O megaparque que ameaça o Caribe mexicano

Turistas na praia de Mahahual, estado de Quintana Roo, México

O povoado de Mahahual, no Caribe mexicano, tem apenas 2,8 mil habitantes. Porém, todo ano, mais de um milhão de turistas visitam esse destino paradisíaco no extremo sul do estado de Quintana Roo.

Alguns moradores agora temem que seu recanto de praias cristalinas esteja ameaçado. No fim de 2024, a gigante hoteleira Royal Caribbean anunciou um plano para a construção do Perfect Day Mexico, megaparque aquático em Mahahual. A atração poderia levar milhões de visitantes ao vilarejo a cada ano.

Os corais de Mahahual são parte essencial da segunda maior barreira de corais do mundo, o Sistema Recifal Mesoamericano. Esse ecossistema já está ameaçado pelo aumento das temperaturas, pela proliferação do sargaço e pelas pressões do turismo de massa. Agora, o projeto do parque aquático ameaça destruir manguezais e liberar águas residuais que, segundo ambientalistas, podem afetar os recifes de corais.

“Eles não se importam com o meio ambiente, apenas com os benefícios econômicos para alguns poucos atores nesse destino”, afirmou Guillermo D. Christy, consultor em tratamento de água e presidente da organização de proteção ambiental SelvameMX.

‘Modelo Cancún’

Perfect Day Mexico promete um investimento de quase US$ 1 bilhão e cerca de 15 mil visitantes por dia — levados principalmente pelos cruzeiros da Royal Caribbean. Mas há um receio de que o local replique um tipo de turismo conhecido como “modelo Cancún”, focado em atrair o maior número de pessoas com preços reduzidos.

O Perfect Day Mexico é inspirado no Coco Cay da Bahamas, outro clube de praia com parque aquático administrado pela multinacional hoteleira.

No anúncio do projeto, em outubro de 2024, a Royal Caribbean prometeu um “destino moderno e sustentável”, além de “preservar o planeta e fortalecer as comunidades”. A governadora de Quintana Roo, Mara Lezama, foi citada no comunicado: “Estamos trabalhando em estreita colaboração com a empresa para garantir um destino sustentável que compartilhe a prosperidade com a região”, disse Lezama à época.

O Perfect Day reformaria o bairro de Casitas e o atual cais de cruzeiros. Porém, alguns moradores e líderes políticos locais argumentam que o povoado será sobrecarregado com o empreendimento e temem que ele afete áreas de importância ecológica, incluindo florestas e manguezais.

A costa caribenha do México é conhecida mundialmente por um turismo de sol e praia. Isso começou há meio século, quando a cidade de Cancún foi fundada na costa norte de Quintana Roo.

O modelo de desenvolvimento em Cancún foi replicado em outros pontos do litoral mexicano nas décadas seguintes: primeiro em Playa del Carmen e na ilha de Cozumel, depois em Tulum e agora em Mahahual. Muitos desses destinos agora estão conectados pelo Trem Maia.

Essa rápida transformação tem sido alvo de polêmicas ao longo de décadas. Críticos dizem que os pacotes de férias com tudo incluído (conhecidos como all-inclusive, nos quais os turistas não precisam fazer gastos adicionais com alimentação e lazer) trazem poucos benefícios para as comunidades e apenas agravam os danos ambientais.

O projeto do parque aquático em Mahahual atrai preocupações parecidas. “O modelo de Cancún fracassou em toda a costa e Mahahual representa a última chance de redenção de Quintana Roo. Não podemos continuar gerando enormes receitas para a federação mexicana a um custo tão elevado para o meio ambiente”, afirmou Irma Morales Cruz, advogada da organização Defendendo o Direito a um Meio Ambiente Saudável (DMAS).

Resistência dos moradores

Mahahual cresceu graças ao turismo. A maioria dos moradores atuais migrou de outras partes do México ou de outros países em busca de oportunidades de trabalho nesse paraíso tropical. Hoje, muitos deles são contrários ao novo empreendimento.

Uma moradora — que preferiu não se identificar — contou ao Dialogue Earth que chegou a Mahahual com a primeira onda migratória do final da década de 1990 e início dos anos 2000. Ela teme pelo futuro do manguezal, onde vivem tucanos e antas.

De acordo com ela, a própria chegada de trabalhadores para o parque aquático pode colocar em risco o estilo de vida tranquilo de Mahahual, que coexiste com a natureza.

“O Perfect Day precisará de 2,5 mil trabalhadores para operar o projeto. Essa nova onda de migrantes que chega a Mahahual [não] vai se importar com o mar ou com a natureza, e logo começará a reclamar da falta de serviços públicos”, disse ela.

Outro morador de Mahahual, Luis Fernando Amezcua, chegou à cidade há 16 anos e trabalha como instrutor de mergulho e guia de excursões ecológicas. Ele disse que os planos que viu para o Perfect Day não promoverão uma conexão com a cultura e o meio ambiente locais, e não pensam no equilíbrio social, natural e econômico.

Amezcua teme principalmente os impactos no meio ambiente marinho e nos manguezais costeiros. Segundo ele, os manguezais já sentem os efeitos do turismo, das mudanças climáticas e do excesso de sargaço. Ele também aposta na resistência popular para impedir a inauguração do parque em 2027, embora os governos municipal e estadual já estejam modificando os planos diretores de desenvolvimento urbano para incluí-lo.

