
Juquinha e Lorena em cena de “Três graças”
O casal Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), da novela “Três graças”, da TV Globo, teve a sua primeira relação sexual apresentada na terça-feira (24), após um pedido de casamento. No X, o assunto “Primeira vez Loquinha” era o quinto mais comentado na quarta-feira (25).
26 pontos
foi a quantidade atingida por “Três graças” na terça-feira, marcando seu recorde de audiência em São Paulo
Relações de casais LGBTI+ nem sempre receberam tanta visibilidade, ou foram tão bem aceitas pelo público. Os personagens eram representados de maneira caricata e seus relacionamentos muitas vezes acabavam, ou perdiam espaço nas novelas, por reclamações de telespectadores.
Neste texto, o Nexo aborda como relacionamentos LGBTI+ foram representados em telenovelas da TV Globo, as recepções a eles e de que maneiras as tramas envolvendo a comunidade evoluíram.
O ator Ary Fontoura foi o primeiro a representar um personagem gay nos anos 1970. Ele era o costureiro e carnavalesco Rodolfo Augusto, em “Assim na terra como no céu” (1970).
Durante a década de 1970, outros personagens LGBTI+ começaram a surgir, como Roberta (Regina Viana) e Glorinha (Isabel Ribeiro) em “O rebu” (1974), e Agenor (Rubens de Falco), em “O grito” (1975).
Fernanda Nascimento, professora adjunta da Escola de Comunicação, Artes e Design na PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), explica que esses primeiros personagens ocupavam principalmente um papel secundário.
“A maioria deles não formava casais, por exemplo, sabia-se da sexualidade de uma maneira implícita, muitas vezes construída a partir de caricaturas”, disse a professora, que também é autora do livro “Bicha (nem tão) má – LGBTs em telenovelas” (2015), em entrevista ao Nexo.
Os primeiros personagens também careciam de diversidade. O primeiro personagem homossexual negro surgiu apenas na década seguinte, em “Sassaricando” (1987), com Bob Bacall (Jorge Lafond).
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foi a quantidade de personagens LGBTI+ negros que apareceram em novelas da Globo entre 1970 e 2013, segundo a pesquisadora
Outras tramas apresentaram discussões sobre os direitos da comunidade LGBTI+ nos anos 1980 – como “Vale tudo” (1988), a partir das personagens Laís (Christina Prochaska) e Cecília (Lala Deheizelin), que discutiu o direito à herança em casais do mesmo sexo – e trouxeram pessoas trans e travestis – como Ninete (Rogéria), em “Tieta” (1989).
Nascimento afirma que os personagens LGBTI+ começaram a aparecer mais e tiveram tramas melhores a partir dos anos 2000.
O movimento acompanhou mudanças sociais. Nos anos 1970, por exemplo, a homossexualidade ainda era considerada uma doença e a homofobia não era crime. A partir dos anos 1990, o movimento LGBTI+ tornou-se mais consolidado no Brasil e as novelas também passaram a olhar para esse público como um possível mercado.
Os anos 2010 trouxeram uma leva importante de personagens LGBTI+ e de tramas complexas para eles. É o caso de Félix (Matheus Solano), em “Amor à vida” (2013), vilão que teve um arco de redenção após seu sucesso com o público. Ele e Niko (Thiago Fragoso), seu par romântico, protagonizaram o primeiro beijo gay romântico da Globo.
Já “A força do querer” (2017) acompanhou a trajetória do personagem Ivan (Carol Duarte), que se descobriu como homem transexual ao longo da trama.
Ao contrário de Félix, outros personagens LGBTI+ não tiveram tanta sorte com a recepção dos brasileiros às suas tramas.
Foi o caso de Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg), na novela “Babilônia” (2015). As duas, que eram um casal lésbico idoso, frequentemente trocavam beijos e abraços, mas a reação negativa do público fez com que a Globo cortasse essas cenas. Momentos similares entre casais heterossexuais foram mantidos.
Para Cecília Almeida, professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e coordenadora do grupo Obitel – Rede de pesquisadores de ficção televisiva, a rejeição aconteceu principalmente por conta da idade das personagens.
“Há padrões de aceitabilidade para os relacionamentos LGBTI+: os personagens precisam ser ricos, brancos, jovens e seguir os ideais de masculinidade ou de feminilidade”, disse em entrevista ao Nexo.
O destino do casal Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), em “Torre de Babel” (1998), também é emblemático. As duas enfrentaram tamanha rejeição por parte dos telespectadores que o autor Silvio de Abreu preferiu matar as personagens. Ambas morreram na trama após a explosão de um shopping.
“Há outras maneiras de retirar os personagens. Muitos autores fazem os personagens LGBTI+ viajarem, para nunca mais voltarem, ou ignoram a sexualidade deles, tornando-os mais palatáveis, mas ignorando as identidades”, disse Nascimento.
Almeida também explica que mostrar a relação entre os personagens LGBTI+ sempre foi objeto de disputa. Algumas tramas, como “América” (2005), tiveram beijos entre casais retirados do ar ou adiados. O próprio beijo de Félix e Niko só acontece no último episódio, relembra a professora.
