‘Endividamento, crédito e racismo estão interligados’

Pessoa realizando pagamento

Pessoa realizando pagamento

Em 2023, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva deu início ao programa Desenrola Brasil, visando a renegociar dívidas de famílias brasileiras. Uma segunda versão da iniciativa deve ser anunciada em 2026.

67%

dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras, segundo pesquisa Datafolha divulgada no domingo (19)

Para o geógrafo e pesquisador Kauê Lopes dos Santos, autor de “Parcelado” (Editora Fósforo), as ações do programa funcionam como medidas de curto prazo, que não solucionam estruturalmente o problema, mas garantem a volta das pessoas ao mercado de consumo e de crédito.

Em “Parcelado”, lançado em 20 de abril, o pesquisador analisou como o acesso ao crédito formal transformou a rotina da população de baixa renda – e de maioria negra – nos bairros Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela, em São Paulo.

“Procuro defender no livro que o endividamento crônico — que aliena o futuro e dificulta a mobilidade social do sujeito — entra como uma nova variável para essas populações negras nas periferias”, disse o autor ao Nexo.

Nesta entrevista, o geógrafo falou sobre como o chamado “endividamento crônico” se organiza nas periferias, de que maneira ele é retroalimentado pelo racismo e como famílias têm lidado com o problema, segundo depoimentos colhidos para o livro.

Como se deu a expansão da oferta de crédito no Brasil? Quais as particularidades desse processo em relação a outros países? E qual foi o papel do governo nisso?

Kauê Lopes dos Santos A construção do mercado de crédito brasileiro, chave para entender o consumo, começou na década de 1990.

A partir desse momento, tivemos uma série de transformações de caráter macroeconômico – no sistema financeiro nacional e ligadas à estabilização da moeda – e um crescimento, ou uma estabilização, da renda dos trabalhadores.

Isso permitiu que, em alguma medida, a oferta de crédito para segmentos da população que até então eram desprezados pelo sistema financeiro aumentasse. Esse desprezo era voltado principalmente para a população de baixa renda, que está em uma situação de maior vulnerabilidade, o que aumenta o risco e impacta a taxa de juros ao olharmos para a mesa de crédito – que avalia salário e condições de emprego.

Gradativamente, esse sistema vai se capilarizando, porque percebe que os mais pobres buscam pagar suas dívidas, e diversificando a carteira de crédito. Ao mesmo tempo, há uma articulação muito forte entre o setor varejista – representado por empresas como Casas Bahia, Magazine Luiza e Pernambucanas – e o setor financeiro.

Uma coisa interessante é notar o volume de informação que essas empresas capturam. Elas talvez sejam as instituições que mais conheçam a população e o território brasileiro. Poucas instituições têm a base de dados que eles possuem de renda, organização financeira e atraso de parcelas.

Todo esse processo é gradual e acompanhado por outros fatores. O consumo via crédito, por exemplo, é estimulado pela obsolescência programada e pela publicidade. O desejo de consumir e a precariedade dos objetos, que chegam ao fim cada vez mais rápido, forçam uma pessoa a comprar novos itens.

Ao mesmo tempo, há novas variáveis, como as bets, que operam no campo do endividamento, e a informalidade da população, que corre atrás de estratégias de ampliação de renda, sobretudo para pagar as dívidas. Em muitas das entrevistas feitas com trabalhadores, observa-se que é necessário, às vezes, mais de duas jornadas para aumentar o rendimento familiar e pagar a prestação.

Até que ponto estratégias como o parcelamento se converteram em inclusão social e aumento do poder aquisitivo?

Kauê Lopes dos Santos O termo “inclusão financeira” é celebrado nas ciências econômicas – principalmente a partir das experiências do Sudeste Asiático, em que há uma lógica de empréstimo com taxas muito mais baixas –, mas é muito difícil pensá-lo em termos positivos no caso brasileiro. 

Aqui, nós temos uma estrutura que eu denomino “capilarização das finanças”, porque a lógica que passa a organizar o orçamento doméstico e o cotidiano de trabalho dessas pessoas está ligada ao que as finanças e ao que o grande sistema financeiro determinam. 

