
Um livro aberto
A morte é o tema principal das obras mais recentes dos escritores Camila Appel, Fernando José de Almeida e Giovana Madalosso, que participarão d’A Feira do Livro, evento que ocorre entre 30 de maio e 7 de junho na praça Charles Miller, em São Paulo.
“Enquanto você está aqui” (2026) revira pesquisas de Appel sobre a morte feitas por 12 anos para o blog “Morte sem tabu”. Almeida fala da partida de sua filha em “Elogio à saudade” (2026). Já “Batida só” (2025), de Madalosso, oferece o ponto de vista das crianças sobre o assunto.
Neste texto, o Nexo mostra como a morte aparece na obra dos três autores.
Camila Appel escreve sobre a morte desde 2014 no blog “Morte sem tabu”, do jornal Folha de S.Paulo. As pesquisas sobre o tema e os cuidados que sua mãe, a dramaturga e pedagoga Leilah Assumpção, precisou receber após as sequelas de um AVC (acidente vascular cerebral) originaram o livro “Enquanto você está aqui” (2026).
“Minha editora, a Fernanda Diamant, achava que eu tinha que me colocar mais nesse livro. Foi quando percebi que não estou distante desse tabu [da morte], ele está em mim. Quando fui investigar esse sentimento, deparei-me com o medo da morte dos meus pais, principalmente da minha mãe”, disse Appel em entrevista ao Nexo.
As pesquisas feitas por 12 anos tornaram-se, então, pano de fundo para abordar a relação entre Appel e Assumpção, principalmente com relação à dificuldade que a filha tem de lidar com o envelhecimento da mãe.
Segundo Appel, o livro a ajudou a lidar com o medo da morte.
O trabalho também aproximou mãe e filha. Foi Assumpção quem sugeriu o título “Enquanto você está aqui”, por exemplo. A partir de conversas com a dramaturga, Appel também descobriu o que ela queria para o seu velório.
“Descobri que ela tem muito menos tabu do que eu para falar da morte dela. Ao contrário, ela queria falar sobre isso. Acho que porque nossos pais têm medo de serem um fardo, de morrerem e nos deixarem numa situação vulnerável”, afirmou a escritora.
“Precisamos ter uma filosofia de ver a morte não como uma inimiga a ser vencida, como uma guerra a ser batalhada, mas como algo mais leve, com o qual você pode conviver”
Camila Appel
jornalista e autora de “Enquanto você está aqui”, em entrevista ao Nexo
“Hoje a morte não é aquele monstro que pode puxar meu pé à noite na cama. É algo que vai machucar, mas algo com que eu consigo lidar sem pânico”, disse a escritora.
Fernando José de Almeida enviou o último e-mail à filha Lorena em 11 de novembro de 2023. Era um convite para o almoço de domingo e algumas correções de um trabalho dela para o curso de psicanálise. No dia seguinte, família e amigos descobriram que ela havia cometido suicídio.
Almeida começou a receber diferentes indicações de leitura depois da morte da filha. “Eu tinha resistência a ler textos que tratam a morte com conselhos ou princípios explicativos. Acho que a morte não tem explicação”, disse em entrevista ao Nexo.
A resistência foi deixada de lado quando uma amiga de sua filha sugeriu a leitura de um texto do site “Vamos falar sobre o luto?”, que acolhe relatos de pessoas enlutadas. Depois, surgiu um convite para uma entrevista ao site, que Fernando negou. No lugar, ele escreveu um texto sobre sua experiência.
“Esse foi o processo: a substituição de uma conversa por um texto escrito. Ao escrever, eu sentia prazer em compreender melhor a situação e valorizar as coisas maravilhosas que tinham acontecido em meio à tragédia”, afirmou.
Enquanto escrevia, o autor pensava na família. “Pessoas que estavam juntas comigo sofrendo as mesmas coisas”, disse. O sentimento era de que ele deveria reposicionar a trajetória do que aconteceria dali em diante.
“Trabalhei neste livro durante um ou dois anos, abordando temas psíquicos, mentais e fisiológicos. Esse conjunto de coisas me ajudou a me relacionar e a me aproximar de outras pessoas, como meus netos e minha esposa, cuja reconexão ficou difícil porque [a morte] é um tema que nós sempre tocamos com insegurança, com medo”, afirmou.
“Durante esse momento, recebi demonstrações de amizade, fraternidade e compromisso como nunca. Foi uma avalanche de solidariedade. O que ficou disso para mim é isto: o compromisso diário que as pessoas têm comigo e com minha esposa”
Fernando José de Almeida
professor, filósofo e autor de “Elogio à saudade” (2026)
Além de falar sobre a morte, o livro de Almeida aborda a esperança – isto é, o que ainda acontecerá em sua vida.
“A pergunta ética fundamental sobre o que é ser feliz também abarca o futuro. O que determina o meu projeto de vida não é apenas o que fui, mas o que quero ser ainda. Tenho 82 anos, mas quero muitas coisas”, disse o escritor.
Autora de títulos como “Suíte Tóquio” (2020) e “Tudo pode ser roubado” (2018), Giovana Madalosso precisou tomar cuidado para não gerar emoções fortes em sua filha quando ela, ainda criança, começou o tratamento para um problema cardíaco.
“A partir desse momento, comecei a observar as emoções e como elas se relacionavam com o coração. Comecei a privá-la [a filha] de vários sentimentos, não queria que ela se emocionasse de felicidade, nem sentisse medo, e enxerguei nisso uma metáfora para os nossos tempos”, disse a escritora em entrevista ao Nexo.
O livro mais recente da autora, “Batida só” (2025), é inspirado nessa situação. Nele, a jornalista Maria João descobre um problema cardíaco ao sofrer uma tentativa de estupro.
A partir de então, a protagonista precisa tomar cuidado com as emoções fortes – que vão desde rir sem parar com um filme até o estresse com o ex-namorado. Para isso, decide voltar para a casa de sua avó, em sua cidade natal.
No local, ela se reconecta com Sara, uma amiga de infância, e seu filho Nico, uma criança que sofre de um linfoma incurável.
“Sara e Nico surgiram porque eu queria escrever sobre a dor que vivi e observei em outras mães com filhos que adoeceram”, disse a autora.
Madalosso também tinha dúvidas sobre como as crianças lidavam com a morte.
“Nos hospitais que visitava, eu observava crianças que tinham diagnósticos graves, que morreriam. Eu me questionava como elas olhavam para a morte, já que nós, que somos adultos, quase nunca estamos preparados para lidar com isso”, afirmou.
“Vivemos numa sociedade que não nos prepara para morrer, para falar sobre o tema. Nós apenas fingimos que a morte não existe, como se isso facilitasse”
Giovana Madalosso
autora de “Batida só”, em entrevista ao Nexo
Para a autora, “Batida só” fala sobre como a morte às vezes pode trazer uma nova perspectiva para a vida.
“Acho que o adoecimento de Maria João e a perspectiva da morte de Nico dão vida à realidade da protagonista. Eles fazem com que ela valorize mais seus dias”, disse.