‘O ano em que falamos com o mar’: um olhar para o passado

Um turista, pois. Então tinha sido por isso que enfiamos as pás na terra e deixamos de lado os rastelos, por isso que abandonamos o trabalho naquela manhã em que o verão começava a se despedir. Nós que estávamos por ali fomos atingidos por uma primeira onda de desilusão, que, no entanto, quis se recolher quando algum de nós fez notar o que depois seria impossível deixar de ver:

— Ele tem um rosto tão familiar.

Então estreitamos os olhos, tentando vencer a distância. E o vimos.

— Merda. É igualzinho.

— Não, espere. Igualzinho não é.

É que talvez não fosse nada além da ilusão tão grande que tínhamos de que acontecesse algo, qualquer coisa. A desesperança, ou o tédio, ou a tristeza que levávamos guardada em nós havia sete anos voltou a se chocar contra a ilha.

— Na verdade, não se parece tanto — vinha a onda.

— No tom moreno, um pouco — recolhia-se de novo.

— E no porte — um pouquinho mais para dentro.

— Com barba se pareceria mais, mas assim nem tanto — vinha de volta.

— Eu não acho o jeito parecido — estourava, estourava mesmo a onda da desilusão.

Que estupidez, se provavelmente era pura coincidência, uma conjunção boba entre os sinais difusos da ilha e uma semelhança que, com sorte, serviria para nos dar algo de que falar naquela tarde na taberna e para nos perguntarmos por onde andaria dom Julián.

No entanto, uma vez fora da pista, quando pareceu sentir-se seguro, ou pelo menos tranquilo, ou pelo menos em equilíbrio, o forasteiro deu as costas para o mar, apoiou os punhos nos quadris e lançou um olhar amplo sobre a ilha, enquanto soltava o ar da viagem pelo nariz, lenta e profundamente, no ritmo da paisagem.

Abarcou-a inteira, a ilha, em largura e em comprimento e em altura, como se estivesse se apoderando dela com o olhar.

Então acabamos por reconhecê-lo.

— Ah, caramba! É ele sim!

— O irmão!

— Fazia quanto tempo que não vinha?

— Eu pensava que se pareciam mais.

— É que talvez não seja ele.

Mas era, sim. Soubemos disso pelo olhar amplo, pelo suspiro de quem volta. Também estava dizendo com os olhos: havia algo neles que falava do tempo e da nostalgia, da necessidade de juntar as imagens das lembranças com as que tinha agora à vista, de colocá-las umas sobre as outras para comprovar se se encaixavam ou se era preciso fazer alguns ajustes na memória.

Depois acenou para Mike com a mão, empurrou a mala e foi embora. Um pouco mais à frente acabou o cimento e as rodas da sua mala se tornaram inúteis.

Nós voltamos às nossas coisas. Ainda era meio-dia.

Pode ser que ainda restassem dúvidas, mas, em todo caso, elas terminaram de se dissipar naquela mesma tarde. A filha de dom Hugo passou pela taberna e nos contou que o tinha visto lá do cemitério novo. O homem estava parado em frente ao casarão abandonado dos Garcés, apoiado na alça da sua malinha e olhando tudo de boca aberta, impactado pela ruína da propriedade da família. De vez em quando fazia uma corneta com as mãos e gritava “Olááá?”, e depois “Alôôô!”, mas cada vez mais baixinho, cada vez com menos esperanças, lançando olhares ao redor como quem se pergunta debaixo de que árvore teria de passar a noite ou a que horas a tempestade decidiria estourar.

— Olhe, se você está procurando dom Julián, não vai encontrá-lo — disse-lhe a menina do outro lado da cerca, preocupada que aquela gritaria interrompesse o descanso dos náufragos.

— E onde o encontro?

— Tem que subir pela trilha, morro acima. Siga a fumaça da chaminé, consegue ver?

O forasteiro olhou para cima. Teve de inclinar bastante o pescoço para trás para que os olhos fossem além da folhagem da mata e conseguissem distinguir a fumaça que subia ali de La Punta.

— Puxa vida. O que Julián está fazendo lá em cima?

— É lá que ele mora. Em La Punta.

— Em La Punta? Isso ficava muito longe.

— Ficava não. Fica. Por isso vemos pouco dom Julián. Ele já não desce nunca.

— E de que ele vive? E por que foi embora do casarão? E que diabos faz um cemitério aqui?

A filha de dom Hugo não tinha nem respostas nem muita vontade de falar, portanto deu de ombros antes de se perder outra vez entre as cruzes, enquanto o recém-chegado xingava um pouco, trocava outra vez a pasta de ombro e aceitava que seu destino, ao menos naquela tarde, ao menos no seu primeiro dia na ilha, era ir até a ponta do morro, literalmente.

— Quanto tempo fazia que não vinha? — voltamos a nos perguntar naquela noite na taberna.

Mas a verdade é que nós também não tínhamos respostas, e a vontade de falar, esta já havíamos perdido fazia muito tempo. A gente achava melhor assim, ficar ouvindo a chuva, erguendo as sobrancelhas de vez em quando, perguntando-nos de tempos em tempos se as imagens das nossas lembranças também precisavam de alguns ajustes, e esquecendo do assunto no segundo trago.

No fim, tampouco tinha sido para tanto.

Já estava acabando, o verão já estava nos escapando quando o vimos chegar. Os últimos dias tinham estado nublados, e este também. O ar morno, o mar agitado, o movimento dos pássaros, o repicar do sino afundado: a ilha fazia o que podia para nos anunciar a chuva e também uma visita.

Jerónimo Garcés era a visita.

A chuva, bem…

A chuva era a chuva.

O ano em que falamos com o mar

Andrés Montero
Trad. Silvia Massimini Felix
Pinard
240 páginas