5 livros que usam o insólito para abrir feridas na realidade

Há quem diga que o insólito, o fantástico e o onírico são formas de escapismo. No entanto, eles também podem ser estratégias potentes para dizer aquilo que o real, sozinho, não dá conta. Na literatura latino-americana escrita por mulheres, essas formas aparecem como um modo de abrir as feridas da realidade para que ela revele suas entranhas. Pensando nisso, reuni aqui cinco livros de autoras que exploram esse território instável, onde o estranho não nega o mundo, pelo contrário: ele o intensifica.

 

Boca do mundo

Dia Nobre (Companhia das Letras, 2025)

 

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O romance de estreia de Dia Bárbara Nobre veio ao encontro das manifestações contra o feminicídio que marcaram especialmente o final de 2025. Aqui, Dia cria um povoado no interior do sertão, chamado Urânia, em que apenas mulheres podem viver. A trama circunda o tema da violência de gênero e do feminicídio, mas vai além disso: a construção de uma narrativa mítica para o sertão, a incorporação de elementos e divindades das religiões de matriz africana e o mundo onírico são estruturais na obra. Aqui, os sonhos não apenas revelam algo das personagens, como também se tornam espaço coletivo de ação, deslocando a perspectiva ocidental do onírico como experiência estritamente individual.

 

A fúria

Silvina Ocampo (Trad. Livia Deorsola, Companhia das Letras, 2019)

 

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Quando terminei de ler este livro, não conseguia largá-lo. Havia um magnetismo que me prendia àquelas histórias e me impedia de simplesmente colocá-lo de volta na estante. Os contos de Silvina podem ser bastante desconfortáveis e exploram esse aspecto do insólito e do onírico com maestria. Deixo como destaque “O casamento”, “Voz ao telefone” e “A oração”, narrativas em que a crueldade se mistura à inocência infantil, produzindo uma sensação persistente de horror.

 

Seminário dos ratos

Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 2009)

 

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Lygia Fagundes Telles faz parte da minha formação como leitora e escritora. Em “Seminário dos ratos”, seus contos incorporam o fantástico, a metamorfose e o absurdo como formas de crítica às estruturas de poder e à racionalidade institucional. Textos como “As formigas” e o conto que dá título ao livro evidenciam como o insólito pode operar produzindo estranhamento e vertigem diante de um mundo que se pretende excessivamente ordenado.

 

Sangue de cabra

Mylena Queiroz (Patuá, 2025)

 

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O primeiro livro de contos da professora universitária e escritora Mylena Queiroz traz nove “cortes” protagonizados por personagens femininas que buscam, de alguma forma, se reconstruir após sofrerem alguma violência. Aqui o insólito é produzido a partir de uma quebra radical com a expectativa do leitor, e é uma forma de tirar essas personagens do lugar de vítima, como ocorre já no conto de abertura, em que a protagonista, vítima de cyberbullying, passa a adotar uma postura nada convencional.

 

As miniaturas

Andréa del Fuego (Companhia das Letras, 2013)

 

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Ler Andréa del Fuego é sempre uma experiência de deslocamento. No caso de “As miniaturas” não foi diferente. Em seu segundo romance, a autora constrói uma narrativa que opera na fronteira entre o real e o onírico e transforma o sonhar numa atividade (quase) burocrática. Os sonhos são resultado do trabalho dos oneiros, empregados do Edifício Midoro Filho responsáveis por operar as miniaturas plásticas que serão sonhadas pelos clientes. Cada oneiro tem uma carteira fixa de clientes que não podem ter parentesco entre si. O sistema, no entanto, não é infalível, e o oneiro responsável pelos sonhos de uma mãe taxista percebe que também atende o filho dela. É sua decisão em não comunicar o erro que conduz o fio de Ariadne desta história, que brinca com o real e o imaginado de maneira magistral.

 

Jeanine Geraldo é escritora e professora no Instituto Federal do Paraná. Pós-doutoranda em Letras pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), é pesquisadora na área de literatura com ênfase em crítica literária, e vive tentando conciliar a vida acadêmica, os treinos de jiu-jitsu e a urgência da escrita. É autora de “O animal que me tornei” (2018), “As folhas vermelhas do outono” (2020), premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná , “Alcateia” (2022) e “Retratos de mulher” (2025), 2º lugar no 1º Prêmio Escritoras Brasileiras, na categoria Narrativas Curtas.