Qual a força do apelo do PT aos empresários em 2026

Membros do PT durante encerramento do 8° Congresso da legenda. Várias pessoas estão sentadas em cadeiras e há um telão ao fundo com imagens de Lula e o símbolo do PT, uma estrela vermelha

Membros do PT durante encerramento do 8° Congresso da legenda

O Partido dos Trabalhadores lançou no domingo (26), no encerramento do 8° Congresso Nacional da legenda, o documento “Construindo o futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o país”. 

No texto, o PT fala na chamada crise do capitalismo neoliberal, lista as medidas que considera necessárias — entre elas, o fim da escala 6×1 —, elenca as realizações do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e defende reformas para o Brasil, como a do Judiciário. 

O manifesto também propõe uma “concertação social” que “supere a fragmentação e institua um novo pacto pelo desenvolvimento nacional”, citando o setor produtivo e o empresariado, cujo apoio foi central para a chapa Lula-Alckmin em 2022.

“Este movimento deve reunir o setor produtivo e o empresariado comprometidos com a nação, a classe trabalhadora, o sindicalismo e os movimentos populares em uma coalizão que transcenda a defesa institucional da democracia […], a ponto de quebrar a hegemonia do rentismo, viabilizando a nova industrialização e a transição energética como pilares de um projeto de país soberano”

Partido dos Trabalhadores

em manifesto divulgado no domingo (26) 

Para avaliar as diferenças do apoio do empresariado buscadas pelo PT em 2022 e 2026, o Nexo conversou com os cientistas políticos: 

Que setor do empresariado apoiou Lula em 2022 e por quê?

Leonardo Martins Barbosa Construir alianças com setores econômicos tem sido um elemento importante das estratégias eleitorais do PT há bastante tempo. 

Isso foi particularmente importante na eleição de Lula em 2003. Nessa ocasião, o partido adotou uma estratégia baseada em duas linhas gerais: a primeira, uma aliança com o setor produtivo, que estava desgastado com as políticas de austeridade fiscal, o baixo investimento público e os juros altos que caracterizaram os governos de FHC [Fernando Henrique Cardoso] nos anos 1990, e, em segundo lugar, o lançamento da famosa “Carta ao povo brasileiro”, que buscou sinalizar ao mercado financeiro, mais refratário ao partido, o compromisso de respeitar contratos, cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal e manter a política de metas de inflação. Essas duas linhas constituíram elementos importantes e longevos dos governos petistas, especialmente nos dois primeiros mandatos de Lula.

Esse histórico é importante porque contrasta com o apoio recebido pelo partido em 2022. Em vez de um compromisso em torno de um programa de desenvolvimento, o que observamos foi um apoio de empresários, tanto do setor financeiro quanto do produtivo, que estavam preocupados principalmente com a preservação das instituições democráticas. Embora minoritários — pois a maior parte do empresariado apoiou Jair Bolsonaro —, eles tinham peso econômico e político. 

Um exemplo foi o apoio do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga à candidatura de Lula. A escolha de Geraldo Alckmin como vice, nesse sentido, apontava para os antigos apoiadores do PSDB que, apesar de discordâncias sobre a plataforma econômica petista, a preservação da democracia era prioritária naquele momento. 

Essa aliança, no entanto, se mostrou bem mais efêmera do que a de 2003, especialmente por não estar calcada num programa comum, para além da preservação da democracia.

Karolina Roeder O apoio do empresariado a Lula em 2022 foi pontual, que se mais deu pelo temor de uma ruptura democrática sob Bolsonaro e menos por convicção programática. 

Figuras importantes do mercado financeiro tradicional, como integrantes da família Setúbal e Candido Bracher [ex-CEO do Itaú Unibanco], declararam voto em Lula naquela ocasião. Economistas e ex-autoridades do mercado, como Armínio Fraga e os conhecidos como “pais”  do Plano Real — Edmar Bacha, André Lara Resende, Pedro Malan e Pérsio Arida —, também apoiaram Lula. 

No agronegócio, setor historicamente avesso ao PT, foi importante o papel de um grande produtor de soja,  Carlos Augustin, mas ele foi uma exceção. Na indústria, houve apoios pontuais, como o de Pedro Passos, da Natura. No varejo, o apoio de Luiza Trajano, da Magazine Luiza, foi mais duradouro: ela manteve uma relação próxima de diálogo com o governo, integrando o Conselhão [Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão que assessora o presidente na formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico].

Dois aliados foram decisivos para organizar e ampliar esse apoio junto ao empresariado em 2022: Simone Tebet e Geraldo Alckmin.

Tebet havia concentrado boa parte do alto empresariado urbano e financeiro no primeiro turno. Ao declarar voto em Lula no segundo turno, trouxe consigo uma rede de contatos estratégica. Junto com Armínio Fraga e Marina Silva, organizou, na casa de Candido Bracher, um encontro com cerca de 650 empresários, banqueiros e CEOs, entre eles executivos da Safra, Santander, Suzano, Grupo Ultra e Siemens, para convencê-los a votar na chapa Lula-Alckmin. O argumento central não era o programa do PT, mas o risco que a reeleição de Bolsonaro representaria para a democracia brasileira.

