
Voo do protótipo EVE, da Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, em Gavião Peixoto (SP)
O Ministério de Portos e Aeroportos abriu uma consulta pública sobre AAM (sigla em inglês para Mobilidade Aérea Avançada) na quinta-feira (19). A pasta irá receber sugestões de normas e regulações para o uso de carros voadores, chamados formalmente de drones e eVTOLs.
“A Mobilidade Aérea Avançada já é uma realidade em construção no mundo, e o Brasil precisa estar preparado, com regras claras, segurança jurídica e capacidade de atrair investimentos”
Sílvio Costa
ministro de Portos e Aeroportos, em fala durante evento no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo
O mercado global de carros voadores ainda é incipiente, com a China sendo o único país com regulamentação de eVTOLs. A legislação chinesa vale a partir de 1º de junho de 2026, com projetos de empresas locais para o transporte de mercadorias e pessoas.
Neste texto, o Nexo explica o que são os carros voadores, apresenta as legislações na área ao redor do mundo e mostra quais são as possibilidades desse mercado no Brasil.
A cultura pop tem alguns exemplos de carros voadores para a representação de como seria o futuro. A animação “Jetsons” (1962-1963) e a trilogia de filmes “De volta para o futuro” (1985-1990) apresentaram o tráfego aéreo de carros como parte do imaginário do século 21.
Tentativas de se criar um carro voador surgiram desde o início do século 20. Apesar disso, a primeira autorização legal da FAA, a agência de aviação civil dos EUA, surgiu em 2021, com o Transition, da marca chinesa Terrafugia – depois de 15 anos de desenvolvimento. Ele é um misto de carro com aeronave de dois lugares, mas ainda não pode circular nas ruas pela falta de elementos de segurança, como airbags.
Os carros voadores plausíveis na atualidade são os eVTOLs, sigla em inglês que significa veículos elétricos com decolagem e pouso vertical. Eles circulam em baixa altitude: no máximo 3.000 metros. Para efeito de comparação, os aviões comerciais têm uma altitude mínima de cerca de 9.000 metros.
Para Felipe Caleffi, professor do curso de engenharia de transportes e logística da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), as aeronaves podem servir como um complemento aos sistemas de transporte. O táxi-aéreo urbano, o transporte entre aeroportos próximos e voos entre cidades vizinhas estão entre as possibilidades para esse mercado.
“Conectar aeroportos a centros urbanos, encurtar trajetos entre cidades próximas ou atender regiões de difícil acesso, e não substituir o transporte coletivo de massa”, afirmou Caleffi ao Nexo.
Existem três modelos mais comuns de eVTOLs:
A autonomia de voo é um dos principais limitantes atuais dos eVTOLs, segundo Caleffi. “As baterias disponíveis hoje restringem os voos a distâncias relativamente curtas, tipicamente entre 50 e 150 km”, afirmou.
Apesar da semelhança dos eVOLTs com helicópteros, em especial pela forma de decolagem e pouso, as aeronaves se diferenciam de forma estrutural no tipo de uso e na energia utilizada.
Quais são as diferenças
Estrutura
Helicópteros contam com um grande rotor principal no topo da aeronave e outro na cauda, de modo a se sustentar no ar e gerar empuxo com o deslocamento. Os eVOLTs, por sua vez, contam com vários rotores e, em alguns modelos, também têm asas entre seus componentes.
Distâncias
Enquanto os eVOLTs são destinados para trajetos curtos, no máximo entre cidades vizinhas, helicópteros podem fazer trajetos intermediários.
Energia
Diferentemente da maioria dos helicópteros, que ainda utilizam motor de combustão interna, a querosene ou gasolina de aviação, os eVTOLs utilizam baterias elétricas para voar. Isso gera bem menos emissões de gases de efeito estufa do que os helicópteros comuns, sendo uma alternativa mais sustentável.
Barulho
Por serem veículos elétricos, as aeronaves prometem ser bem menos ruidosa que helicópteros comuns. Os níveis de pousos e decolagens de helicópteros são em torno de 100 decibéis — barulho semelhante ao de uma motosserra —, enquanto os eVTOLs devem produzir cerca de 45 decibéis, o equivalente a uma conversa em um volume normal.
Os parlamentares chineses aprovaram uma nova Lei de Aviação Civil em 27 de dezembro de 2025, substituindo a legislação anterior, de 1995. O texto, que entra em vigor em 1º de junho, tem artigos sobre aeronaves de baixa altitude (abaixo de 1.000 metros), como os eVTOLs e os drones, assim como aeronaves não tripuladas.
“A alocação do espaço aéreo deve levar em consideração a segurança da aviação civil e da defesa nacional, as necessidades do desenvolvimento econômico em baixa altitude e o interesse público, de modo a garantir que o espaço aéreo seja usado de forma razoável, segura, plena e eficaz”
Lei de Aviação Civil da China
em seu artigo 74
Segundo a lei, os planejamentos do espaço aéreo chinês deverão levar em conta as dinâmicas dos eVTOLs, como as rotas possíveis para os carros voadores e os vertiportos, locais de pousos e decolagens dos veículos. As montadoras também vão precisar de autorização da CAAC, a autoridade chinesa de aviação, antes de começar a produzir os modelos.
