo a vida na primeira classe do Titanic prestes a colidir com um iceberg que está fadado a derreter. 

A transição energética de fósseis para renováveis é uma agenda fundamental, cercada de desafios. Cada nação tem seu papel a desempenhar, mas precisamos correr atrás do prejuízo e agir a tempo. Conflitos e guerras à parte, a cooperação entre as nações nunca foi tão necessária como agora. 

Ecos do Antropoceno

Luiz Villares
casa matinas
153 páginas