O que há de eleitoreiro nas medidas de Lula no 1° semestre de 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva com trabalhadores de aplicativos no lançamento do programa Move Brasil. Eles estão em grupo, sorriem e seguram uma bandeira laranja com a frase "não somos invisíveis"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva com trabalhadores de aplicativos no lançamento do programa Move Brasil

Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (10) mostra que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu uma vantagem de seis pontos percentuais em relação a Flávio Bolsonaro (PL) num eventual segundo turno. O presidente tem 44% das intenções de voto, e o senador, 38%.

O resultado confirma uma tendência de outros levantamentos divulgados após o caso “Dark Horse”, a exemplo do Datafolha e do Atlas/Bloomberg – este último suspenso por decisão liminar do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques.

Neste texto, o Nexo apresenta os dados da Quaest e avalia com cientistas políticos qual é o peso das políticas públicas lançadas pelo governo na melhora dos números de Lula. Também mostra o que pode ser atribuído ao desgaste de Flávio Bolsonaro pelo caso “Dark Horse”.

Os resultados da Quaest

A pesquisa Genial/Quaest publicada na quarta-feira (10) foi a primeira realizada pelo instituto depois que conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro foram reveladas pelo The Intercept Brasil. Segundo mensagens obtidas pelo site, o senador pediu dinheiro ao dono do Banco Master para bancar a cinebiografia do pai, “Dark Horse”.

O levantamento, registrado no TSE sob o código BR-07661/2026, foi realizado entre os dias 5 e 8 de junho. Foram ouvidas 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em todo o Brasil. O intervalo de confiança é de 95% e a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

39% e 29%

são as intenções de voto em Lula e em Flávio no primeiro turno, respectivamente

44% e 38%

são as intenções de voto em Lula e em Flávio no segundo turno, respectivamente

O levantamento de maio mostrava Lula com 42% e Flávio com 41% no segundo turno. Em março, eles estavam numericamente empatados, com 41%.

RESULTADOS

A avaliação do governo Lula teve leve melhora, mas dentro da margem de erro, indo de 46% em maio para 47% em junho. A desaprovação caiu de 49% para 48%.

O grupo classificado pela Quaest como “independentes”, que equivale a um terço do eleitorado — e que pode decidir a disputa eleitoral —, foi o que apresentou a alteração mais significativa para Lula, migrando o voto de Flávio para o atual presidente.

A aprovação e desaprovação do governo também mudaram. Em maio, 52% dos independentes desaprovavam a gestão Lula. Em junho, o percentual caiu para 47%.

37%

era a aprovação do governo Lula entre os independentes em maio de 2026, segundo pesquisa Genial/Quaest 

41%

era a aprovação do governo Lula entre os independentes em julho de 2026, segundo pesquisa Genial/Quaest

Em participação no programa Estudio i, da Globonews, o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, afirmou que outro grupo que apresentou alterações significativas é a direita não bolsonarista, que se decepcionou com Flávio pelo envolvimento entre o senador e Vorcaro no pedido de dinheiro para “Dark Horse”.

65%

dos entrevistados afirmaram que Flávio errou ao pedir dinheiro a Vorcaro para financiar a cinebiografia do pai, segundo a Genial/Quaest

Em janeiro, 45% dessa parte do eleitorado declarava voto em Flávio. Em maio, o percentual saltou para 74%. Após a divulgação dos áudios trocados com Vorcaro, o senador caiu para 59% entre as pessoas que se consideram de direita, mas não se autodenominam bolsonaristas.

Segundo Nunes, a direita não bolsonarista não migrou para outros candidatos, como Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), que aparecem com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. Eles se declaram mais indecisos — índice que, nesse segmento, passou de 5% em maio para 10% em junho.

As principais medidas de Lula

O levantamento da Quaest também mapeou o conhecimento dos brasileiros sobre as políticas do governo federal lançadas no primeiro semestre de 2026.

As medidas

 

Subvenção dos combustíveis

Desde março, o governo federal anunciou medidas para conter os preços em meio ao problema mundial da alta dos combustíveis por causa da guerra no Irã, como subvenção ao diesel importado e nacional, subvenção ao gás de cozinha, isenção de impostos federais ao diesel, biodiesel e querosene de aviação e fiscalização para punir abuso na venda de combustíveis em postos e distribuidoras. Em 13 de maio, o governo Lula também anunciou a subvenção da gasolina produzida no Brasil e em outros países. Segundo a Quaest, 53% dos entrevistados conhecem e aprovam as medidas.

