
Ali Khamenei, líder supremo do Irã morto
O aiatolá Alireza Arafi assumiu como líder supremo interino do Irã no domingo (1º), após a morte de Ali Khamenei durante os ataques dos EUA e de Israel ao país do Oriente Médio, que acontecem desde sábado (28). A informação foi confirmada por Mohsen Dehnavi, porta-voz do Conselho de Discernimento de Conveniência – órgão de mediação entre o parlamento iraniano e o chamado Conselho dos Guardiões – em seu perfil no X.
Arafi fará parte do conselho provisório que irá governar o país até a escolha de um novo líder supremo. Os demais integrantes do órgão são o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, e o presidente do Supremo Tribunal, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i.
Neste texto, o Nexo explica como é o processo de escolha do líder supremo do Irã e apresenta os principais cotados ao cargo.
Em 1979, uma revolução instalou um governo islâmico no Irã, comandado por um grupo de clérigos muçulmanos xiitas, os aiatolás. Um deles é designado líder supremo, que está acima do presidente e de toda a estrutura do Estado iraniano.
Uma eleição elege 88 aiatolás para a Assembleia de Peritos a cada oito anos. O órgão é responsável por escolher, supervisionar e destituir o líder supremo, caso seja necessário. Metade dos 12 integrantes do Conselho dos Guardiões – formado por faqihs, juristas especializados na lei islâmica, para avaliar se as legislações seguem o Islã – são escolhidos por Khamenei. Eles aprovam ou não o nome escolhido para o cargo de líder supremo.
Segundo a Constituição do Irã, criada após a Revolução Iraniana, o líder supremo deve ser do sexo masculino e ter conhecimento acadêmico, jurídico e religioso. O manejo sociopolítico também é considerado na escolha.
Só houve dois líderes supremos até hoje no Irã: os aiatolás Ruhollah Khomeini, principal nome da revolução de 1979, e Ali Khamenei, no poder desde 1989.
O líder supremo comanda as Forças Armadas e, principalmente, a IRGC (Guarda Revolucionária do Irã), um braço militar criado após a Revolução Islâmica para preservar o regime dos aiatolás. Já a atuação do presidente é restrita à gestão cotidiana do país e à diplomacia internacional.
Em entrevista à agência de notícias Al Jazeera no domingo (1º), o ministro das relações exteriores iraniano, Abbas Araghchi, disse que esperava que o terceiro líder supremo do país fosse escolhido dentro de dois dias.
O artigo 111 da Constituição iraniana estabelece que um conselho provisório assume o país com o falecimento, a renúncia ou a destituição do líder supremo. Os três integrantes são sempre o presidente do país, o presidente do Supremo Tribunal e um membro do Conselho dos Guardiões.
Alireza Arafi integra o Conselho dos Guardiões desde 2019 e é vice-presidente da Assembleia dos Peritos. O aiatolá também supervisiona os seminários do Islã no país e ministra orações em Qoh, um dos centros religiosos mais importantes do Irã.

O aiatolá Alireza Arafi
O presidente Masoud Pezeshkian venceu a disputa pelo cargo em julho de 2024. Ele enfrenta resistência de alas conservadoras do Irã, como o Conselho dos Guardiões, por promessas de reformas sociais e retomada de negociações sobre o acordo nuclear com países ocidentais.
“Este grande crime jamais ficará impune e marcará o início de uma nova página na história do mundo islâmico e do xiismo”
Masoud Pezeshkian
presidente do Irã, em comunicado publicado no domingo (1º)
Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i, por sua vez, é o presidente do Supremo Tribunal Federal desde 2021, quando foi nomeado por Khamenei. Ele foi ministro da Inteligência do Irã entre 2005 e 2009 e procurador-geral do país.
Mohseni-Eje’i foi uma voz ativa contra os protestos populares que ocorrem no Irã desde dezembro de 2025. Em 5 de janeiro, ele afirmou que o país “não teria leniência para aqueles que ajudam os inimigos contra a República Islâmica”, acusando Estados Unidos e Israel de estimularem as manifestações.
Ali Khamenei já cogitava sua sucessão desde junho de 2025, durante o conflito de 12 dias contra Israel. O líder supremo indicou três candidatos a substituí-lo no período em que ficou protegido num bunker.