Alckmin cumpriu um papel diferente e igualmente importante, atuando como interlocutor junto ao agronegócio e ao empresariado regional do interior, setores historicamente resistentes ao PT. Como ex-governador de São Paulo e figura associada à centro-direita, ele deu uma credibilidade para a chapa que Lula dificilmente teria junto a esse público, ajudando a amenizar resistências em temas sensíveis como o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] e a política agrária. Um papel semelhante ao que José Alencar [então vice de Lula] teve na campanha de 2002, mas em outro contexto. 

Nessa mesma lógica de pontes institucionais, o senador Carlos Fávaro (PSD-MT), produtor rural e ex-presidente da Aprosoja-MT (Associação de Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso), foi um dos principais interlocutores da campanha junto ao agronegócio mato-grossense. E foi recompensado com o Ministério da Agricultura [Fávaro deixou o governo  em março e retornou ao Senado para concorrer à reeleição em 2026].

Que setor do empresariado o PT mira com o manifesto de 2026? Ele pode repetir a força do apelo de 2022?

Leonardo Martins Barbosa O manifesto do partido busca reconstruir pontes com o empresariado, mas não como em 2022. Acredito que o apoio desse setor ao PT deve ser menor nesta eleição do que na eleição passada.

Há o diagnóstico de que a defesa da democracia já não é um fator que poderá mobilizar setores empresariais, como foi feito nas últimas eleições. Agora, a ideia é replicar, de algum modo, a aliança com o setor produtivo em torno de um programa de desenvolvimento, nos moldes de 2003. 

Só que os desafios são maiores. Ao longo das últimas duas décadas, a polarização política cresceu no país e levou boa parte das elites econômicas a consolidar uma posição consistente e sistemática contra o PT. A aliança firmada em 2003, que perdurou ao menos até 2010, foi abalada primeiro pela Lava Jato, que atingiu as empresas que mais se beneficiaram do aumento do investimento público, e, depois, pela preocupação com a evolução das contas públicas. Esse segundo ponto é importante, pois foi construído um consenso no empresariado nacional de que o único caminho para dar sustentabilidade à trajetória da dívida pública seria o corte de despesas em programas sociais e o fim da política de aumentos reais do salário mínimo, ambos pontos-chaves no programa petista. E o setor industrial, que seria mais sensível a um programa desenvolvimentista, é sensivelmente menor hoje no Brasil do que era há 20 anos.

Não vai ser simples para o PT organizar um programa de desenvolvimento que seja apoiado por setores empresariais. É preciso convencer empresários e associações do setor produtivo de que o partido tem um projeto de desenvolvimento que é importante para o país e não será cumprido por seu principal opositor, no caso, o bolsonarismo. Um caminho possível é sinalizar para a importância de investimentos públicos em setores estratégicos, como a transição energética e o setor de minerais críticos e terras raras. Cabe ao PT convencer a sociedade de que esses setores não podem ser tratados apenas pelo setor privado nem podem ser subordinados a uma aliança geopolítica exclusiva com os Estados Unidos. 

O partido também deve oferecer uma resposta convincente sobre a sustentabilidade da dívida pública. Fernando Haddad [ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo] começou a fazer isso, com um caminho via tributação das rendas mais altas para financiar o poder público, mas isso não é suficiente. Penso que, se a legenda não está disposta a fazer cortes em despesas sociais, outros caminhos devem ser apontados. Algum corte nos famosos “penduricalhos” das elites do serviço público e a retomada do controle sobre o Orçamento surgem como caminhos possíveis. Seja como for, essa vai ser uma construção lenta ao longo dos próximos anos, caso Lula seja reeleito.

Karolina Roeder O PT tem focado muito pouco no empresariado em sua estratégia para 2026. A menção ao setor privado no manifesto parece genérica e subordinada a uma narrativa macro: o partido convoca o “setor produtivo comprometido com a nação” a integrar um bloco democrático-popular, mas de forma claramente instrumental. O empresário que o PT quer atrair não é o do mercado financeiro, mas o da economia real: quem investe em indústria, em transição energética, em processamento de minerais estratégicos em solo brasileiro. É uma aposta no empresariado desenvolvimentista, não no rentista.

Mas há um tensionamento de fundo no contexto atual: numa democracia, quem vota é o eleitor, a população em geral. E o partido tem voltado seu foco para a massa de trabalhadores formais e informais. Pautas como o fim da escala 6×1, que beneficiam diretamente milhões de trabalhadores e incomodam boa parte do setor privado, são centrais na estratégia eleitoral do partido para 2026, não concessões acidentais. Nesse sentido, o aceno ao empresariado produtivo é real, mas limitado: o PT não abre mão das bandeiras que historicamente definem sua identidade, ainda que afastem o setor privado, como as políticas sociais, a reforma agrária e a regulação das plataformas digitais, porque são exatamente essas bandeiras que mobilizam sua base eleitoral.

Dificilmente Lula repetirá em 2026 a força do apoio empresarial que teve em 2022, que foi conjuntural e defensivo. Nasceu do medo de Jair Bolsonaro, não da simpatia ao PT. Com Bolsonaro inelegível e o fantasma da ruptura democrática menos imediato, o principal catalisador daquele movimento arrefeceu, ainda que Flávio Bolsonaro represente a continuidade do bolsonarismo. O governo também acumulou atritos com o mercado financeiro ao longo do mandato, na questão fiscal e na retórica, o que torna improvável a repetição do volume do apoio recebido em 2022.