
Exemplo de novela de fruta de IA
As chamadas “novelas de frutas” tomaram conta do TikTok e do Instagram, somando milhões de visualizações. Os conteúdos, que personificam diferentes tipos de frutas e exploram o cotidiano das personagens, são produzidos com ferramentas de inteligência artificial.
Apesar de parecerem inofensivos à primeira vista, os vídeos muitas vezes abordam temas como violência doméstica, abandono parental e traição. Especialistas em segurança infantil alertam para os riscos que enredos densos e inadequados podem trazer ao desenvolvimento cognitivo de crianças, além de apontarem possíveis brechas nas diretrizes das plataformas voltadas à proteção desse público.
Neste texto, o Nexo explica o que são as novelas de IA com frutas e discute os riscos que elas representam para o desenvolvimento ao longo da infância, da juventude e da vida adulta.
Uma traição do Bananão com a Moranguete coloca fim ao seu casamento com a Tomatina. O Abacatudo abandona a esposa, Limoeira, e os filhos após uma série de episódios de violência. Esses são alguns dos enredos comuns das novelas de frutas, produzidas por diversos perfis no TikTok e amplamente compartilhadas nas redes sociais.
A trend das frutas com inteligência artificial explodiu no Brasil e no mundo em março de 2026, com a série em inglês “Fruit Love Island”, um reality show romântico criado pelo perfil AI.Cinema021, no qual morangos, bananas e maçãs são os protagonistas. Inspirado no programa britânico Love Island, o perfil alcançou mais de 3 milhões de seguidores em apenas dez dias, além de acumular cerca de 200 milhões de visualizações somadas em mais de 20 episódios.
@ai.cinema021 Episode 1 of Fruit Love Island! Which couple are you rooting for? 🍿 #ai #aifruit #aistory #fruit #cinema ♬ original sound – Love Island
Com o sucesso, perfis de diferentes partes do mundo passaram a produzir seus próprios conteúdos sobre frutas e a publicá-los na plataforma, fazendo com que os algoritmos fossem dominados pelo fenômeno tratado nas redes como “onda frutífera”.
Criadores brasileiros também começaram a desenvolver suas próprias narrativas. Com uso de gírias locais e cenários inspirados em comunidades e periferias do país, essas produções seguem uma estrutura marcada por conflitos familiares e reconciliações dramáticas, ecoando tramas comuns em novelas da televisão brasileira.
Em pouco tempo, a hashtag #frutas, usada para reunir esse tipo de conteúdo, ultrapassou 800 mil publicações no TikTok. Já a hashtag #abacatudo, nome de um dos personagens, somou cerca de 14 mil publicações, número semelhante ao da hashtag #moranguete.
Também no TikTok, criadores passaram a oferecer cursos ensinando como produzir esse tipo de conteúdo, aproveitando a tendência.
As frutas personificadas e as narrativas novelescas não são os únicos fatores que chamam a atenção do público. Segundo Sofia Sebben, psicóloga clínica de crianças e adolescentes e doutoranda em Psicologia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o formato acelerado e estimulante ajuda a explicar o apelo, especialmente entre crianças.
Sebben explica que esse tipo de conteúdo funciona como um “fast food do cérebro”, pois combina cortes rápidos, trilhas semelhantes e enredos pautados em reviravoltas, estimulando alta liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa. Com o consumo frequente, o cérebro passa a se acostumar com esse nível de estímulo.
Como consequência, atividades mais lentas e que exigem concentração, como ler e estudar, passam a se tornar desinteressantes para as crianças. “Isso acaba podendo ter prejuízos cognitivos na linguagem e emocionais”, afirmou a psicóloga ao Nexo.
Segundo Sebben, o impacto nas crianças é ainda mais significativo quando se considera o estágio de desenvolvimento infantil. Dos quatro aos seis anos, aproximadamente, a criança tem dificuldade em diferenciar fantasia de realidade. Esse efeito é intensificado pelo apelo do chamado “animismo”, quando objetos ganham características humanas. Personagens como frutas que falam, choram e sofrem dialogam com a criança, facilitando a identificação com as histórias.
Para a psicóloga, o problema está na combinação entre a estética infantil e enredos adultos. Enquanto a “embalagem” é lúdica e aparentemente inofensiva, os enredos frequentemente envolvem temas como traição, abandono e violência.
“Esse tipo de exposição pode distorcer a percepção que a criança tem sobre como funciona um relacionamento, a família, o trabalho e a resolução de conflitos”, disse.
Com o tempo, essa repetição pode influenciar a forma como a criança enxerga o mundo. “Isso faz com que a criança passe a perceber as relações como lugares perigosos, instáveis, problemáticos”.
Sebben explica que um dos efeitos desse contato é a chamada “dissociação cognitiva”, que ocorre quando a criança recebe sinais contraditórios simultâneos, como personagens visualmente seguros e agradáveis envolvidos em situações emocionalmente perturbadoras.