 

Fim da ‘taxa das blusinhas’

Lula assinou no dia 12 de maio uma medida provisória que acaba com o que ficou conhecido como “taxa das blusinhas”, cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 implementada em 2024. Ao ser anunciada, a cobrança causou reações de consumidores e gerou danos à popularidade de Lula e do então ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), apelidado de “Taxad”. O fim da taxa desagradou ao setor industrial, que avalia que a medida será prejudicial ao setor têxtil. Segundo a Quaest, 45% dos entrevistados conhecem e aprovam o fim da taxa.

 

Programa Move Brasil

O governo federal lançou no dia 19 de maio o programa Move Brasil, voltado para taxistas e motoristas de aplicativo. A medida provisória destinou R$ 30 bilhões em crédito para que as categorias financiem carros novos com juros menores. Em alguns modelos, o abatimento do valor total do veículo pode chegar a R$ 29 mil em relação à tabela convencional. O programa inclui ainda financiamento via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para compra de caminhões, ônibus e micro-ônibus, com objetivo de renovação da frota. Segundo a Quaest, 41% dos entrevistados conhecem e aprovam o Move Brasil.

 

Programa Brasil Contra o Crime Organizado

No dia 12 de maio, Lula lançou um conjunto de ações para desarticular eixos que sustentam organizações criminosas, com investimento de R$ 11 bilhões. O programa é dividido em quatro eixos: asfixia financeira do crime organizado, fortalecimento do sistema prisional, esclarecimento de homicídios e combate ao tráfico de armas. Na ocasião, o presidente prometeu ainda criar um Ministério da Segurança Pública caso o Senado aprove a PEC da Segurança Pública, parada desde março. O programa se soma a ações de segurança lançadas pelo governo em 2025 e é mais uma tentativa de Lula para atacar um tema que preocupa os brasileiros e prejudica sua aprovação. Segundo a Quaest, 39% dos entrevistados conhecem e aprovam a iniciativa.

 

Desenrola 2.0

Em 4 de maio, o governo federal lançou o Desenrola 2.0, uma nova fase do programa para renegociação de dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), com taxas de juros de até 1,99% e descontos que podem chegar a 90%. A primeira edição do Desenrola teve início em julho de 2023, primeiro ano da gestão petista, mas não foi suficiente para sanar o endividamento das famílias — problema que impacta a percepção econômica e a popularidade do governo. Segundo a Quaest, 61% dos entrevistados ouviram falar da nova medida e 50% a consideram uma boa ideia. Dos que aderiram ao programa, 30% dizem que a renda aumentou consideravelmente.

 

Isenção do Imposto de Renda 

Sancionada em novembro de 2025 e uma das principais bandeiras de Lula no terceiro mandato, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 mensais entrou em vigor em 1° de janeiro de 2026. O novo modelo beneficiou 15 milhões de brasileiros. Segundo análise do diretor da Quaest, Felipe Nunes, em texto publicado no blog do instituto, os efeitos práticos da isenção continuam a aumentar na percepção popular, mesmo que de forma marginal. De acordo com a pesquisa, para 23% das pessoas, a renda aumentou significativamente depois da isenção, e 34% afirmam que houve incremento, ainda que pouco.

 As medidas sob análise

O conhecimento e o acesso às políticas públicas do governo é um fator que pesa na melhora dos índices de Lula, mas não isoladamente, disse ao Nexo o cientista político Sergio Simoni, professor do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo).

“Tem um pouco das duas coisas. As políticas casam com os escândalos envolvendo Flávio. Se houvesse os programas e não ocorresse o caso ‘Dark Horse’, ainda sim, Lula poderia estar aumentando sua aprovação e percentual de votos por causa dos programas. Por outro lado, se tivesse o escândalo, mas não as políticas públicas, Lula aumentaria seu percentual. Juntas, as duas coisas explicam essa tendência de melhora”, afirmou.

Embora sejam aprovadas pela população, as políticas também não são uma “garantia” ao incumbente, segundo Simoni. “Parte do eleitorado pode votar em outro candidato por achar que ele faria melhor. A pessoa pode, por exemplo, ser contra a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro, mas votar no Flávio porque outros fatores importam mais”, disse.

Para a cientista política Ananda Marques, doutoranda na UnB (Universidade de Brasília), o resultado positivo de Lula tem mais a ver com Flávio prejudicado pelo escândalo com Vorcaro do que com as medidas anunciadas recentemente.

