5 livros para pensar caminhos coletivos para a política

Eu trabalho como psicanalista. Isso significa que boa parte do meu tempo é gasta com uma prática muito paradoxal: se faço o meu trabalho bem, parece que eu não fiz nada. Isso acontece porque o que um analista faz é ajudar a mediar um processo em que a pessoa que o procura é quem define os termos dos problemas, aprende cada vez mais a escutar a si e aos outros, elabora, arrisca e se reposiciona. É meio enigmático que esse caminho seja facilitado justamente pela mediação do analista — uma pessoa de fora da situação —, e que muitas vezes só seja percorrido graças a ele. 

 

Como lido muito com esse paradoxo, tenho interesse também em como ele aparece em outras áreas. Pensando nisso, fiz uma seleção de livros que me ajudaram a pensar como a mediação pode acontecer de forma coletiva, em processos políticos.

 

Épuras do social: Como podem os intelectuais trabalhar para os pobres

Joel Rufino dos Santos (Global, 2004)

 

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“Épuras do social” é uma espécie de acerto de contas com o modo como a esquerda radical, e os comunistas em particular, pensaram até aqui a formação e dinâmica de classe no Brasil. O livro faz uma genealogia, através da literatura, tanto da figura do intelectual subversivo quanto da figura do “pobre”. Pobreza, para Rufino, é um modo de pensar as classes oprimidas no capitalismo como pessoas que possuem uma cultura própria — e portanto que não podem ser tratadas sem considerar toda uma dimensão espiritual e imaterial da vida subjetiva.

 

Essa visão difere do modo de pensar no proletariado como totalmente desprovido de qualquer coisa sua. Rufino busca um jeito de reconhecer a profundidade do pensamento dos intelectuais orgânicos, aqueles que pensam de dentro da luta popular, e, em seguida, refletir sobre qual o papel possível para a intelectualidade de esquerda nesse processo. 

 

A escola da reconquista

Mestra Mayá (Teia dos Povos, 2022)

 

Em A escola da reconquista”, Mestra Mayá usa a própria vida e andanças para costurar relatos, cantos e trocas de experiência em uma contra-história da luta indígena. Uma representação da autoconstrução dos povos, que ela ajuda a trazer para o mundo. 

 

Mestra Mayá, também conhecida como Maria José Muniz, é de origem tupinambá e cresceu no território de Caramuru Catarina Paraguassu, na Bahia. Mayá, que se define como “professora andarilha”, atravessou os 54 mil hectares e as 396 áreas retomadas pelas comunidades indígenas coletando memórias, episódios, canções e o conhecimento de como viver no território e como defendê-lo. 

 

Para além de ser um livro emocionante de ler, é um texto formativo em diversos sentidos. Ensina, na base do exemplo, o que significa reconstruir, a partir da história de tanta gente, os traços de uma história coletiva. Ensina também a diferença entre representar um povo para “a sociedade” e representar um povo para si mesmo.

 

Ensaios de tectologia – Vol. 1 e 2 

Alexander Bogdanov (trad. Jair Diniz Miguel, Machado, 2025/2026)

 

Para Bogdanov, a “tectologia” é uma “ciência da organização”. O pensador bolchevique russo – escanteado da história por suas desavenças com Lênin – acreditava que, com o avanço da divisão do trabalho e da especialização, seria cada vez mais difícil que os trabalhadores se comunicassem entre si e se unissem em torno de interesses comuns. 

 

Ele então começou a pensar sobre o que une diferentes áreas de trabalho e campos do conhecimento. Concluiu que o que todos os processos humanos e não humanos têm em comum é o fato de terem alguma organização, de modo que até os mais aparentemente caóticos têm sua própria estrutura. Para ele, se aprendermos a olhar para esses fenômenos, práticas e ideias do ponto de vista da sua organização, teremos mais facilidade de entender o que eles têm de diferente e similar e o que podemos aprender com eles. 

 

O propósito de Bogdanov não era fazer uma grande teoria de tudo, mas criar uma ferramenta para que os trabalhadores pudessem construir o que o seu grupo político chamava de cultura proletária. Uma cultura que facilitasse a troca de experiências entre os trabalhadores, a sistematização de suas ideias e o encontro coletivo com sua própria potência.

 

Camarada

Jodi Dean (trad. Artur Renzo, Boitempo, 2021)

 

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Boa parte do trabalho de Dean na última década foi de tentar recuperar um sentido perdido da ideia de comunismo, soterrado pela propaganda anticomunista e a instrumentalização que fez da história dos experimentos socialistas do último século.

 

Uma constante no modo como Dean aborda os comunistas na sua obra é que ela está o tempo todo atenta ao fato de que as lutas elaboram suas próprias demandas, suas ideias e necessidades. Mas, inspirada pela psicanálise e pelo trabalho de “mediar sem determinar”, ela sugere que, no campo das ideias, das organizações e das relações interpessoais, comunista é aquilo que ajuda algo de comum a ganhar forma. 

 

Em “Camaradas” ela examina essa ideia no contexto das relações interpessoais. Para ela, somos camaradas na política não quando fazemos valer regras e pressionamos os outros para serem disciplinados, ou quando somos amigos e até condescendentes uns com os outros, mas quando nos oferecemos para ajudar a situar nossos companheiros na causa maior que partilhamos, isto é, para mediar a relação de alguém com o horizonte político maior em que estão inseridos.

 

Antropologia do nome

Sylvain Lazarus (trad. Mariana Echalar, Unesp, 2017)

 

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Neste livro, o sindicalista e sociólogo Sylvain Lazarus critica o fato de que diferentes correntes e tradições políticas revolucionárias tendem a focar ou na experiência ou na consciência quando concebem a subjetividade daqueles que se engajam em lutas políticas. E essas duas categorias têm uma coisa faltando: elas não reconhecem que as pessoas podem questionar suas próprias opiniões e sentimentos e que podem se apropriar de coisas, métodos e informações que escapam à sua consciência imediata. 

 

Para ele, “pensar” é o gesto ativo de se confrontar com problemas, se questionar e experimentar, sem nenhuma garantia. Partindo daí, o autor argumenta que é preciso rever toda a teoria política para levar em conta o ponto de vista da “interioridade” dos processos políticos – isto é, a partir do modo como as lutas colocam seus problemas, inventam suas próprias categorias para pensá-los e encaminham soluções. É porque as pessoas pensam, porque já buscam mediar coletivamente suas reflexões, que outros podem auxiliar nessa mediação. É um livro denso, mas me ensinou muita coisa.

 

Gabriel Tupinambá é psicanalista, membro do coletivo Espaço Comum de Organizações e da Coletiva Psicanalista. É pesquisador no Instituto Alameda. Autor do livro “Desejo de psicanálise: Exercícios de psicanálise lacaniana” (Boitempo, 2024) e co-autor dos livros “Phenomenology of Capital” (Adjunctions, 2026), “Arquitetura de arestas: As esquerdas em tempos de periferização do mundo” (Autonomia Literária, 2022) e “Hegel, Lacan, Zizek” (Atropos, 2013).