O interesse reacendido pelas obras de Marguerite Duras

A escritora Marguerite Duras

A escritora Marguerite Duras

“Estou me desfazendo. Venha depressa. Já não tenho boca, já não tenho rosto”, escreveu Marguerite Duras em seu último livro, “É tudo”, em 1º de agosto de 1995. No dia 3 de março de 1996, quando tinha 81 anos, a autora francesa morreu, vítima de um câncer de laringe. 

Ao longo de 40 anos, Duras escreveu cerca de 50 textos, entre livros, roteiros e peças de teatro, além de dirigir quase 20 filmes. Pelo conjunto de suas obras — que continuam sendo lidas três décadas após sua morte —, ela é considerada uma das mais importantes escritoras francesas da segunda metade do século 20. 

Neste texto, o Nexo apresenta Marguerite Duras, mostra as características de suas obras e explica como sua literatura voltou a encontrar espaço no Brasil.

Quem é Marguerite Duras

Marguerite Duras, pseudônimo de Marguerite Donnadieu, nasceu em 1914, em Gia-Dinh, na Indochina francesa. A região, que hoje compreende os territórios do Laos, Camboja e parte do Vietnã, foi ocupada e esteve sob o controle da França entre 1887 e 1954.

Ainda na juventude, seu pai morreu e sua mãe passou a cuidar dos três filhos. A família investiu no cultivo de arroz, mas as terras compradas se mostraram improdutivas.

A autora mudou-se para Paris aos 18 anos, em 1932, para estudar direito, matemática e ciências políticas. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), aliou-se à Resistência francesa, contra a ocupação alemã.

Sua infância na Indochina serviu de base para algumas de suas obras mais conhecidas. Em “Barragem contra o Pacífico” (1950), por exemplo, Duras narra a história de uma viúva que vive com seus dois filhos no sul da Indochina francesa enquanto trabalha num terreno inundado por marés altas todos os anos.

Já “O amante” (1984) é inspirado num caso que a autora, quando ainda era adolescente, teve com o filho de um magnata chinês.  

A obra foi best-seller na França na época do lançamento, vendendo cerca de 2 milhões de exemplares. Foi por ela que Marguerite Duras recebeu, em 1984, o prêmio Goncourt, o mais importante da literatura francesa. 

Além da infância, outras memórias, como as da Segunda Guerra, aparecem em suas produções. Em “A dor” (1985), por exemplo, Duras retoma o que viveu durante o conflito, marcado pela prisão de seu marido, o também escritor Robert Antelme, num campo de concentração na Alemanha.

Entre 1970 e 1980, Duras dedicou-se quase exclusivamente ao teatro e ao cinema. “Hiroshima, meu amor” (1959), o qual roteirizou, e “India Song” (1975), que dirigiu, estão entre suas produções cinematográficas mais conhecidas. Depois dos anos 1980, ela voltou a escrever romances.

Durante anos, Duras enfrentou o alcoolismo. Ela morreu na França.

Quais as características de suas obras

Autora de “Marguerite Duras: trajetória da mulher, desejo infinito” (2014) e pesquisadora das obras da francesa, Maria Cristina Vianna Kuntz afirmou ao Nexo que o trabalho da escritora focou principalmente nas mulheres, versando sobre temas como adultério e desejo. 

“Duras consegue penetrar no íntimo da mulher, no vazio que ela sente, que é preenchido pela procura de algum amante ou do adultério, mesmo que isso não dê certo. Ela mostra a busca feminina pela liberdade e a recusa à sujeição”, disse. 

Luciene Guimarães, tradutora das obras de Duras, afirmou ao Nexo que a literatura da autora é dividida em ciclos. 

Delphine Seyrig e Marguerite Duras durante as filmagens de "India Song" (1975)

Delphine Seyrig e Marguerite Duras durante as filmagens de “India Song” (1975)

Há o ciclo indiano, por exemplo, em que a autora se debruçou sobre temas ligados à Indochina, e o Atlântico, quando o foco recaiu sobre o mar da Normandia, na França, com o qual Duras passou a ter contato nos anos 1960, quando se mudou para a região de Trouville-sur-Mer.

A partir de “O arrebatamento de Lol V. Stein” (1964), que deu grande projeção a Duras, ela apostou numa escrita lacunar — em que os espaços em aberto são preenchidos pelo leitor —, segundo Kuntz. O texto rompeu com a maneira como a francesa escrevia antes. 

Já seu cinema é marcado pelo caráter experimental e poético, segundo Guimarães. “Ele se distancia muito do que nós conhecemos do cinema americano, por exemplo. Isso derivou de uma questão política da Duras, que era contra um cinema totalmente palatável e digerível como o americano”, afirmou.

As novas edições de suas obras 

As obras da francesa começaram a ser traduzidas em outros idiomas principalmente nos anos 1980, após a vitória do prêmio Goncourt. Foi nessa década que seus livros chegaram ao Brasil.

Segundo Kuntz, sua literatura foi bem recepcionada pela crítica brasileira e comparada com a de Clarice Lispector, cujas obras também experimentaram um boom na década de 1980.

“Duras conseguiu um grande público no Brasil, e quase todos os seus livros foram traduzidos nos anos 1980. Depois, com o filme ‘O amante’, nos anos 1990, o livro foi traduzido novamente e ‘explodiu’. Começaram a surgir diferentes teses e artigos focados em sua obra”, disse.

Quando a morte de Duras completou 25 anos, em 2021, as editoras Bazar do Tempo e Relicário anunciaram novos relançamentos de livros da francesa. 

7

das 10 novas edições anunciadas pela editora Relicário foram publicadas até o momento

Maíra Nassif, coordenadora editorial da Relicário, disse ao Nexo que a decisão de relançar os livros começou por “Escrever”, que trata do ofício do escritor, um dos temas de interesse da editora.

Em conjunto com Luciene Guimarães, que também coordena a coleção da autora na Relicário, Nassif decidiu expandir o projeto e trazer obras de Duras que estavam fora de catálogo há anos.

A coordenadora editorial percebeu o interesse dos leitores ainda no início da divulgação dos livros. “Muitas pessoas participavam dos encontros online que promovemos sobre a obra dela, principalmente psicanalistas e livreiros. De fato, existia ali um espaço para as obras de Duras voltarem, apesar de elas não serem fáceis.”

Guimarães evocou a comparação com Lispector para explicar o interesse dos leitores em Duras. Para ela, assim como a escritora brasileira, a autora francesa reúne uma obra que varia de crônicas a romances.

“Além da originalidade ao trabalhar com a linguagem, a abordagem de temas relacionados ao feminino, ao desejo, à memória e ao esquecimento, [seus livros] atraem leitores que estão interessados em investigar a condição humana e são arrebatados por sua literatura”, afirmou.

Para Kuntz, o principal motivo que faz com que as obras de Duras continuem sendo lidas é “a maestria que a escritora tem com a palavra”.

“Ela escreve sobre problemas que ainda vemos hoje. Escreve sobre acontecimentos da segunda metade do século 20 — como a Segunda Guerra, a Guerra Fria e as lutas por independência entre as colônias francesas —, mas as guerras não param até hoje. O problema do homem é sempre o mesmo: o poder, e isso a irrita”, disse.