
Agentes da Polícia Federal durante operação
Iniciada em novembro de 2025, a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, revelou ao país a fraude financeira bilionária envolvendo o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro.
Desde então, foram nove fases, a mais recente deflagrada na quinta-feira (18). As investigações se desdobraram, chegaram a agentes políticos suspeitos de atuar em favor do Master dentro do Congresso Nacional e abalaram o Supremo Tribunal Federal.
Neste texto, o Nexo explica e contextualiza a Compliance Zero, mostrando seus principais alvos, fase a fase.
A Compliance Zero é uma operação da Polícia Federal que investiga fraudes no sistema financeiro nacional, com o objetivo de combater a emissão de títulos de créditos falsos. O Banco Master, de Daniel Vorcaro, é o principal alvo da apuração.

O banqueiro Daniel Vorcaro
As investigações começaram em 2024, após requisição do Ministério Público Federal, que apontou que o Master teria criado carteiras de crédito insubsistentes — ou seja, ele simulava empréstimos e valores a receber e negociava as carteiras de crédito com outros bancos.
Um deles foi o BRB (Banco de Brasília), instituição ligada ao governo do Distrito Federal, na época governado por Ibaneis Rocha (MDB).
R$ 12,2 bilhões
foram os valores pagos pelo BRB ao Master em emissão de títulos falsos, de acordo com a Compliance Zero
Antes de o Master ser o principal alvo da Compliance Zero, seu modo de operação já gerava desconfiança no mercado financeiro.
O setor temia a falência da instituição por causa de seu modelo de negócio para captação de clientes, oferecendo taxas de retorno acima do mercado em CDBs (Certificado de Depósito Bancário) e fazendo investimentos arriscados, como papéis de empresas em dificuldades financeiras.
140%
eram os rendimentos do CDI (Certificado de Depósito Bancário) oferecidos a quem comprava papéis do Master — ganhos superiores às taxas médias de bancos pequenos, que praticam em torno de 110% do CDI
Além do Master e Vorcaro, gestores, empresários ligados a fundos de investimento e políticos que teriam atuado a favor do Master no Congresso e nos estados são investigados na Compliance Zero. Os crimes apurados incluem lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e organização criminosa.
O relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal é o ministro André Mendonça, que assumiu a função em 12 de fevereiro de 2026, após Dias Toffoli deixar a condução das investigações por conduta suspeita.
Nesse tempo, também veio à baila um contrato milionário que o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, manteve com o banco.
O principal personagem do caso Master, Daniel Vorcaro, foi preso em 17 de novembro de 2025, um dia antes da primeira fase da Compliance Zero e da decretação da liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central. A Justiça Federal do Distrito Federal havia ordenado a prisão do banqueiro por risco de fuga.
A primeira fase da Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal e autorizada pelo Ministério Público Federal no dia 18 de novembro de 2025, com foco na negociação dos créditos fraudulentos.
Além de Vorcaro, foi preso o banqueiro Augusto Lima — seu sócio, então diretor do Banco Pleno — e outras cinco pessoas.
25
mandados de busca e apreensão foram cumpridos na primeira fase da Operação Compliance Zero
R$ 1,3 bilhão
foi o total em valores bloqueados
Também foi alvo da operação o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Ele foi afastado do cargo, bem como o então diretor de finanças e controladoria da instituição, Dario Oswaldo de Garcia Junior.
A segunda fase da Compliance Zero foi deflagrada em 14 de janeiro de 2026, autorizada pelo ministro Dias Toffoli, então relator do caso Master no Supremo.
A Polícia Federal mostrou, nessa etapa, que o esquema usava fundos distintos para compra de ativos podres, como certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina).
42
mandados de busca e apreensão foram cumpidos
R$ 6 bilhões
foram bloqueados
Ocorreu apenas uma prisão: de Fabiano Zettel, dono do fundo Leal, cunhado de Vorcaro e pastor da Igreja Lagoinha de Belo Horizonte. Após o cumprimento do mandado, ele foi solto.
Já o empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur foram alvos de busca e apreensão e tiveram os celulares apreendidos.
Após a primeira fase da Compliance Zero, Vorcaro deixou a prisão e passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica.
Tanto ele como Zettel, no entanto, voltaram a ser detidos em 4 de março de 2026, quando foi deflagrada a terceira fase da operação, autorizada pelo novo relator do caso Master no Supremo, André Mendonça. Foram presos ainda Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — conhecido como “Sicário” — e Marilson Roseno da Silva.

