O que é violência vicária. E como ela se liga ao feminicídio

Ato no Dia Internacional da Mulher, em Copacabana (RJ), pelo fim da violência contra as mulheres. Um grupo de mulheres está deitado no chão, simulando morte

Ato no Dia Internacional da Mulher, em Copacabana (RJ), pelo fim da violência contra as mulheres

Completaram um mês na quarta-feira (11) as mortes dos meninos Miguel e Benício, de 12 e 8 anos, em Itumbiara (GO). O próprio pai, Thales Machado, secretário de Governo do município, atirou nas crianças enquanto elas dormiam. Na sequência, ele tirou a própria vida. 

Segundo a polícia, Machado premeditou e cometeu o crime para atingir a ex-esposa, Sarah Araújo. O caso, que chocou o país, é uma das faces da violência vicária, quando o agressor da mulher a atinge por meio de seus entes queridos — geralmente, os filhos. 

Neste texto, o Nexo explica o conceito de violência vicária e mostra como ele dialoga com aspectos do feminicídio, que registrou recorde histórico de casos no Brasil. 

A definição de violência vicária

A violência vicária é uma das faces da violência contra as mulheres, que ocorre quando o agressor usa pessoas próximas da vítima — geralmente os filhos — como instrumento para prolongar o controle e o abuso sobre a parceira, especialmente após a separação.  

Ela pode se manifestar de diferentes formas:

Foi o que fez Thales Machado. Pouco antes do crime, ele ameaçou Sarah Araújo por telefone e enviou fotos dos meninos dormindo. Na sequência, atirou contra Miguel, de 12 anos, e Benício, de 8. Depois, tirou a própria vida. O caso foi registrado como duplo homicídio, seguido de suicídio.  

Machado era secretário de Governo do município de Itumbiara (GO) e trabalhava com o avô dos meninos, o atual prefeito da cidade, Dione Araújo (União).

Antes do crime, ele fez um post nas redes sociais em tom de despedida e escreveu a frase: “que Deus abençoe sempre meus filhos, papai ama muito”. 

Além da perda dos filhos, Sarah precisou lidar com hostilidades, pois surgiram boatos nas redes sociais de que o crime teria sido motivado por uma suposta traição conjugal. Ela estava separada de Thales.

“Até hoje, não consigo acreditar. É muito difícil olhar as fotos deles, os vídeos, e eles não estarem mais aqui”

Sarah Araújo

em entrevista à TV Anhanguera na quinta-feira (12)

Em 2023, um caso semelhante ocorreu com a delegada Amanda Souza, da Polícia Civil de Belém (PA). Seu ex-marido matou os dois filhos, Marcelo, de 12 anos, e Letícia, de 9. Depois, cometeu suicídio. 

Souza havia se separado em 2022, após uma relação abusiva baseada em controle e ciúme, que piorou quando a família se mudou de cidade para que ela passasse pela formação de delegada. 

“Ele me escreve uma mensagem na manhã, dizendo que meu futuro seria de tristeza e solidão. Eu vou para a delegacia trabalhar. E aí, quando dá 16h, ele me liga. E nessa ligação ele me fala: parabéns, você conseguiu o que você queria: eu matei os seus dois filhos”

Amanda Souza

delegada que teve os filhos assassinados pelo ex-marido, em entrevista à BBC Brasil 

“Infelizmente, casos como esse não são tão incomuns. Situações em que o agressor acaba vitimando pessoas do relacionamento da vítima são uma parte de quem lida com isso no cotidiano”, disse ao Nexo a pesquisadora e professora Priscilla Placha Sá, que coordenou o grupo de pesquisa Todas as Mulheres Importam, do Departamento de Direito Penal e Processual Penal da UFPR (Universidade Federal do Paraná). 

Segundo ela — que também é desembargadora do Tribunal de Justiça do Paraná e ex-chefe da Coordenadoria de Violência Doméstica —, é evidente a vitimização em rede para além da própria vítima nos casos de violência doméstica, especialmente crianças e adolescentes.