Além disso, temos taxas de juros que estão entre as mais altas do planeta. 

Essas taxas de juros, por sua vez, fazem com que o trabalhador da periferia — que já é prejudicado historicamente pela falta de investimento em infraestrutura e serviços urbanos nos seus bairros — também pague mais pela mesma mercadoria. 

O consumo dessas mercadorias melhora as condições de vida. Ter uma televisão, uma geladeira e equipamentos mais atualizados representa qualidade de vida para essa população, que historicamente vive em situações de precariedade de acesso às coisas. 

A posse do objeto, simbolicamente e materialmente, representa algo importante para as populações da periferia, que é expropriada de seus direitos mais básicos de acesso à infraestrutura e serviços urbanos, além de ser carregada por uma leitura de ascensão social.

Mas há uma percepção da população de que a situação não está boa, os itens estão caros e, mais do que isso, o orçamento está comprometido com dívidas. Isso é provavelmente um dos fatores que podem definir a eleição e serão endereçados tanto pelo governo quanto pela oposição nos debates eleitorais.

O sr. cita no livro o efeito do “endividamento crônico”. No que ele consiste?

Kauê Lopes dos Santos A ideia do endividamento crônico está ligada à arquitetura da sociedade de consumo brasileira, que não é igual às outras sociedades de consumo no mundo. Ela também é uma condição que se estrutura não apenas nas periferias de São Paulo, onde fiz minha amostra, mas nas classes médias de São Paulo e em periferias de outras metrópoles.

A sociedade de consumo é um termo que uso a partir da formulação do sociólogo francês Jean Baudrillard. No caso brasileiro, ela se estrutura a partir de um tripé: obsolescência programada, publicidade e sistema de crédito.

Esse endividamento é crônico justamente por causa dessas variáveis. O sujeito está sempre se endividando porque ele está sempre consumindo produtos cujos valores são muito maiores que seu orçamento. Esses produtos muitas vezes estragam antes de terminar o pagamento das parcelas, ou porque há o desejo de comprar outro antes de terminar o pagamento.

Produtos como celulares e televisões estão continuamente sendo otimizados para poder fazer girar a maquinaria da sociedade de consumo. Ao mesmo tempo, o crédito viabiliza isso em parcelas extensas, com taxas de juros elevadíssimas.

Como esse efeito se relaciona e se retroalimenta com outras questões, como o racismo e urbanização precária?

Kauê Lopes dos Santos Sou formado numa tradição de geografia urbana que negligenciou a questão racial no debate, ainda que a questão racial estruture as classes no Brasil, não o contrário.

Na primeira parte do livro, tive a preocupação de tentar construir uma leitura dessa periferia a partir da dimensão racial. Entender que esses sujeitos na periferia – que têm menos acesso à renda, à oportunidade de emprego de qualidade, ao saneamento básico e à habitação de qualidade – são majoritariamente pretos e pardos.

Há diferentes linhas que articulam o crédito, o endividamento e a questão racial. Uma delas, exemplificada pelo trabalho do advogado e pesquisador Thiago Amparo, afirma que existe um racismo creditício. Amparo discute estratégias de mesa de crédito e como a leitura desse sujeito precarizado pode entrar nessa discussão.

Isso acontece porque, no fim das contas, os sujeitos mais precarizados na cidade são sujeitos negros. Para o sistema de crédito, eles são aqueles que apresentam maiores riscos de inadimplência e insolvência. Portanto, esse risco acaba sendo traduzido em taxas de juros mais altas.

Uma matéria recente do jornal Valor Econômico apontou que as mulheres negras são as que mais sofrem com taxas de juros altas. Há um argumento de que “não é porque elas são negras”. Mas também é porque elas são negras, porque a sociedade se estrutura racialmente. A classe é informada pela raça, majoritariamente.

O que tentei trazer na minha pesquisa é a retomada do sociólogo Carlos Hasenbalg, que aborda o “ciclo cumulativo de desvantagens” do negro no Brasil. Essa tese afirma que o sujeito negro está numa sociedade racialmente estruturada, hierarquicamente racista. Logo, ele está sempre sofrendo algum tipo de desvantagem, seja em função de um racismo institucionalizado ou não.