Ministro André Mendonça em sessão plenária do STF
Mendonça afirmou que as prisões foram necessárias por causa de indícios de práticas ilícitas contínuas.
Segundo as apurações, os presos eram integrantes de um grupo chamado “A Turma”, espécie de milícia privada que atuava na vigilância e no monitoramento de pessoas para obtenção de informações sobre adversários de Vorcaro. O banqueiro também ordenava agressões físicas, tendo pedido, por exemplo, que “Sicário” “desse um pau” no jornalista Lauro Jardim, que fez diversas revelações sobre as fraudes do Master.
“Quero mandar quebrar todos os dentes. Num assalto”
Daniel Vorcaro
em mensagem sobre Lauro Jardim que consta na decisão de Mendonça que autorizou a terceira fase da Compliance Zero
Phillipi Mourão não respondeu ao processo, pois se suicidou na carceragem da Polícia Federal, em Minas Gerais, horas depois de ser preso.
Também na terceira fase, veio à tona o envolvimento dos funcionários do Banco Central Sérgio Neves de Sousa, então diretor de fiscalização, e Belline Santana, que chefiava o departamento de supervisão bancária. Ambos foram afastados das funções.
A quarta fase da Compliance Zero avançou sobre a corrupção no alto escalão do sistema financeiro.
O principal alvo foi o ex-presidente afastado do BRB, Paulo Henrique Costa, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Fachada da sede do Banco Central do Brasil, em Brasília
A Polícia Federal se debruçou sobre os aportes de bilhões do BRB ao Master entre 2024 e 2025 e concluiu que R$ 12,2 bilhões tinham suspeitas de irregularidades na garantia e na origem dos ativos.
A quinta fase da Compliance Zero, autorizada por André Mendonça, chegou ao núcleo político de Brasília, cumprindo mandado de busca e apreensão na casa do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL).
As investigações apontam que Ciro recebia de Vorcaro — que se referia a ele como “amigo de vida” — um pagamento mensal de R$ 300 mil, viagens internacionais e demais benesses em troca da representação de interesses do banqueiro no Congresso.

Ciro Nogueira durante sessão do Senado que rejeitou a indicação de Jorge Messias para o STF
O principal exemplo dessa atuação teria sido a apresentação da “Emenda Master”, que aumentava o limite de ressarcimento do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. O projeto não foi adiante.
Após a operação, Ciro negou envolvimento no caso Master e afirmou que nunca recebeu nenhum valor ilícito ou cometeu qualquer irregularidade, “nesse caso ou em qualquer outro”.
Fora as revelações sobre o senador, a quinta fase da Compliance Zero deteve Felipe Cançado Vorcaro, primo do dono do Master, apontado como operador financeiro dos repasses investigados pela Polícia Federal.
Em sua sexta fase, em 14 de maio de 2026, a Compliance Zero prendeu Henrique Vorcaro, pai do dono do Master.
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Ele é suspeito de coordenar as ações de intimidação realizadas pelos integrantes do “A Turma” e de outro grupo, “Os Meninos”, formado por hackers que promoviam ataques cibernéticos, derrubavam perfis nas redes sociais e faziam monitoramento telefônico e telemático ilegais.
A operação descobriu ainda um agente federal que seria “infiltrado” de Vorcaro na PF, o policial Anderson Wander da Silva Lima, que foi alvo de mandado de prisão sob a suspeita de acessar sistemas internos da corporação e repassar informações sigilosas. Ele também guardava em casa uma arma com numeração raspada.
Na sétima fase, em 19 de maio, a Compliance Zero identificou um perito criminal da Polícia Federal suspeito de vazar informações sigilosas relacionadas à investigação.
As apurações buscam esclarecer se a divulgação irregular dos dados pelo servidor comprometeu a coleta de provas e a identificação de outras pessoas envolvidas no caso Master.
O Supremo Tribunal Federal suspendeu as funções do perito em consequência da investigação.
Na oitava fase, em 26 de maio, a Compliance Zero mirou um novo político: Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro.
A operação investiga o aporte de R$ 3 bilhões do Rioprevidência (Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro) a fundos ligados ao Master.

Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro
Na decisão que autorizou a operação, André Mendonça lembrou que as aplicações ocorreram “em contexto de crescente dificuldade do banco, diante de aparente crise de liquidez”.
A tese investigativa da PF sustenta que a motivação central dos aportes “não residiria em critérios técnicos regulares de investimento, mas em relação pessoal e indevida entre o controlador do Banco Master e autoridades com poder de mando sobre o RPPS [Regime Próprio de Previdência Social, um regime público específico para servidores públicos concursados]”.
Após a operação, Castro negou qualquer “relação pessoal indevida” com Vorcaro.
A ligação de Castro com o Master foi a pá de cal na sua campanha para concorrer ao Senado pelo Rio de Janeiro, marcando a segunda vez em menos de 15 dias que a Polícia Federal bateu à porta do ex-governador. Em 15 de maio, outra ação havia mirado suspeitas envolvendo o político e a refinaria Refit.
A nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quinta-feira (18), chegou ao PT. A
As investigações da Polícia Federal indicam que Jaques Wagner (PT-BA) — líder do governo no Senado, aliado próximo do presidente Lula, ex-governador da Bahia e um dos fundadores do PT no estado — teria recebido vantagens indevidas, como um apartamento em Salvador, além de repasses em dinheiro, em troca de atuação no Congresso Nacional a favor da instituição financeira.

Jaques Wagner (PT-BA) em pronunciamento à bancada do Senado
Em entrevista na quinta-feira (18) ao canal de TV Band News, Wagner negou irregularidades, se explicou sobre as supostas vantagens e disse que segue na liderança do governo até que Lula diga o contrário.
Internamente, o Palácio do Planalto tem a expectativa de que o senador saia da função voluntariamente. Segundo informações de bastidores publicadas pela colunista Daniela Lima, do UOL, Wagner já decidiu deixar o posto, mas não tomou a atitude logo após a Compliance Zero para evitar a impressão de admissão de culpa.