Placha Sá e outras pesquisadoras detalharam o fenômeno no estudo “Dossiê Feminicídio”. Em casos fatais de violência vicária, não raro os filhos estão entre as vítimas, segundo a pesquisa. Há ainda casos de homens que atiram na barriga de mulheres grávidas para matar o bebê.

“[A violência vicária] significa uma dimensão que é física, mas também simbólica. Significa dizer quanto posso atingir você para além de atingir você mesma. É quase como dizer: você não fica morta, mas fica morta em vida”, disse a pesquisadora. 

Os padrões dos agressores

A pesquisa conduzida por Placha Sá mapeia o padrão visto nos agressores de cometer suicídio após os homicídios, como no caso de Itumbiara (GO). A atitude também é comum no feminicídio. 

“É uma simbologia fortíssima sobre essa ideia de poder. Esse homem diz que é tão poderoso, que só ele pode dar o destino de sua própria vida, para não se submeter ao sistema de Justiça”, afirmou Placha Sá. 

Essa ideia de poder — sobre a própria vida e sobre a das crianças — vem do que a antropóloga argentina Rita Segato chama de patriarcado de alta intensidade. “O homem age como se tivesse um mandato de propriedade sobre essa mulher e seus filhos”, disse a pesquisadora.

Premiada internacionalmente por trabalhos sobre feminismo e violência contra as mulheres, Segato defende que há uma “linguagem feminicida” anterior ao crime, a qual ocorre em duas dimensões: a vertical — dizer para a vítima e todas as outras mulheres que um homem pode fazer isso — e a horizontal — comunicar que todos os homens podem fazer o mesmo.

“Temos ainda uma terceira via, da linguagem de hiperconexão, na qual sujeitos anônimos fazem uma comunicação subliminar”, disse Placha Sá. Ela cita como exemplo uma série de vídeos misóginos do TikTok que viralizaram no 8 de Março sugerindo formas de violência contra mulheres que negam pedidos de relacionamento ou toque físico.

“Algum tempo atrás, seria impensável um adolescente gravar um vídeo ou falar para os colegas da escola que, se a namorada negar algo, ele deve usar uma faca”, afirmou Placha Sá. “E o dilema é que milhões de usuários acessam esses conteúdos.”

Os materiais estão sob investigação da Polícia Federal, após pedido da Advocacia-Geral da União na terça-feira (10). 

3,49%

foi o aumento no número de casos de feminicídio em janeiro de 2026 em relação ao mesmo mês de 2025, de acordo com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça); foram 947 casos, ante 915 no ano anterior

Segundo os estudos de Segato e Placha Sá, a linguagem feminicida também se manifesta por meio da violência psicológica e de tentativas concretas de controle, como querer saber as senhas do celular e do banco.

Para a professora, combater o problema demanda um amplo debate sobre masculinidade, redpills e outras ideologias que pregam ódio às mulheres. “Para além da responsabilidade jurídica, há a responsabilidade social”, afirmou. 

O que diz a lei 

Está em andamento na Câmara dos Deputados um projeto de lei de Laura Carneiro (PSD-RJ), Maria do Rosário (PT-RS) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) para incluir a violência vicária na Lei Maria da Penha. 

Para Placha Sá, esse tipo de violência também pode ser incluído no Código Penal e no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). 

“Precisamos nomear a violência que acontece com a gente. Não é ‘só’ um homicídio, como o que está no Código Penal. A nomeação da figura é importante até mesmo para fins de estatística”, disse. 

A professora defende uma “travessia conjunta” entre o Poder Judiciário e a sociedade para combater a violência contra as mulheres.

“Acho difícil que um homem não saiba que feminicídio tem pena grave [o crime tem a maior pena do ordenamento jurídico brasileiro, de 40 anos]. A maioria deles responde o processo preso. Não é um crime de difícil identificação de autoria, e as chances de condenação pelo júri são grandes. Não tem um sentimento de impunidade. Mas precisamos pensar em outras balizas sociais para trabalhar”, afirmou.