“Muitos desses programas chegam a um eleitor que já estava com Lula. A questão é: como o presidente vai convencer os 10% do eleitorado que devem definir a eleição? Nas pessoas que não acessam essas políticas públicas, como as classes mais baixas? Acho que o Desenrola 2.0, que chega a essa camada da população, que está num limbo, até demorou para sair. O endividamento já era um grande problema, não só por causa das bets”, disse ela ao Nexo

Políticas eleitoreiras?

A profusão recente de anúncios do governo federal está atrelada ao calendário das eleições. A partir de 4 de julho, começa o período de defeso eleitoral, quando detentores de mandatos no Executivo passam a ser proibidos de promover inaugurações, realizar pronunciamentos em rádio ou TV ou fazer publicidade institucional. 

“Temos até 3 de julho para fazer todas as entregas… Ninguém me apresente absolutamente nada novo, agora é entregar o ‌que já foi pensado”

Luiz Inácio Lula da Silva

presidente da República, em reunião interministerial em 3 de junho de 2026

Do ponto de vista econômico, políticas públicas podem ser consideradas “eleitoreiras” quando pressionam as contas públicas e objetivam o aumento no número de votos no governante concorrendo à eleição — não necessariamente o bem-estar da população.

Já a ciência política considera esperada a adoção desse tipo de medida, segundo Simino. “É claro que isso não significa que tudo que eles [os governantes] fazem seja desejável. Para isso temos os controles, a legislação que impede criação de novos gastos no ano eleitoral, como inauguração de obras. Mas essa é uma tendência que acontece em vários países. No ano eleitoral, há mais políticas e gastos”, disse.

“De modo geral, os mandatários gastam mais nas vésperas da eleição para, no ano seguinte, segurar mais o orçamento”

Sergio Simoni

professor do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista ao Nexo

A quantidade de programas postos em prática pela gestão Lula em 2026 também não é novidade no Brasil. Presidentes de todos os espectros políticos que tentam a reeleição vêm fazendo o mesmo desde a redemocratização.

Um desses exemplos foi o lançamento de políticas de transferência de renda no fim do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), como o Bolsa Escola, considerado precursor do Bolsa Família, segundo Simoni.

“O governo do PSDB fez isso para tentar apoio do grupo mais pobre, que votou neles por causa do Plano Real, mas não sabia se votaria de novo”, disse. Na eleição de 2002, o candidato tucano José Serra perdeu para Lula no segundo turno.

61,27%

foi o percentual de votos válidos em Lula no segundo turno de 2002

38,74%

foi o percentual de votos válidos em Serra

Em 2013, sob o impacto das Jornadas de Junho, a então presidente Dilma Rousseff (PT) lançou uma série de medidas para impulsionar sua reeleição, como:

Dilma ganhou em 2014 com uma margem de votos em relação a Aécio Neves (PSDB) considerada até então a mais apertada desde a redemocratização. A petista teve 51,64%, e o tucano, 48,36%.

Depois da reeleição, a condução de Dilma no governo foi vista como uma das principais desencadeadoras da crise econômica no Brasil em 2015. No ano seguinte, a presidente sofreu processo de impeachment, com a justificativa central de ter cometido pedaladas fiscais, manobra que cria a falsa sensação de equilíbrio nas contas públicas.  

Já em 2022, Jair Bolsonaro (PL) adotou diversas medidas para tentar a reeleição. Entre elas, estão o Auxílio Brasil de R$ 600 — lançado de maneira emergencial na pandemia de covid-19 e mantido pelo então governo —, cortes em impostos como o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e alterações no teto de gastos para permitir um gasto maior. Bolsonaro também articulou a PEC dos Precatórios — que adiou o pagamento de dívidas judiciais do governo e foi mal recebida pelo mercado e por economistas — para garantir maior disponibilidade de verba no ano em que tentaria a reeleição. Tudo sob a permissão para que o Orçamento fosse capturado por parte de seus aliados do centrão no Congresso.

“Toda a ação de quem está no poder é para se manter no poder. O mandato é feito de ações que visam a reeleição daquele grupo político. Ninguém governa para não ser reeleito”, disse Marques.

Para ela, as medidas que antecedem o período eleitoral podem ser vistas mais como populistas do que como eleitoreiras, que é um conceito que não existe na ciência política.  O conceito de populismo embora amplo, sem uma definição única e que varia a depender do contexto, designa o discurso e mobilização política que apelam ao povo,  colocando-os em oposição a uma elite.