5 livros para sentir a potência da escrita feminina

Entre jornadas múltiplas, silêncios rompidos e espaços conquistados, os livros são territórios de celebração das mulheres. A escrita feminina é um gesto de força, memória e reinvenção do mundo. Conhecer autoras amplia horizontes, fortalece trajetórias diversas e reafirma a universalidade e a potência da experiência feminina.

 

O hábito literário é uma experiência de reconexão e consciência, e a leitura de mulheres abre caminho para narrativas que historicamente foram silenciadas. É um encontro com outras perspectivas e também com a própria história.

 

A seguir, indico narrativas em prosa e poesia que perpassam temas como identidade, memória, maternidade, autonomia e impasses contemporâneos, para mostrar como a palavra escrita por mulheres é movimento, presença e transformação.

 

Bagagem

Adélia Prado (Record, 2025)

 

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“Bagagem” é o meu livro favorito. Adélia Prado escreve com lirismo sobre fatos do cotidiano, o que resulta em poemas com linguagem acessível e, ao mesmo tempo, que tratam de temas profundos. Aclamado com entusiasmo por Carlos Drummond de Andrade, seu livro pode — e deve — ser lido por mulheres que buscam o seu lugar no mundo, pois encontrarão na poesia de Adélia a potência de sua voz, mesmo na condição de mãe ou dona de casa.

 

Pangeia

Mariana Basílio (Assírio e Alvim, 2024)

 

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“Pangeia” é o quinto livro de poesia de Mariana Basílio e recebeu o Prêmio Biblioteca Digital do Estado do Paraná em 2020. A poesia de Mariana é inspiradora e repleta de reflexões líricas. A autora faz uma espécie de apanhado sobre a comunicação humana, de modo a conjecturar sobre a língua e a palavra. Para a publicação do livro físico, em 2024, a autora incluiu um texto em homenagem aos poetas e aos mortos da Faixa de Gaza na guerra deflagrada em 2023, no qual medita sobre a crise humanitária no mundo contemporâneo. 

 

O peso do pássaro morto

Aline Bei (Companhia das Letras, 2025)

 

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Li “O peso do pássaro morto” em um dia. Nele, Aline Bei consegue contar uma história com força e delicadeza, costurando uma narrativa envolvente. A leitora é levada por um mergulho que abarca a vida da personagem dos oito aos 52 anos de idade, observando como determinadas passagens importantes de sua juventude se desdobram nos acontecimentos da vida adulta. Com uma prosa poética afiada, a autora emprega recursos estilísticos que parecem promover uma dança no papel, bem marcada pela oralidade e riqueza da voz da protagonista.

 

A pediatra

Andréa del Fuego (Companhia das Letras, 2021)

 

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“A pediatra” é um dos livros mais instigantes que já li. A protagonista, Cecília, é uma pediatra com comportamento às avessas do que se espera de uma médica que se dedica a cuidar de recém-nascidos. Apesar de detestar crianças e não manter vínculo com os pequenos e suas famílias, a personagem acaba se encantando com o paciente Bruninho — filho do homem com quem tem um caso —, e passa a viver uma vida de experimentação do cuidado e do apego materno. No livro, Andréa del Fuego reflete sobre os bastidores dos partos humanizados e seus profissionais com rapidez e sarcasmo. Certamente um romance que vai arrebatar quem se interessa por dilemas contemporâneos envolvendo ética e abuso de poder.

 

Soroca

Angela Marsiaj (Urutau, 2024)

 

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Angela Marsiaj contou que levou oito anos para escrever esta obra. Acredito que todo o tempo de dedicação tenha valido a pena. “Soroca”, que quer dizer algo como “fenda no solo causada por infiltração de água”, mescla duas histórias em tempos distintos. Uma, que se passa no tempo atual, sobre a relação entre uma mãe e sua filha, e outra sobre uma jovem no século 18. O elemento comum entre as histórias é o rio Verde, localizado na região da Vila Madalena, em São Paulo. Para além da mescla entre passado e presente, a narrativa do livro acende um alerta em relação ao meio ambiente, considerando a urgência de se pensar as cidades e seus subterrâneos.

 

Fabiana Grieco é escritora e professora universitária. Doutora em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo) e mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Autora de poesia, publicações acadêmicas e obras destinadas ao público infantil. Seus livros mais recentes são “Bom amar” e a antologia “Um ventre todo seu”, da qual é organizadora e autora, ambos publicados pela Editora Urutau.