A Royal Caribbean se comprometeu a conservar 45 hectares de manguezais, preservar o Recife Mesoamericano e proteger as espécies nativas, incluindo os locais de nidificação de tartarugas marinhas. A empresa também prometeu “construir uma nova estação de tratamento de esgoto e uma estação de tratamento de resíduos sólidos, atingir 100% de energia limpa para abastecer o local até 2040, restaurar áreas impactadas e muito mais”.

Pesquisadora mergulha no Parque Nacional do Recife de Puerto Morelos, parte do Sistema Recifal Mesoamericano

“Nossa visão para o Perfect Day Mexico busca uma integração respeitosa e um saldo benéfico para o ecossistema”, afirmou a empresa em resposta ao Dialogue Earth.

Promessas do projeto

Irma Morales Cruz, advogada da DMAS, afirmou que, até o momento, as promessas da empresa não se concretizaram. Segundo ela, a Royal Caribbean não cumpriu o compromisso de realizar obras de infraestrutura básica em um conjunto habitacional da comunidade. Além disso, Cruz afirmou que um pedido para utilizar uma área de mata tropical no parque aquático foi aprovado sem consulta pública.

A Royal Caribbean afirmou que as mudanças na política de planejamento urbano são de competência do governo local: “a empresa agiu, e continuará a agir, em estrita e total conformidade com as leis e regulamentos federais, estaduais e locais aplicáveis no México. Cada etapa desse processo foi conduzida com a máxima transparência e respeito ao devido processo legal”, afirmou por meio de um porta-voz. A empresa também informou que vai instalar uma estação de tratamento de resíduos e outra de tratamento de água para apoiar a comunidade.

Organizações como o Greenpeace também se opõem aos planos, argumentando que o Perfect Day faz parte de um modelo de turismo insustentável no longo prazo.

“Não podemos continuar permitindo que um punhado de empresas se enriqueça às custas dos ecossistemas e das pessoas”, afirmou Ornela Garelli, diretora de campanhas do Greenpeace México.

Em seu estudo de impacto ambiental, a Royal Caribbean reconhece que o projeto poderia trazer consequências negativas. A empresa argumenta, porém, que esse impacto não seria direto, pois o empreendimento não levaria à perda total do habitat.

O Greenpeace apresentou sua própria análise, contrária à da empresa, ao Ministério do Meio Ambiente do México. A organização alega que a avaliação da Royal Caribbean “ignora” o impacto geral do projeto sobre fatores ambientais específicos, como a qualidade da água. O Ministério afirmou ao Dialogue Earth que está revisando a análise do Greenpeace e que seguirá “rigorosamente” os procedimentos regulatórios.

O Greenpeace também expressou preocupações em relação à Reserva da Biosfera do Caribe Mexicano, localizada próxima ao projeto. A reserva abriga espécies endêmicas, ameaçadas e em perigo de extinção, como jaguatiricas e macacos-aranha, bem como tartarugas brancas que fazem seus ninhos nessas praias.

“O estudo de impacto ambiental da Royal Caribbean está desinformando a comunidade sobre os verdadeiros impactos do Perfect Day”, disse Garelli. “Ao mesmo tempo, a empresa mantém atividades de impacto social para conquistar o apoio da população, com gestos como a limpeza de sargaço das praias e a construção de estradas”.

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A Royal Caribbean afirmou ter “planejado investimentos significativos na comunidade” e que suas “ações em benefício da comunidade são uma demonstração da visão de longo prazo de um parceiro responsável e que agrega valor, independentemente de qualquer projeto específico”.

Em uma carta enviada ao Greenpeace em março pelo CEO da Royal Caribbean, Michael Bayley, ele disse que reconhecia as preocupações da organização. Porém, Bayley insistiu que a empresa está comprometida com a “proteção dos ecossistemas e das comunidades que tornam o Caribe mexicano tão extraordinário” e é guiada por um “planejamento rigoroso e baseado em evidências”.

Futuro do turismo costeiro?

Para o biólogo Juan Jacobo Schmitter, pesquisador do centro Ecosur, no estado de Quintana Roo, a estação de tratamento de águas residuais prometida pela empresa pode trazer benefícios para o meio ambiente local.

Schmitter também diz que os recifes e manguezais estão sofrendo com a proliferação de sargaço. Além disso, segundo ele, muitas espécies de peixes da região ainda não se recuperaram do excesso de pesca do passado. As águas residuais dos resorts e a poluição gerada pelos turistas podem aumentar ainda mais essa pressão.

“Isso já está acontecendo em lugares como Playa del Carmen, e se somarmos a isso o aumento da presença de barcos e turistas que danificam os corais, o ecossistema se torna ainda mais vulnerável”, observou Schmitter.

Roberto Herrera, especialista em ecologia aquática da Ecosur, disse ao Dialogue Earth que os corais estão à beira do colapso devido aos efeitos combinados das mudanças climáticas, da pesca ilegal e do sargaço.

“Gostaríamos de ter um turismo diferente: mergulho com snorkel ou com tanque de oxigênio, pesca esportiva e excursões pela vegetação. Porém, estamos presos ao turismo de massa dos navios de cruzeiro, que demandam atrações como um parque aquático”, criticou Herrera.

Por enquanto, muitos em Mahahual esperam que seu estilo de vida tranquilo não seja perturbado por essa nova onda turística. Para o morador Luis Fernando Amezcua, o pacato vilarejo vive uma corrida contra o tempo: “Se continuarmos assim, em menos de 20 anos não restará nada”.