Por que ‘Middlemarch’ é o melhor livro em inglês para o Guardian

George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, escritora de "Middlemarch" (1871). Pintura de uma mulher loira com vestes branca e preta

George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, escritora de “Middlemarch” (1871)

Uma eleição do jornal britânico The Guardian com 170 especialistas colocou “Middlemarch” (1871), de George Eliot, como o melhor romance em inglês da história – seja escrito no idioma ou traduzido posteriormente. A lista com os 100 melhores livros foi publicada no sábado (16).

“Este é um romance sobre o que significa ser bom. E é impossível sair dele ileso. É uma celebração do heroísmo silencioso de vidas comuns, de todos aqueles que ‘repousam em túmulos esquecidos’, como diz o melancólico último verso”

The Guardian

jornal britânico, em editorial

George Eliot é o pseudônimo de Mary Ann Evans (1819-1880), uma das principais escritoras da era vitoriana (1837-1901) no Reino Unido. O comportamento da romancista era considerado subversivo para a época, assim como as temáticas tratadas em seus romances, que refletem a sociedade até a atualidade.

A versão traduzida de “Middlemarch” chegou ao Brasil apenas em 1998, mais de um século após a publicação original. A baixa tiragem desde então fez com que o título fosse menos conhecido que outros clássicos da literatura inglesa, como “Orgulho e preconceito” (1813), de Jane Austen, e “1984” (1949), de George Orwell, ambos também na lista do The Guardian.

O livro ‘Middlemarch’

Com o subtítulo de “Um estudo da vida provinciana”, “Middlemarch” trata de como os relacionamentos podem ser falhos. A trama se passa no contexto do surgimento das ferrovias no Reino Unido e da Lei de Reforma de 1832, que alterou o sistema eleitoral britânico, antes da posse da rainha Vitória. O romance foi publicado em folhetins entre 1871 e 1872, com a publicação final ultrapassando 800 páginas.

Diferentes classes sociais são retratadas no texto, da aristocracia britânica às classes trabalhadoras. Eliot faz uma análise moral desses grupos.

O foco principal do enredo é o casamento infeliz entre Dorothea e Casaubon. Ela é inteligente, politizada e deseja trabalhar, mas o marido — um acadêmico 30 anos mais velho — a impede de realizar seus desejos. Decepcionada com a falta de amor, a protagonista se apaixona pelo político Will Ladislaw, casando-se com ele após a morte do cônjuge, mesmo que, para isso, tenha que perder sua herança.

“Estamos falando de uma mulher com pseudônimo masculino, no século 19, escrever sobre relacionamentos falhos, dentro de uma sociedade que ainda era muito patriarcal”, afirmou ao Nexo Igor Miranda, diretor executivo da editora Pinard, que relançou o título no Brasil em 2022.

A escritora britânica Virginia Woolf (1882-1941) avaliou “Middlemarch” como “um dos poucos romances ingleses escritos para adultos”. Para Miranda, o título está no “panteão de alta literatura” por sua “narrativa que prende as pessoas e diz a verdade sobre as relações humanas há mais de 150 anos”.

A versão em português

Apesar do lançamento em meados do século 19, o público brasileiro só teve contato com uma versão de “Middlemarch” em 1998, trazida pela editora Record. No mesmo ano, o poeta e jornalista Leonardo Fróes (1941-2025) recebeu o prêmio Paulo Rónai, da Fundação Biblioteca Nacional, pela tradução do romance de George Eliot. 

À época do lançamento, o público leitor esgotou os exemplares. No entanto, não houve novas tiragens — o que faz com que, por décadas, só fosse possível encontrar “Middlemarch” em sebos e bibliotecas digitais. 

“Isso mostra muito o papel editorial de apresentação de clássicos no Brasil. E isso não é verdade só para um livro como ‘Middlemarch’. Há livros importantes de outros países que, por escolhas editoriais e de tradução, não estão disponibilizados no Brasil”, afirmou Miranda.

A edição da Pinard, que resgatou a tradução de Fróes, concorreu ao Prêmio Jabuti de 2023 na categoria Projeto Gráfico. Uma reimpressão foi feita em 2026.