5 livros de ficção científica para lidar com um mundo caótico

Em minha obra de ficção, as leis da física estão mudando, alterando a estrutura do espaço-tempo e a constituição do corpo-mente dos personagens. Esse cenário é uma expressão dos meus estudos, que envolvem várias disciplinas e buscam apreender o que vemos diariamente nas notícias: um mundo cada vez mais instável, à luz da política, da economia, da saúde mental e das próprias instituições.

 

Para buscar talvez não entender, mas ter mais repertório para lidar com essa mu(n)dança, alguns livros de ficção científica são imprescindíveis. Eis aqui alguns dos meus preferidos, que me levaram a experiências inéditas e lugares até então inapreensíveis pelo meu pensamento.

 

Valis

Philip K. Dick (trad. Fábio Fernandes, Aleph, 2021) 

 

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A obra inteira de Philip K. Dick é uma tentativa de entender o que é a realidade. E, para mim, é em seu romance “Valis” que o autor chega em seu ápice.  Nele é tecida sua tese mais assustadora: não adianta lutar contra o poder, pois este age como um vírus, infectando o opositor, tornando-o parte do próprio poder. Parte significativa dos meus esforços vai na direção de entender e buscar alternativas a essa provocação instigante.

 

Canção para desabar o mundo 

Brian Evenson (Uboro Lopes, 2021)

 

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Na coletânea de contos de Brian Evenson, nenhum narrador é confiável, o que faz a obra tender ao colapso da percepção. O livro é composto por histórias intrigantes: uma menina que nasce sem rosto; uma família formada por seres desconhecidos que usam humanos como roupas para viver entre nós; um homem que passa anos caminhando para escapar de um olhar que sente em si o tempo todo.

 

Grandes contos

H. P. Lovecraft (trad. Alda Porto e Lenita Maria Rimoli Esteves, Martin Claret, 2018) 

 

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Para mim, “Através dos portais da chave de prata” é o melhor conto de Lovecraft, escrito com o autor E. Hoffmann Price. A história faz parte do seu “Ciclo dos sonhos”, um conjunto de textos do escritor em que existe uma realidade alternativa na qual  sonhadores de diferentes dimensões se encontram. No conto, Randolph Carter (assumido por Lovecraft como seu alter ego) atravessa dimensões e descobre que sua identidade é apenas uma entre incontáveis máscaras de uma entidade.

 

There Is No Antimemetics Division

Qntm (Ballantine Books, 2025) 

 

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“There Is No Antimemetics Division” é inspirado na Fundação SCP (do inglês, Assegurar, Conter, Proteger), um site colaborativo em que se compila informações de entidades e fenômenos estranhos, na busca de controlar horrores cósmicos. A Divisão de Antimemética é um departamento secreto da fundação que protege a humanidade das “incógnitas”, entidades anômalas que se apagam da memória de todos que entram em contato com elas. A premissa do livro são os “antimemes”, ideias com propriedades autocensurantes, que, por sua natureza, desencorajam ou impedem que as pessoas as transmitam. Tabus, senhas e segredos são antimemes da vida real.

 

Parasitic City 

Shintaro Kago (trad. Eduard Kondo, Conrad, 2025)  

 

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A obra em mangá de Shintaro Kago é interessante pelas suas histórias disruptivas — não apenas na narrativa, mas na sua forma, quebrando a quarta parede e fazendo experimentações gráficas. “Parasitic City” é a maior obra do autor. A história leva ao extremo a associação entre budismo e capitalismo: os mais ricos podem comprar “perfeições”, parando de reencarnar mais rápido e chegando à iluminação espiritual muito antes dos mais pobres. 

 

Nelson Job é escritor, psicólogo e pesquisador transdisciplinar, doutor em história das ciências pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). É coeditor da revista Cosmos e Contexto. E autor de contos, poemas e romances como “Druam”, “Livro na borogodança”, “Cânticos andróginos” e “Pulsares”.