5 livros para desacelerar e ficar onde se está

Há livros que não nos empurram para frente, ao contrário, nos pedem calma, silêncio e permanência. Antes de prometer futuros melhores, esses nos ajudam a olhar com mais atenção para o que já está aqui. Ler, nesses casos, é um gesto de desaceleração quase como um descanso.

 

É tempo de morangos”, meu livro que será lançado pela editora Intrínseca em março de 2026, nasce desse mesmo desejo: habitar o presente, aceitar os ciclos da vida e aprender a ler Clarice, Manoel, Agustina e Saramago. Os livros que indico abaixo, todos da nossa literatura em língua portuguesa, compartilham essa mesma delicadeza. São obras que não têm pressa de viver e talvez por isso nos ensinem tanto.

 

As meninas

Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 2009)

 

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Este é um livro sobre escuta. Três vozes, três tempos internos, três maneiras de atravessar a juventude sem respostas prontas. Lygia escreve com delicadeza sobre o que ainda está se formando, sem pressa de concluir ou explicar. Este livro me lembra que crescer não é chegar, mas permanecer em dúvida, sentindo.

 

O livro do desassossego

Fernando Pessoa (Todavia, 2023)

 

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Este é um livro sem avanços. Tudo que se faz aqui é observar. Escrevendo fragmentos, pensamentos e pausas, Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa), um simples guardador de livros, transforma o cotidiano em matéria literária. Ele não deseja outra vida, deseja compreender esta. Aqui, não há comparação, ambição ou urgência, apenas a tentativa de existir com atenção e sensibilidade.

 

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Clarice Lispector (Rocco, 2023)

 

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Clarice escreve sobre o tempo de aprender a sentir. Não há pressa neste romance: tudo acontece no ritmo da descoberta interior. A personagem aprende a estar no mundo com cuidado, escuta e entrega. É um livro que nos lembra que a vida não se revela de uma vez, ela se oferece aos poucos, quando estamos disponíveis.

 

A paixão segundo G.H.

Clarice Lispector (Rocco, 2020)

 

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Aqui, um único instante se estende até ocupar o livro inteiro. O tempo cronológico perde relevância, e o que importa é a experiência vivida no presente absoluto. G.H. não foge do que a desorganiza, ela fica. Este romance ensina que atravessar o agora, mesmo quando desconfortável, pode ser um gesto profundo de aceitação.

 

Os passos em volta

Herberto Helder (Beco do Azougue, 2005)

 

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Este é um livro de caminhadas internas. Os textos de Herberto Helder giram, retornam, observam, sem destino definido. Não há pressa em chegar a um sentido final. “Os passos em volta” aposta no movimento lento, na repetição e na atenção às pequenas coisas, como se a vida se revelasse justamente quando deixamos de apressá-la.

 

Bruna Martiolli é professora e doutoranda em estudos de cultura e interartes pela Universidade do Porto, em Portugal. Sua pesquisa e atuação profissional estão profundamente enraizadas na literatura de língua portuguesa. Também desenvolve um trabalho de compartilhamento de reflexões literárias, críticas culturais e conteúdos educativos na internet. É criadora do podcast É Tempo de Morangos, em que aborda temas como literatura, memória e imaginário. “É tempo de morangos” é seu livro de estreia.