
A poeta Orides Fontela
A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) anunciou na terça-feira (10) que a poeta Orides Fontela será a homenageada de sua 24ª edição. O evento ocorre entre os dias 22 e 26 de julho, após um público recorde de mais de 34 mil pessoas em 2025.
“Dona de uma poesia concisa e despojada de ornamentos, e afeita aos poemas curtos, Orides Fontela recebeu atenção extraordinária da crítica literária, que via nela uma renovadora do modernismo, e mesmo de poetas consagrados, como [Carlos] Drummond [de Andrade]. É uma referência incontornável no cenário da poesia contemporânea brasileira”
Rita Palmeira
curadora literária da 24ª edição da Flip, em declaração para o site oficial da festa literária
Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Fontela foi uma das principais representantes da poesia contemporânea brasileira. Em seus textos, renovou o modernismo com uma escrita crítica e filosófica sobre o ser. Apesar do reconhecimento, a “aristocrata selvagem”, como era conhecida, não enriqueceu com a literatura.
Neste texto, o Nexo apresenta a vida e a obra de Orides Fontela e mostra como a Flip se reorganizou após a pandemia de covid-19.
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu na cidade de São João da Boa Vista, a cerca de 215 km de São Paulo, em 21 de abril de 1940. Alfabetizada pela mãe Laurinda, herdou o interesse literário do pai, o marceneiro Álvaro, que lia contos de fada para ela.
Após concluir os estudos com méritos, tornou-se professora de uma escola primária de São João da Boa Vista. Nesse período, escrevia poesias e as publicava no jornal local Município.
Sua habilidade literária foi descoberta pelo crítico Davi Arrigucci Jr., seu colega de infância e futuro professor da USP (Universidade de São Paulo). Ele leu o poema “Elegia” no jornal local e a incentivou a se mudar para São Paulo e prestar vestibular para o curso de filosofia.
“Mas para que serve o pássaro? / Nós o contemplamos inerte. / Nós o tocamos no mágico fulgor das penas. / De que serve o pássaro se / desnaturado o possuímos?”
Orides Fontela
poeta, em trecho do poema “Elegia”
Arrigucci Jr. apresentou os poemas da amiga para professores da USP, como o sociólogo Antônio Cândido e a filósofa Marilena Chauí, que fizeram avaliações positivas. Em 1969, o jornal O Estado de S. Paulo publicou dois de seus textos: “Elegia” e “Repouso”. No mesmo ano, ela publicou “Transposição”, sua primeira coletânea.
Apesar das amizades famosas e da valorização pelos críticos, Fontela foi uma escritora marginalizada. Em entrevista à revista Marie Claire em 1996, ela afirmou que era uma “proleta”: mistura de poeta e proletária. “Posso conseguir fama com a poesia. Só não consigo mudar de classe”, afirmou à época.
Professora de letras da UFC (Universidade Federal do Ceará), Fernanda Suely Muller afirmou que as escolhas pessoais fora do comum afetaram a mobilidade social da autora. “Isso foi agravado pelo fato de ter sido mulher e não ter se desdobrado ao caminho do matrimônio e da maternidade”, disse ao Nexo.
Sua personalidade arredia e caótica, aliada ao alcoolismo, aumentou sua reclusão. “Era uma pessoa que se via preterida por uma questão social, não conseguia se relacionar à vontade mesmo com essas pessoas que admiravam a poesia dela”, afirmou ao Nexo Ivan Marques, professor de literatura brasileira da USP.
Ao todo, Fontela escreveu cinco livros. Ela venceu a categoria Poesia do Prêmio Jabuti de 1983 por “Alba”. Com “Teia” (1996), venceu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em 2007, recebeu a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura, na categoria Grã-Cruz – o maior grau da honraria.
No fim da vida, a poeta foi internada em um sanatório de Campos do Jordão, também em São Paulo. Morreu aos 58 anos, em 1998, em decorrência de uma tuberculose.
Com um estilo literário inspirado em Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, Fontela ficou conhecida pela escrita concisa. “É uma poesia muito breve, que se pode ler várias vezes, e aquilo vai ressoando de formas variadas. Ela demonstrou uma grande densidade em poucas palavras”, afirmou Marques.
Uma de suas expertises era criar textos com refino, mesmo com os problemas pessoais — motivo pelo qual ganhou o apelido de “aristocrata selvagem”. “Ela transfigurou tudo isso na poesia dela. Ao mesmo tempo que tende para essa ideia de refinamento e depuração, trafega no meio de símbolos com muita força e beleza”, disse o professor da USP.
Um dos poucos poemas que retratam a vida pessoal da autora é “Herança”. Nele, ela descreve os poucos bens materiais que sua família deixou, refletindo sua condição econômica. Enquanto o pai tinha materiais de marcenaria, como martelo e alicate, a mãe tinha objetos de cozinha, como pilão e caldeirão.
Para Muller, Fontela foi uma pioneira dos anos 1960. “Apesar da origem humilde, sua inteligência sagaz e sensibilidade incomum para tão tenra idade coadunaram para a aproximação da jovem poeta a temáticas filosóficas profundas”, afirmou.
Segundo Marques, esse era seu tema favorito. “Parece que ela tem essa obsessão pelo ser e pela destruição. Também tinha a questão da lucidez e o desejo do conhecimento, por mais que ele seja destrutivo”, disse.
“Sempre é melhor / saber / que não saber”
Orides Fontela
poeta, em trecho do poema “Axiomas”
As práticas de meditação no zen-budismo – tradição religiosa que Fontela adotou a partir de 1972 – a ajudaram em seus poemas, que também trataram de elementos da fauna e flora e até mesmo a revolta e violência. “Toda palavra é crueldade”, escreveu a poeta em “Fala”.
“A poesia de Orides difere muito do movimento concretista da época e, talvez, sua poesia não tenha sido devidamente apreciada por seus contemporâneos”, disse Muller.
Os livros de Fontela tiveram baixa tiragem ao longo dos anos, e é difícil encontrá-los em livrarias e sebos. Responsável pelos direitos de publicação da autora, a editora Hedra planeja relançar suas obras entre março e abril. Uma coleção completa está prevista para 2027.
Este é o segundo ano consecutivo que a Flip homenageia um poeta. Na edição de 2025, a organização escolheu o curitibano Paulo Leminski para estrelar o evento.
Marques disse ter ficado surpreso e comovido com a escolha da autora. “Revelar essa figura para um público amplo, garantir a difusão de sua obra, que merece ser mais conhecida, é maravilhoso”, afirmou o professor da USP.
A edição de 2025 da Flip teve aumento de 10% do público em relação ao ano anterior. Parceira oficial da festa literária, a Livraria da Travessa vendeu 20 mil livros naquele ano.
Após a pandemia de covid-19, que teve edições online da Flip em 2020 e em 2021, a festa ocorreu fora de sua época tradicional – no fim de julho – até 2025, quando retornou aos moldes originais.
O evento ocorre desde 2003, com a reunião de dezenas de autores e entusiastas do mercado editorial.