‘Vidro, ironia e deus’: considerações íntimas e eruditas

É em grande parte de acordo com os sons emitidos pelas pessoas que as julgamos sãs ou loucas, machos ou fêmeas, boas, más, confiáveis, depressivas, casáveis, moribundas, com probabilidade ou não de declararem guerra contra nós, só um pouco melhores do que os animais, inspiradas por Deus. Esses julgamentos acontecem depressa e podem ser brutais. Aristóteles nos diz que a voz aguda da mulher é uma prova de sua disposição maligna, pois criaturas corajosas ou justas (como os leões, os touros, os galos e o macho humano) têm vozes intensas e profundas. Se você ouvir um homem falando com voz suave ou aguda, sabe que ele é um kinaidos (“catamito”). O poeta Aristófanes faz uma reviravolta cômica nesse clichê em Ekklesiazousai [A revolução das mulheres]: quando as mulheres de Atenas estão prestes a se infiltrar na assembleia ateniense e assumir o controle do processo político, a líder feminista Praxágora assegura às suas colegas ativistas que elas têm precisamente o tipo certo de voz para a tarefa. Porque, como ela diz: “Vocês sabem que, entre os rapazes, aqueles que se revelam extraordinariamente loquazes são os que acabam fodendo mais”.

Essa piada depende do encontro de dois aspectos diferentes da produção do som — a qualidade da voz e o seu uso. É possível ver o esforço contínuo que os antigos fizeram para associar esses dois aspectos sob uma rubrica geral de gênero. O tom vocal agudo caminha par a par com a loquacidade para caracterizar uma pessoa que é desviante ou deficiente diante do ideal masculino de autocontrole. Mulheres, catamitos, eunucos e andróginos se enquadram nessa categoria. Seus sons são ruins de se ouvir e deixam os homens desconfortáveis. O grau exato do desconforto pode ser avaliado pelos esforços que Aristóteles não mede ao explicar o gênero do som de acordo com a fisionomia; ele acaba atribuindo o tom mais grave da voz masculina à tensão colocada nas cordas vocais do homem pelos testículos funcionando como pesos de uma máquina de tear. Nos tempos helenístico e romano, os médicos recomendavam exercícios vocais para curar todo tipo de doença física e psicológica nos homens, com base na teoria de que a prática da declamação aliviaria a congestão na cabeça e corrigiria os danos que os homens com frequência causam a si mesmos na vida diária ao usar a voz para sons agudos, gritos altos ou conversas sem propósito. Aqui, mais uma vez, notamos uma confusão de qualidade vocal e uso vocal. Essa terapia, via de regra, não era recomendada para mulheres ou eunucos ou andróginos, já que se acreditava que esses teriam tanto o tipo de carne quanto o alinhamento dos poros inadequados para a produção de tons vocais graves, independentemente do quanto se exercitassem. Mas, para o físico masculino, a prática vocal era considerada uma forma eficaz de restaurar o corpo e a mente, ao trazer a voz de volta aos tons apropriadamente viris. Tenho um amigo que é jornalista de rádio e me garante que essas suposições sobre a qualidade da voz ainda estão vigentes entre nós. Ele é um homem e é gay. Passou os primeiros vários anos de sua carreira no rádio rechaçando as tentativas dos produtores de aprofundarem, escurecerem e deprimirem sua voz, que eles descreviam como “sorridente demais”. Pouquíssimas mulheres ativas na vida pública não se preocupam com que suas vozes sejam agudas demais ou suaves demais ou estridentes demais para impor respeito. Margaret Thatcher treinou durante anos com um terapeuta vocal para fazer sua voz soar mais parecida com a dos outros Honoráveis Membros e ainda ganhou o apelido de Átila, a Galinha (Attila the Hen). Essa analogia com a galinha remonta à publicidade em torno de Nancy Astor, primeira mulher membro da Câmara dos Comuns britânica (eleita em 1919), descrita por seu colega Sir Henry Channon como “uma combinação estranha de cordialidade, originalidade e grosseria… ela corre por aí feito uma galinha decapitada… fazendo intrigas e apreciando o cheiro de sangue… aquela bruxa louca”. A loucura e a bruxaria, bem como a bestialidade, são condições comumente associadas ao uso da voz feminina em público, tanto em contextos antigos como modernos. Considere quantas celebridades femininas da mitologia, da literatura e do culto clássicos se tornam questionáveis pela forma como usam a voz. Por exemplo, há o gemido arrepiante da Górgona, cujo nome é derivado de uma palavra sânscrita — garg, que significa “uivo gutural de animal que sai como um grande vento do fundo da garganta através de uma boca imensamente distendida”. Há as Fúrias, cujas vozes estridentes e horrendas são comparadas por Ésquilo ao som de cachorros uivantes ou aos berros de pessoas sendo torturadas no inferno (Eumênides). Há a voz mortal das sereias e o perigoso ventriloquismo de Helena (Odisseia); o incrível balbuciar de Cassandra (Ésquilo, Agamêmnon) e o assustador estardalhaço de Ártemis ao correr pela floresta (Hino homérico a Afrodite). Há o discurso sedutor de Afrodite, um aspecto tão concreto de seu poder que ela pode usá-lo no cinto como um objeto físico ou emprestá-lo a outras mulheres (Ilíada). Há a velha na lenda eleusina, Iambe, que grita obscenidades e joga a saia por cima da cabeça para expor a própria genitália. Há a assombrosa tagarelice da ninfa Eco (filha de Iambe na lenda ateniense), que Sófocles descreve como “a garota sem porta na boca” (Filoctetes).

Colocar uma porta na boca feminina tem sido um projeto importante da cultura patriarcal desde a Antiguidade até os dias atuais. Sua principal tática é uma associação ideológica do som feminino com a monstruosidade, a desordem e a morte.

Vidro, ironia e deus

Anne Carson
Trad. Adriana Lisboa
Relicário
208 páginas