Em 2016, viajei para o Sudeste Asiático com minha namorada na época. Ao chegar a Siem Reap, no Camboja, já no fim do dia, passamos por uma situação sinistra. A pousada que havíamos reservado ficava muito mais longe do centro do que parecia no site. Encontramos um lugar quase em ruínas: entulho espalhado, homens carregando sacas, nenhum hóspede ou recepção. O único quarto disponível parecia improvisado. Já era noite e não havia transporte por perto para que pudéssemos sair e procurar outro hotel.
Acabamos passando a noite em claro, num quarto sem tranca, com medo de sermos estupradas, roubadas e de nunca mais voltar para casa. Anos depois, esse sentimento de horror se tornaria o ponto de partida do meu primeiro romance, “Instruções para desaparecer devagar” (Faria e Silva, 2025).
Durante o processo de escrita, ficou claro para mim que a situação que vivenciamos não foi meramente uma experiência individual. Todo o processo de socialização pelo qual nós, mulheres, passamos é atravessado pelo medo. Crescemos com o medo de sermos violentadas, tratadas como loucas, de não sermos dignas de amor se não correspondermos ao que é esperado de nós… E a lista não termina nunca.
Abaixo, listo uma seleção de livros em que o medo é usado como instrumento de controle dos corpos femininos.
Ottessa Moshfegh (Trad. Juliana Cunha, Todavia, 2019)
No romance de Ottessa Moshfegh, a narradora — nunca nomeada — é uma jovem órfã, branca e herdeira de uma pequena fortuna que decide passar um ano inteiro dormindo sob efeito de medicamentos, numa tentativa radical de se ausentar do mundo (e de si mesma?). Às vezes ela liga para Trevor, um empresário narcisista com quem mantém um relacionamento disfuncional, marcado por desprezo e dependência.
Reva, a amiga que insiste em visitá-la durante a hibernação, vive presa em uma relação doentia com a própria aparência, obcecada por magreza e por aceitação. A amizade entre as duas é marcada por inveja, admiração e, talvez, algum amor.
O romance de Moshfegh expõe de forma perturbadora como o medo de não corresponder ao ideal feminino de beleza e comportamento acaba moldando a nossa experiência no mundo.
Andressa Tabaczinski (Rocco, 2024)
Neste thriller psicológico sobre autodescoberta, acompanhamos Amélia, uma jovem professora de literatura criada sob os rígidos códigos de uma família obcecada em proteger a própria imagem.
Andressa nos mostra que a violência do controle feminino pode se manifestar justamente no espaço mais íntimo e aparentemente seguro: a família. Ali, o amor destinado às mulheres muitas vezes se revela profundamente condicionado à expectativa de que sejamos magras, delicadas, cuidadoras e mais uma infinidade de adjetivos.
Ao explorar essa dinâmica de afetos, “Boas meninas se afogam em silêncio” revela como muitas de nós passamos a regular o próprio corpo, comportamento e até nossos desejos mais profundos para continuarmos sendo aceitas e amadas.
Alice Walker (trad. Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson, José Olympio, 2018)
Publicado em 1982, “A cor púrpura” é um dos romances mais tocantes já escritos sobre a violência sistemática exercida contra as mulheres — especialmente mulheres negras —, mas também sobre a extraordinária capacidade humana de sobreviver, reinventar-se e criar novos sentidos para a vida.
Aqui, acompanhamos Celie, uma mulher negra e pobre no sul dos Estados Unidos do início do século 20, que desde a infância vive sob o medo da violência, da humilhação e da solidão. Mas o romance também mostra que esse ciclo de opressão pode ser rompido. Por meio da escrita e dos vínculos que constrói com outras mulheres, Celie começa a descobrir novas formas de se relacionar consigo mesma e com o mundo. E é nesse processo que o amor entre ela e Shug Avery abrirá um espaço de cuidado, prazer e reconstrução subjetiva que desafia a lógica do medo.
Alice Walker sugere que, se o controle das mulheres historicamente se constrói pelo isolamento e pela violência, a libertação passa, necessariamente, pela criação de vínculos entre elas.
Neige Sinno (trad. Mariana Delfini, Amarcord, 2025)
Em “Triste tigre”, Neige Sinno escreve um dos relatos mais devastadores sobre abuso sexual infantil e suas consequências indeléveis. O livro expõe de forma dilacerante como a política do medo começa ainda na infância, quando meninas aprendem — muitas vezes dentro da própria família — que seus corpos podem ser invadidos e que falar sobre isso pode ser ainda mais perigoso.
O silêncio imposto às vítimas revela um sistema que não apenas tolera a violência, mas também organiza a vida social a partir dela. Ao transformar sua experiência em literatura, Sinno rompe esse pacto de silêncio e mostra que o medo, longe de ser apenas uma emoção individual, funciona como um mecanismo estrutural de controle sobre a vida das mulheres.
Bruna Maia (Rocco, 2022)
Neste romance vertiginoso, Bruna Maia convoca a figura de Medeia — uma das personagens mais temidas e mal compreendidas da mitologia grega — para refletir sobre um dos mais antigos dispositivos de controle da mulher: o medo de ser considerada louca. Ao longo da história, mulheres que expressam raiva, desejo de vingança, que se recusam ao perdão infinito e incondicional, frequentemente foram enquadradas como histéricas, irracionais, perigosas ou mal-amadas.
Ana, a protagonista deste romance, se move exatamente nesse território ambíguo, onde a dor, a fúria e o desejo de reparação desafiam os limites impostos ao comportamento feminino. Ao revisitar Medeia, Bruna nos traz uma personagem nem sempre fácil de gostar, mas profundamente humana e nada disposta a perdoar machos escrotos. Ainda bem.
Flávia Iriarte é formada em cinema pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e mestre em literatura pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Editora, professora e mentora de escrita criativa, fundou a escola Carreira Literária e a Editora Oito e Meio, por onde já publicou mais de 320 autores. Coordenou a pós-graduação em Escrita Criativa da Uniítalo e foi premiada em 2016 como um dos Jovens Talentos da Indústria do Livro pelo PublishNews. É autora do livro de contos “Todo homem naufraga” e do romance “Instruções para desaparecer devagar”.