Procuro defender no livro que o endividamento crônico — que aliena o futuro e dificulta a mobilidade social do sujeito — entra como uma nova variável para essas populações negras nas periferias. Além do racismo institucional, há uma dificuldade de ascensão social ligada ao endividamento crônico.

Isso porque indivíduos brancos, ainda que também possam vivenciar o endividamento crônico, não estão no campo do ciclo cumulativo de desvantagens. É importante que o sujeito negro na periferia consiga consumir, mas, no caso dele, a condição de endividamento estará associada a uma precarização do trabalho, por exemplo.

Como o sr. avalia os efeitos dessa lógica de consumo sobre as famílias que entrevistou? Quais as percepções?

Kauê Lopes dos Santos Ao longo do tempo, fui percebendo uma espécie de absorção dessa cronicidade, que se torna quase uma variável fixa na organização do orçamento e estimula o aumento da informalidade em muitos casos.

Muitas vezes, para pagar as parcelas de coisas que são importantes socialmente para uma pessoa, como uma nova televisão, ela precisa ampliar a atuação no campo da informalidade – trabalhando como motorista de aplicativo ou vendendo bolos, por exemplo.

Já no caso do emprego formal, o sujeito começa a triplicar a jornada de trabalho, ou a trabalhar no fim de semana, para complementar a renda.  Isso gera uma periferia de trabalhadores exaustos.

Essa situação ganha novos contornos hoje. Uma pessoa pode ter 24 ou 48 meses de vida comprometidos pelo endividamento. Ela, então, encontra duas saídas: ou aumentar a jornada de trabalho ou começar a jogar no “tigrinho”. Mas logo percebe que isso, além de viciar, gera perda de dinheiro; então a alternativa será entrar no cheque especial, entrar nas outras modalidades de crédito para resolver aquela situação momentânea, que, na verdade, não é momentânea.

É possível alterar essa lógica, favorecendo o poder aquisitivo e reduzindo efeitos colaterais? Quanto disso cabe às próprias famílias e quanto cabe aos setores econômicos ou ao próprio governo?

Kauê Lopes dos Santos Acho que temos que pensar nas lógicas de curto, médio e longo prazo. Essas duas últimas exigem que pensemos em como queremos viver em sociedade.

Para o curto prazo, podemos pensar em duas estratégias: redução de taxas de juros e educação financeira nas escolas. Mas isso precisa ser endereçado como uma questão de curto prazo. O governo tem pensado nas políticas do Desenrola 1, talvez Desenrola 2, como estratégias pontuais, mas elas não resolvem. Tanto que, do último Desenrola até agora, 9 milhões de brasileiros voltaram à situação de inadimplência.

No campo da educação financeira, nós precisamos explicar o sistema financeiro, o sistema de juros. É preciso informar a sociedade sobre como o sistema financeiro nacional opera, senão, a questão recai nas atitudes individuais de uma pessoa que “precisa aprender a controlar seus gastos”. É preciso entender que os indivíduos estão pagando taxas de juros abusivas e a cada ano o sistema financeiro bate recordes.

Para situações de médio e longo prazo, precisamos pensar na questão da publicidade e da obsolescência programada. Esse último ponto pode ser redimensionado legislativamente em função de pensar o tempo da garantia do objeto, ou em termos do design do objeto.

Mas dentro do contexto eleitoral e uma preocupação com a questão do endividamento, o governo tem sinalizado que vai apostar justamente em uma nova versão do Desenrola. Na sua avaliação, isso seria positivo? 

Kauê Lopes dos Santos Acredito que é positivo como uma maneira de resolver o problema das famílias. Não podemos perder de vista que essa política objetivamente vai melhorar a vida do sujeito na periferia, de baixa renda.

Eu poderia falar que esse programa não adianta, porque, na verdade, o problema estrutural é um fluxo de dívida, o endividamento é crônico e vai seguir, mas não podemos ignorar o agora.

Quando você resolve o problema no Desenrola, há a garantia da volta desse sujeito ao mercado de consumo e ao mercado de crédito. A situação é resolvida pontualmente, não estruturalmente.