Mohseni-Eje’i era um dos indicados por Khamenei. Além dele, estão Ali Asghar Hejazi, chefe do gabinete de Segurança e Inteligência, e Hassan Khomeini, clérigo neto do líder da Revolução Iraniana e de visão moderada.
Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo morto, também é considerado para o cargo. Ele tem grande influência local e relações estreitas com a IRGC e com forças paramilitares. No entanto, seu pai não pretendia indicá-lo, por ele não ter cargo no governo, não ser um clérigo de alto escalão e pelo fato de a sucessão hereditária não ser apoiada entre os xiitas.
Após os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, houve uma queda no número de aiatolás cotados para assumir o cargo de líder supremo. Segundo o presidente americano, Donald Trump, em entrevista ao canal Fox News, no domingo (1º), 48 membros do alto escalão iraniano foram mortos na ofensiva.
Entre os opositores, há dois nomes mais cotados para a tentativa de alteração do regime político no Irã. O príncipe herdeiro Reza Pahlevi, filho do último xá do país, comemorou a morte de Khamenei. “Com sua morte, a República Islâmica chegou, de fato, ao fim e em breve será relegada ao esquecimento”, disse em publicação no X (antigo Twitter) em 28 de fevereiro.
“A morte do criminoso Khamenei, embora não vingue o sangue derramado, pode servir de bálsamo para os corações feridos dos pais e mães, maridos e esposas, filhos e filhas, e das famílias daqueles que deram suas vidas na Revolução Nacional do Leão e do Sol do Irã”
Reza Pahlevi
príncipe herdeiro do Irã
Pahlevi está exilado nos Estados Unidos desde antes da Revolução Iraniana, em 1979. Nos protestos que ocorrem desde dezembro, sua fotografia surgiu como símbolo contra o regime de Khamenei. Em ato em 14 de fevereiro em Munique, na Alemanha, o príncipe herdeiro disse que estava preparado para liderar o país rumo a um regime democrático.
Além dele, o Conselho Nacional da Resistência do Irã, também de oposição, anunciou, em 28 de fevereiro, um plano de 10 pontos para fazer uma transição do país rumo a uma república democrática. Dentre os tópicos, a presidente da organização, Maryam Rajavi, pediu pela rejeição do governo clerical absoluto, a separação entre religião e Estado, a liberdade de expressão e de direitos individuais e um Irã sem armas nucleares.
A crise recente entre os EUA e o Irã começou na esteira de uma onda de protestos que eclodiram no país persa em dezembro de 2025. Trump ameaçou em 2 de janeiro retaliar o regime caso continuasse reprimindo os manifestantes. Ele disse que seu governo ajudaria os iranianos.
As manifestações acabaram dentro de algumas semanas, deixando pelo menos 7.000 pessoas mortas. Há organizações de direitos humanos que estimam mais de 30 mil óbitos. A ajuda americana não chegou.
Mas a retórica da Casa Branca serviu para levar o regime do líder supremo Ali Khamenei para a mesa de negociação sobre um novo acordo nuclear, após Trump abandonar, em 2018, o trato fechado entre EUA e Irã em 2015, impondo sanções ao país persa e causando graves problemas econômicos à população.
Para os EUA, um novo acordo teria de eliminar o programa nuclear iraniano. O regime persa rejeita a proposta, mas aceita limitar o enriquecimento de urânio para fins pacíficos, como energia e medicina.
O ataque coordenado entre EUA e Israel contra o Irã no sábado (28) ocorreu, de acordo com Trump, sob o objetivo de proteger o povo americano de ameaças e destruir o programa nuclear iraniano. Um deles atingiu uma escola no sul do país, com mais de 160 mortos, incluindo crianças.
555
era o número de pessoas mortas pelos ataques dos EUA e de Israel no Irã até segunda-feira (2), de acordo com a organização humanitária Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano
Em resposta aos ataques, o Irã lançou bombardeios contra Israel e atacou bases militares americanas em outros países do Oriente Médio, como Catar, Bahrein, Kuwait, Iraque, Jordânia e Emirados Árabes. Ao todo, 11 mortes foram contabilizadas nos países até domingo (1º), sendo nove israelenses.