Escrever sempre foi um gesto íntimo. Desde criança me encontrava nos diários, nas histórias que inventava, nas leituras que me atravessavam, da Turma da Mônica aos primeiros textos em que tentei entender o mundo e a mim mesma. A escrita sempre foi a forma que encontrei de organizar o que sentia, de dizer o que às vezes não cabia na fala.
Com o tempo esse gesto se tornou também um compromisso. Hoje, como escritora e educadora, me dedico a construir narrativas nas quais crianças negras possam se reconhecer com dignidade, afeto e potência. Escrever sobre infâncias negras é uma forma de cuidado, e também de reimaginar o mundo. Com esse objetivo, lancei “Ashanti: Nossa pretinha” (Malê, 2021) e “Matundê” (Malê, 2026).
Esta curadoria nasce desse lugar. De um desejo de reunir livros que não apenas representem, mas que cuidem, que ampliem, que devolvam às crianças negras a possibilidade de se verem vivas, múltiplas e pertencentes. São histórias que nos lembram que nossas infâncias também são feitas de alegria, de vínculo, de imaginação e de futuro.
Dapo Adeola (trad. Stefano Volp, Companhia das Letrinhas, 2021)
Um livro que fala diretamente com crianças negras, como quem chama pelo nome e acolhe. Com uma linguagem simples e potente, constrói um espaço de afirmação, orgulho e pertencimento.
Mais do que reforçar a autoestima, a obra atua como um lembrete contínuo de que crescer sendo quem se é também é um ato de coragem e beleza. É um livro que não apenas diz, mas sustenta: você pode existir inteiro.
Fábio Simões (Melhoramentos, 2015)
A partir de uma cantiga tradicional africana, “Olelê” convoca a infância para o território da oralidade, do ritmo e da memória coletiva. A leitura deixa de ser apenas um ato silencioso e se torna experiência: corpo, voz, repetição, encontro.
Ao recuperar a força das tradições, o livro reafirma que aprender também é partilhar, ouvir e sentir. É uma obra que conecta crianças a uma herança cultural viva, que está não no passado, mas no presente.
Laura Nsafou (trad. Luana Almeida, Nós, 2023)
Com delicadeza e poesia, o livro acompanha uma menina em seu processo de reconhecimento e aceitação do próprio cabelo. A narrativa transforma uma experiência muitas vezes atravessada por dor em um caminho de encantamento e liberdade.
Ao fazer isso, amplia o imaginário sobre beleza e identidade, oferecendo outras imagens possíveis para a infância negra. Imagens que acolhem, fortalecem e permitem que a criança se veja com mais ternura.
Niní Kemba Nayô (Liteafro infantil, 2021)
A obra mergulha na ancestralidade como caminho de pertencimento. Ao abordar as origens e as conexões com a cultura africana, o livro convida as crianças negras a se reconhecerem como parte de uma história maior.
Não se trata apenas de saber de onde se vem, mas de entender que essa origem sustenta, orienta e fortalece a existência no presente. É um livro que amplia a noção de identidade para além do indivíduo.
Eduardo Lumel e Magna Domingues (Baú Encantado, 2023)
Ao afirmar o nome como ponto de partida, o livro constrói uma narrativa sobre identidade, história e reconhecimento. Nomear-se, aqui, é mais do que um ato formal: é um gesto de existência.
Maalum nos lembra de que cada criança carrega uma história que merece ser dita, respeitada e celebrada. E de que reconhecer o próprio nome é também reconhecer o próprio valor.
Taís Espírito Santo é escritora, roteirista, coordenadora do Instituto Casa Poema e fundadora da Òrun Aiyê Produções, produtora dedicada às narrativas negras. Participou da coletânea “Olhos de azeviche”, da editora Malê, além de outras coletâneas e antologias, totalizando doze livros, dois deles de literatura infantil.