
Jaques Wagner (PT-BA) em pronunciamento à bancada do Senado
Líder do governo no Senado, aliado próximo do presidente Lula, ex-governador da Bahia e um dos fundadores do PT no estado, Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo na quinta-feira (18) da nona fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes envolvendo o Banco Master.
As investigações da Polícia Federal indicam que o político teria recebido vantagens indevidas, como um apartamento em Salvador, além de repasses em dinheiro, em troca de atuação no Congresso Nacional a favor da instituição financeira.
Neste texto, o Nexo elenca as suspeitas envolvendo o senador, mostra as reações do PT, da cúpula do governo e de Wagner ao caso, e analisa como as revelações podem mudar o jogo político na pré-campanha de 2026.
A nona fase da Compliance Zero é focada na possível relação ilícita entre Jaques Wagner e os gestores do Banco Master, especificamente Augusto Ferreira Lima, que também foi alvo da operação, segundo decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal.
Ex-sócio de Daniel Vorcaro, Lima era controlador do Banco Pleno, liquidado em fevereiro. A instituição herdou do Master parte de seus CDBs (Certificados de Depósito Bancário), que são títulos de renda fixa, e tentava construir uma carteira de crédito, mas não vinha conseguindo captar recursos nem vender ativos suficientes.
As investigações da Polícia Federal indicam que, a partir da relação com Lima, Wagner teria recebido vantagens econômicas indevidas, como:
Esses benefícios seriam uma contrapartida à atuação de Wagner em favor do Banco Master na tramitação de projetos discutidos pelo Senado, como a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que prevê a autonomia financeira do Banco Central e uma lei que aumenta o limite de consignação de salário de trabalhadores CLT e aposentados.
Autorizados por Mendonça, foram expedidos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal na quinta-feira (18). A nova fase da Compliance Zero apura suspeitas de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
US$ 49 mil
foi o valor em espécie encontrado por agentes da Polícia Federal durante busca e apreensão em endereço ligado a Jaques Wagner em Brasília. O montante equivale a cerca de R$ 250 mil
€ 33 mil e US$ 6 mil
foram os valores em espécie encontrados por agentes da Polícia Federal durante busca e apreensão em endereço de Jaques Wagner em Salvador. O montante equivale a cerca de R$ 195 mil e R$ 30 mil
O envolvimento de Augusto Ferreira Lima com o PT da Bahia já era conhecido antes da nova fase da operação.
Em 2018, antes de entrar no mercado financeiro, Lima venceu uma licitação da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), dona da rede estatal de supermercados Cesta do Povo, e ficou com a parte financeira da operação, o CredCesta, cartão de crédito consignado com juros abaixo do mercado e destinado a servidores públicos e empresas privadas.
Na época, o governador da Bahia era Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil de Lula. Jaques Wagner era o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico.
Wagner negou irregularidades em entrevista na quinta-feira (18) ao canal de TV Band News. Segundo o senador, ele pediu que Lima comprasse o apartamento no Horto Florestal para sua filha pelo fato de ele ser um investidor.
“Eu disse a ele: ‘você pode comprar? Depois eu vou recomprar.’ Porque o apartamento está em construção. E eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar o apartamento, ou ela [teria que] financiar”
Jaques Wagner
senador (PT-BA), em entrevista ao canal Band News na quinta-feira (18)
Questionado sobre valores em espécie encontrados em seus endereços, o senador disse que a moeda estrangeira foi comprada via Banco do Brasil e que o dinheiro foi recebido para diárias em viagens oficiais ao exterior. Segundo o Portal da Transparência do Senado, o político recebeu R$ 338 mil em diárias relacionadas a viagens internacionais entre 2019 e 2026.
Wagner também disse que seu envolvimento com Vorcaro é quase “zero”, estando com o banqueiro em apenas duas ocasiões: quando ele e Lima viraram sócios e na indicação do escritório de advocacia do ex-ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, que prestou consultoria ao Master. “Não tem nenhuma transferência de patrimônio para mim. Não tenho nenhum negócio com o Master ou CredCesta”, afirmou.
“Isso é uma mera investigação. Não sou réu, não sou culpado, não sou nada. É resultado de uma investigação e vieram conferir comigo. Estou absolutamente tranquilo em tudo que eu tenho a dizer”
Jaques Wagner
senador (PT-BA), em entrevista ao canal Band News na quinta-feira (18)
Pré-candidato ao Senado pela Bahia, Wagner disse ainda que a disputa nas eleições de outubro está “absolutamente mantida”. “Estou muito seguro da minha vida pessoal, de tudo o que fiz”, afirmou.
O envolvimento do líder do PT no Senado no caso Master também causou reações no meio político.
A base do governo defendeu o amplo direito à defesa de Wagner e a autonomia da Polícia Federal nas investigações. Ao mesmo tempo, aliados cobram que o senador se afaste da liderança do governo. Segundo a revista Veja, integrantes de um grupo criado para fortalecer o PT nas redes estão preocupados com os reflexos do caso para Lula.