As duas pesquisadoras pontuam que a representatividade de personagens LGBTI+ nas telenovelas não melhora de maneira linear.
Um caso é o casal Laís e Cecília, de “Vale tudo” (2024), que teve a qualidade de sua trama diminuída no remake, perdendo a relevância que tinham na versão original.
Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller), de “Em família” (2014), também são um exemplo de casal lésbico bem recebido. Mas o mesmo não aconteceu em “Babilônia”, que estreou no ano seguinte. “A aceitação em um ano não garante que o mesmo irá acontecer no próximo. Não é algo tão linear e garantido”, disse Nascimento.
Ela também explica que houve muitos avanços na representação de personagens LGBTI+, que ganharam mais destaque e tiveram tramas mais complexas.
Um dos pontos que poderia ser melhorado, na visão da professora, é a socialização desses personagens, que carecem de uma rede de pessoas LGBTI+ para se relacionarem, tendo um entorno muitas vezes completamente heterossexual.
“Também precisamos de mais personagens negros, tanto pertencentes à comunidade LGBTI+ como heterossexuais. As tramas de personagens pobres, que muitas vezes são vítimas de chacota, também precisam ser melhoradas. Precisamos mostrar que não são apenas as famílias ricas em novelas que podem debater a questão do preconceito”, afirma.
“Loquinha”, termo derivado da junção dos nomes das personagens, gerou fãs fora do Brasil e irá receber um spin-off focado na relação entre as duas, que será lançado no formato vertical, para ser exibido no Instagram da Globo após o final de “Três graças”, previsto para maio.
Na novela, Lorena é filha de Santiago Ferette (Murilo Benício), vilão do folhetim, e Juquinha é estagiária policial. Viviane (Gabriela Loran) é uma outra adição da comunidade LGBTI+ à novela. A personagem trans é farmacêutica e tem um relacionamento com Leonardo Ferette (Pedro Novaes), irmão de Lorena.
A força do casal é percebida principalmente nas redes. A base de fãs internacional fez com que a Globo passasse a legendar cenas das duas em outros idiomas – ação que faz parte da cultura clássica de fandoms – e postagens envolvendo as duas atraem milhões de visualizações.
É REAL!!!! É REAAAAAAAL! 💖🥵🔥🔥🔥🔥🔥
PRIMEIRA VEZ LOQUINHA #TrêsGraças pic.twitter.com/payHgbKpuL
— TV Globo 📺 (@tvglobo) February 25, 2026
Para Almeida, uma das principais diferenças do casal “Loquinha” para as suas antecessoras é que elas aparecem em pé de igualdade em comparação aos outros relacionamentos da novela.
A pesquisadora aponta alguns motivos para o sucesso do casal. Um deles são as próprias atrizes, que já tinham fãs da comunidade LGBTI+. Alanis Guillen tem um relacionamento com outra mulher, enquanto Gabriela Medvedovsky participou de telenovelas e séries como “Malhação: viva a diferença” e “As five”, que também tiveram personagens LGBTI+.
“A maneira como a narrativa das duas foi construída também é importante. Elas são apresentadas em núcleos separados e o casal não existe apenas como uma entidade única. Elas têm vidas interiores complexas, que vão além do romance”, disse.
Isso representa uma diferença na maneira como a representação LGBTI+ costuma ser feita, de acordo com Almeida. Em novelas anteriores, os personagens estão limitados à própria sexualidade, com tramas restritas apenas à descoberta sexual ou ao preconceito que sofrem.
“Normalmente, vemos muitas histórias estereotipadas que mais se distanciam do que se aproximam do público. Esse é um romance bem construído desde o primeiro encantamento entre elas, o interesse, o toque. A força está nisso, porque há identificação”
Alanis Guillen
em entrevista ao jornal O Globo
A professora também pontua que, apesar de ainda existir uma reação negativa ao casal – principalmente quando cenas mais explícitas surgem –, o conservadorismo não é suficiente para diminuir a audiência da novela.
Em resposta, os fãs se mobilizam nos comentários e em grupos para comentar em posts e expressar sua satisfação com o casal, fazendo com que os comentários negativos se tornem minoria.
“Hoje, as relações LGBTI+ são mais compreendidas como parte da vida, mas os incômodos ainda aparecem quando há cenas mais gráficas envolvendo esses casais, ou seja, ainda existe uma reação conservadora. Isso significa que não podemos deixar de lutar por essa visibilidade, que a qualquer momento pode ser tirada de nós”, afirma.
Nascimento também pontua que, de maneira geral, os casais LGBTI+ têm mais aceitação atualmente, mas ela não é total, com a presença de grupos conservadores que utilizam esses personagens para atacar essa população.
“Mas é extremamente importante que esses personagens continuem a aparecer nas novelas. Quando há personagens assexuais, ou que fazem drag, por exemplo, você começa a entender a possibilidade dessa existência, e imaginar que você também possa ser assim. Temos poucas brechas para imaginar outras possibilidades de existência, e as novelas as demonstram e materializam”.