“Isso acaba criando uma confusão na bússola emocional da criança: a imagem diz que é engraçado, mas a situação é trágica e assustadora”,afirmou a psicóloga. Como o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, pode haver dificuldade em processar essa contradição.
Os efeitos podem se manifestar em ações das crianças. Entre os sinais de alerta, a especialista cita mudanças de comportamento, como rir de situações inadequadas, reproduzir cenas de agressão nas brincadeiras ou apresentar ansiedade e alterações no sono. “Nenhum desses sinais isoladamente confirma o problema, mas são pontos de partida importantes para conversar com a criança e, se necessário, buscar ajuda profissional”, disse Sebben.
A psicóloga também chamou a atenção para os impactos da exposição recorrente a esses conteúdos no desenvolvimento emocional infantil. Segundo ela, a infância é um processo gradual, que vai desde o reconhecimento das próprias emoções, passando pela compreensão do outro, até a capacidade de lidar com conflitos mais complexos.
Quando esse tempo não é respeitado, pode surgir o que a psicóloga chama de “maturidade de fachada”. “A criança passa a repetir termos e comportamentos adultos, mas não tem estrutura emocional para lidar com as frustrações da vida”, disse.
Segundo Sebben, isso pode se manifestar em forma de ansiedade, insegurança e dificuldade de confiar em outras pessoas, afetando inclusive a forma como a criança se relaciona ao longo da vida.
Apesar dos riscos, a especialista disse que o problema é o excesso e a falta de mediação: “Não é que não se possa ter acesso a conteúdos curtos, mas é preciso equilíbrio”.
No caso das famílias, a orientação não é proibir, mas acompanhar. “Assistir junto, perguntar o que a criança entendeu, criar espaço para conversa”, disse Sebben.
Já no ambiente digital, a psicóloga diz que a proteção deve ser equivalente à do mundo offline. “A criança que aprende a questionar o que consome está muito mais protegida do que aquela que apenas consome ou aquela que é simplesmente proibida”, concluiu.
Segundo Fabricio Polido, advogado e professor associado de direito internacional, direito comparado e novas tecnologias da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), diversos aspectos dos vídeos – conteúdos curtos, intensos e pensados para gerar reação imediata, além de elementos aparentemente absurdos – favorecem o impacto amplo e potencial de viralização. A estética e referências contribuem para o efeito.
“Isso acontece porque a IA utiliza formatos simplistas, padrões de frutas com cores já identificadas, e formas que já são facilmente percebidas pelos usuários”, disse Polido ao Nexo.
Ao mesmo tempo, o próprio design das plataformas favorece a continuidade desse consumo, por meio de mecanismos como rolagem automática e recomendações em cadeia. “Além disso, há o design manipulativo, que são estratégias usadas para captar, manter e prolongar a atenção, explorando aquilo que já é uma vulnerabilidade do usuário”, explicou Polido.
Assim como Sebben, o advogado também citou a “embalagem lúdica” dos conteúdos como algo que contribui para visualizações e engajamento em larga escala, além de passar pelos filtros das plataformas.
De acordo com Polido, esse fator também representa um desafio técnico para a moderação, uma vez que, em muitos casos, os sistemas automatizados identificam apenas elementos visuais isolados, sem considerar o contexto narrativo.
Ele também afirmou que o uso de inteligência artificial na produção desses conteúdos amplia os riscos, já que permite criar narrativas que podem ser manipuladas, descontextualizadas ou até reforçar estereótipos e discriminações.
Apesar disso, o advogado aponta que já existem instrumentos legais capazes de lidar com esse cenário, ainda que sua aplicação enfrente desafios diante da velocidade de circulação dos conteúdos.
“O ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] e o ECA Digital preveem que as plataformas adotem medidas para impedir ou reduzir o acesso a conteúdos prejudiciais”, afirmou Polido. Essas normas estabelecem responsabilidades tanto para as plataformas quanto para as famílias, em um modelo compartilhado de proteção.
“As plataformas passam a ocupar um lugar central como ‘guardiões algorítmicos’. Trata-se de um papel compartilhado”
Fabrício Polido
advogado e professor associado de direito internacional, direito comparado e novas tecnologias da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em entrevista ao Nexo
Entre as medidas que estão no leque das plataformas, Polido cita o aprimoramento dos sistemas de identificação de conteúdo, o uso de marca d’água e a adoção de avisos mais claros sobre material sensível. “Assim, os sistemas conseguem mapear melhor a origem e a intenção desses conteúdos”, disse.
Outra alternativa apontada pelo advogado é a criação de ambientes mais seguros para o público infantil, com curadoria prévia de conteúdos.
Além das soluções técnicas, Polido também defende a importância de políticas públicas voltadas ao letramento digital, que ajudem usuários a compreender o funcionamento das plataformas e seus mecanismos de recomendação. “É preciso desmistificar a ideia de que conteúdo colorido e com frutas é seguro. Não será seguro enquanto promover manipulação”, disse.