Em entrevista à Band News, Wagner disse que, por telefone, o presidente se solidarizou e não falou sobre uma possível saída do cargo. Internamente, no entanto, o Palácio do Planalto tem a expectativa de que o senador saia da função para se dedicar à sua defesa, segundo informações de bastidores publicadas no site G1. Integrantes do governo também não gostaram da forma como o senador se posicionou na entrevista.
“Continuo na liderança [do governo no Senado] até que o presidente Lula peça para eu me retirar. Não acho que ele vai fazer isso. Mas, se ele fizer, é um direito dele. O cargo é do presidente da República”
Jaques Wagner
senador (PT-BA), em entrevista ao canal Band News na quinta-feira (18)
Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) defendeu Wagner, prestou “solidariedade integral” ao colega e afirmou que as conclusões só podem ocorrer após o julgamento do caso.
Já a oposição quer colar o escândalo ao governo e ao PT. O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, disse na quinta (18) que a ascensão empresarial do Master “ocorreu com o PT da Bahia”, enquanto o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que a nona fase da Compliance Zero é um “alento”, e que o PT da Bahia, “cerne de todo esse problema”, foi “implodido pela Polícia Federal”.
Outros citados no caso Master
Cláudio Castro
Antes de Wagner, as apurações da Polícia Federal envolvendo o Master chegaram a políticos do campo da direita e extrema direita, como o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). A ação investiga o aporte de R$ 3 bilhões do Rioprevidência (Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro) a fundos ligados ao banco fundado por Daniel Vorcaro.
Ibaneis Rocha
Outro ex-governador implicado é Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal. O político é investigado em inquéritos que apuram a tentativa do BRB (Banco de Brasília) de comprar o Master quando sua crise de liquidez já era conhecida.
Ciro Nogueira
Também há investigações sobre o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Em troca da representação de interesses de Vorcaro no Congresso, o político recebia do banqueiro R$ 300 mil mensais, segundo a PF. Ele também teria ganhado viagens internacionais e comprado a participação societária de uma empresa ligada a Vorcaro — que se referia a Ciro como “amigo de vida” — por um valor muito abaixo do mercado.
Flávio Bolsonaro
Outro envolvimento é o de Flávio Bolsonaro. Em maio, o site The Intercept Brasil publicou mensagens que mostram o senador pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”. O banqueiro pagou R$ 61 milhões, mas havia prometido R$ 134 milhões. As mensagens foram trocadas de dezembro de 2024 a novembro de 2025, quando as suspeitas sobre o Master já eram de conhecimento público.
Para o cientista político Fábio Kerche, professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), manter Wagner na liderança do governo no Senado é inviável, e o Planalto deveria tomar uma decisão rápida sobre sua saída.
“[Mantê-lo] é custoso para o PT. Wagner é um quadro histórico e uma figura importante para o partido. Ninguém deve ser condenado antes do julgamento, mas esse é um cargo difícil de se manter”, afirmou ao Nexo.
Apesar do desgaste, ele avalia que, do ponto de vista político-eleitoral, a nona fase da Compliance Zero deve alterar pouco a disputa presidencial, que seguirá concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro.
“Esse caso é uma oportunidade de a direita dizer: ‘não é só a gente, é todo mundo’. Como as provas do lado bolsonarista são muito robustas, o único caminho para a defesa é esse. O que a candidatura Bolsonaro vai tentar fazer é aproximar Lula por meio de Jaques Wagner, tentando nivelar os escândalos”
Fábio Kerche
cientista político e professor da Unirio, em entrevista ao Nexo
Já a cientista política Monalisa Soares Lopes, professora da UFC (Universidade Federal do Ceará) e coordenadora do Lepem (Laboratório de Estudos sobre Política, Mídia e Eleições), afirmou que o envolvimento de Wagner no caso Master expõe Lula.
“O presidente precisará dizer algo sobre esse escândalo, pois se mostra que não é algo exclusivamente dos seus opositores. Alguém com profunda conexão com o governo está implicado”, disse ao Nexo.
Segundo o jornal O Globo, a estratégia do PT vai continuar sendo a de manter o caso Master no colo de Flávio, sob o argumento de que Wagner não é candidato à Presidência, ao contrário do primogênito de Jair — que admitiu ter visitado Daniel Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, quando ele estava usando tornozeleira eletrônica.
“O impacto para a campanha depende de como eles vão construir essa saída. Chegar ao líder do governo é chegar muito perto do Lula. Mas [esse caso] é diferente do da oposição, que implica diretamente Flávio Bolsonaro. As condições não são as mesmas. Ainda que atinja o PT e reviva um sentimento antipetista, [o escândalo] não né o mesmo nível. Para Flávio, falar do Master é relembrar seu próprio envolvimento”
Monalisa Soares Lopes
cientista política e professora da UFC, em entrevista ao Nexo
Outra alegação que deve ser usada pelo governo é que, com Lula, a Polícia Federal tem autonomia para trabalhar sem interferências, segundo Kerche. O preço pago por essa autonomia é o que o cientista político chama de paradoxo da visibilidade — isto é: quando há combate à corrupção, aumenta-se a percepção de que ela cresceu.