A autoridade de controle de tráfego aéreo será a responsável por estabelecer as rotas em baixa altitude. Uma das principais restrições da legislação limita o sobrevoo em áreas urbanas, com exceção de pousos e decolagens.
Caleffi afirmou que a regulamentação chinesa dá segurança jurídica a fabricantes, operadores e investidores na economia de baixa altitude. “Ao estabelecer regras antes que o mercado se consolide, a China molda o padrão. Quem define a regulação primeiro tende a influenciar as normas internacionais, assim como aconteceu historicamente em telecomunicações e em outras indústrias”, disse o professor da UFSM.
Apesar de a legislação ainda não ter entrado em vigor, o mercado chinês de carros voadores já está aquecido. Sete montadoras de eVTOL estão em atividade no país e esperam colocar modelos à venda até o fim de 2026, de acordo com a consultoria local CCID.
A estatal GAC, por exemplo, anunciou em dezembro de 2025 que iria começar a produção do modelo Govy AirCab no mês seguinte. A montadora chinesa afirmou ter 2.000 pedidos do eVTOL, com as primeiras entregas previstas para o fim de 2026.
1,68 milhão
de yuans é o valor do Govy Air Cab, o equivalente a cerca de US$ 243,46 mil e R$ 1,27 milhão
Cidades como Shenzhen e Xangai estão desenvolvendo projetos para fomentar a chamada economia de baixa altitude, com a transformação de valor econômico da área de altitude abaixo de 3.000 metros. Áreas como a biofabricação (utilização de microrganismos para a produção de materiais e ingredientes) e a aviação comercial estão entre as que serão desenvolvidas nos próximos anos.
1 trilhão
de yuans é o valor — equivalente a US$ 144,9 bilhões e R$ 759 bilhões — da economia de baixa altitude esperado pela China, segundo o Plano de Implementação para Aplicação Inovadora de Equipamentos de Aviação Geral do país
A empresa chinesa EHang testou em diferentes países os voos de seu modelo EH216-S, uma aeronave de dois lugares. No Brasil, os experimentos ocorreram em 2024, em Quadra, cidade a 160 km de São Paulo.
Os testes foram feitos em parceria com a importadora nacional de drones GoHobby. O primeiro voo percorreu 1.800 metros em seis minutos, enquanto o segundo fez 700 metros em pouco mais de três minutos.
O interesse nos carros voadores não é exclusividade da China. Em junho de 2025, o presidente americano Donald Trump emitiu um decreto para acelerar os estudos sobre a implementação legal — que ainda não ocorreu na prática — dos eVTOLS no espaço aéreo dos Estados Unidos.
Em 9 de março, o Departamento de Transportes americano selecionou oito projetos-piloto de eVTOLs e Mobilidade Aérea Avançada para avançar na implementação. Algumas das principais empresas fabricantes de aeronaves dos EUA, como a Archer e a BETA, estão envolvidas nas propostas, que vão desde os serviços de táxi-aéreo urbano ao transporte médico de emergência e redes de carga e logística.
A EASA (sigla em inglês para Agência de Segurança da Aviação da União Europeia) também teve o avanço de alguns marcos regulatórios sobre carros voadores em julho de 2025. Dentre as determinações, estão requisitos para a operação de aeronaves tripuladas.
A abertura da consulta pública por parte do Ministério de Portos e Aeroportos mostra o Brasil na vanguarda internacional da Mobilidade Aérea Avançada. “A experiência acumulada da Embraer [Empresa Brasileira de Aeronáutica] em certificação aeronáutica é uma vantagem competitiva que pouquíssimos países têm”, disse Caleffi.
Um exemplo é a Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer. De acordo com o Índice de Realidade de Mobilidade Aérea Avançada, da consultoria SMG Consulting, a empresa já recebeu quase 3.000 pedidos de Eve-100, seu modelo de carro voador. Segundo o ranking, ela está atrás apenas das vendas da chinesa EHang.
A Eve tem oito hélices dedicadas a decolagem e pouso e um motor elétrico voltado para a propulsão. De acordo com a subsidiária da Embraer, mais rotores garantem maior segurança e eficiência à aeronave. O veículo poderá transportar até quatro pessoas além do piloto — podendo chegar a seis com o uso de piloto automático, ainda não certificado.
O modelo da Embraer pretende diminuir o tempo de deslocamento dentro das cidades. Em simulação feita no site da Eve, por exemplo, um trajeto de 45 minutos de carro na cidade americana de São Francisco levaria 15 minutos a bordo da aeronave.
O primeiro voo do protótipo ocorreu em 19 de dezembro de 2025, na cidade de Gavião Peixoto (SP), onde fica localizada a fábrica da Embraer. O modelo permaneceu no ar com altitude e posição constantes.
O plano da Eve Air Mobility é colocar o modelo à venda até 2027. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) planeja a criação de vertiportos em São Paulo e São José dos Campos (SP).
“Mas o pioneirismo regulatório não garante, por si só, liderança de mercado. O desafio é manter o ritmo sem criar gargalos regulatórios e investir em infraestrutura, como vertiportos, rede elétrica e integração com o espaço aéreo. Isso exige coordenação entre Anac, Decea [Departamento de Controle do Espaço Aéreo], ministérios e governos locais”, disse Caleffi.