A importância dos votos independentes para definir a eleição

Eleitores independentes podem definir eleição

Eleitores independentes podem definir eleição

Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (11) mostra a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principal candidato de oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições. 

O petista lidera hoje em todos os cenários pesquisados. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, contudo, reduziu em 10 pontos percentuais a distância para Lula desde dezembro de 2025 num eventual segundo turno das eleições. Com o cenário polarizado, os eleitores independentes se tornaram ainda mais importantes.

Neste texto, o Nexo mostra o cenário apresentado pela pesquisa e fala sobre o eleitorado independente.

O que diz a pesquisa

Lula lidera em todos os cenários de primeiro turno testados pela pesquisa, com intenções de voto entre 35% e 39%. Flávio está em segundo lugar, com percentuais que variam de 29% a 33%.

O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), foi o melhor terceiro colocado. Ele foi testado em dois cenários, aparecendo com 7% e 8%. Os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), não superaram os 4% em diferentes cenários.

Lula também lidera em todos os cenários de segundo turno.

A diferença entre ele e Flávio é de cinco pontos percentuais, com o petista com 43% e o bolsonarista, 38%. Essa é a menor margem de Lula contra algum adversário testado na pesquisa. O atual presidente também aparece:

Lula tem 44% contra 25% do ex-ministro Aldo Rebelo (Democracia Cristã), os mesmos índices da disputa contra o ativista Renan Santos (Missão), líder do MBL (Movimento Brasil Livre): o petista tem 44% e Santos, 25%.

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A pesquisa aponta um alto índice de desconhecimento entre os candidatos que pleiteiam o posto de terceira via. Ratinho Jr. aparece com 37% de índice de desconhecimento; Caiado, com 51%; Leite, com 55%; e Zema, com 53% — níveis muito superiores aos de Lula (4%) e Flávio Bolsonaro (9%).

Os índices de rejeição desses candidatos também são menores, com 40% dos entrevistados dizendo que não votariam em Ratinho Jr., 35% em Caiado e em Leite e 34% em Zema. Já Lula tem rejeição de 54% e Flávio, de 55%.

O primeiro turno das eleições de 2026 está previsto para 4 de outubro e um eventual segundo turno, para 25 de outubro.

A pesquisa foi feita entre os dias 5 e 9 de fevereiro com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR-00249/2026.

Uma eleição polarizada

Marco Antonio Teixeira, professor de ciência política da FGV Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), afirmou ao Nexo que a pesquisa consolida a polarização entre Lula e Bolsonaro, tanto em intenção de voto quanto em rejeição.

Ele acrescentou que os presidenciáveis do PSD demonstram pouca capacidade de decolagem. “Todos são candidatos regionais, limitados em termos de presença nacional, que, num contexto como esse, dificilmente terão possibilidade de avançar.”

Adriano Codato, professor de ciência política da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e pesquisador do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), tem a mesma avaliação. “O que a pesquisa mostrou é que candidatos alternativos não têm margem para crescer”, disse ao Nexo.

Ele explicou que os eleitores que se identificam como lulistas e esquerda não lulista ou bolsonaristas e direita não bolsonarista “parecem estar muito consolidados, e sobra muito pouco voto no segundo turno”.

Codato disse ainda que Flávio “tem margem [para crescer], mas é muito pequena”. Ele estimou, com base no retrato de hoje, que 14% dos votos estão em disputa num segundo turno entre o petista e o bolsonarista.

O voto independente

CEO da Quaest e coautor de “Biografia do abismo”, escrito junto com o jornalista Thomas Traumann, Felipe Nunes defende a tese de que os votos entre lulistas e esquerda não lulista e direita bolsonarista e não bolsonarista estão calcificados entre os dois polos. Por isso, a disputa numa eleição presidencial se concentra nos eleitores flutuantes – ou seja, os independentes, que não se consideram nem de esquerda, nem de direita, nem lulistas, nem bolsonaristas.

Na simulação de segundo turno, Lula tem 31% das intenções de voto entre os independentes e Flávio, 26%.

Em janeiro, o atual presidente tinha 37% contra 21% do senador. Ou seja, a margem entre Lula e Flávio nesse segmento diminuiu de 16 pontos percentuais para cinco.

Além disso, nesse segmento do eleitorado, Lula perde para Ratinho Jr., Caiado, Leite e Zema nos cenários de segundo turno.

32%

dos entrevistados se declaram independentes, segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (11)

Codato afirmou, com base na pesquisa, que os independentes não são necessariamente indecisos, mas uma parcela do eleitorado que decidiu não escolher um candidato, ao menos por enquanto. “Não é falta de informação, é recusa ativa”, disse.

“Esses independentes têm um perfil pessimista em relação ao futuro e uma baixa capacidade de adesão precoce”, afirmou, acrescentando que parte desse segmento rejeita o governo, mas não aderiu às candidaturas postas.

Teixeira avaliou que esse grupo rejeita a polarização ideológica e afetiva. “Eles estão esperando uma alternativa [que agrade a eles]. Se não vier, vão se posicionar também. Não é um grupo que defende o voto nulo. Eles estão de alguma forma descontentes com o que está sendo posto e em compasso de espera”, afirmou.

A polarização ideológica reflete a crescente distância entre grupos em termos de suas crenças e opiniões sobre questões morais, sociais, econômicas e políticas. Já a polarização afetiva está relacionada à hostilidade ou aversão de um grupo ao outro, independentemente de divergências ideológicas concretas.

A maior preocupação dos independentes, segundo a pesquisa, é com violência (26%), questões sociais (19%) e corrupção (16%). Esse eleitorado se informa, sobretudo, por TV (36%) e redes sociais (36%).

A pesquisa não apresenta o perfil etário, geográfico, de gênero ou social desses eleitores.

A margem de erro da pesquisa em relação a esse segmento é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos — ou seja, maior do que a do levantamento geral, que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos —, o que exige cautela.

Num evento do Itaú BBA em setembro de 2025 em São Paulo, Felipe Nunes identificou três segmentos entre os votos calcificados de esquerda: militantes, progressistas e dependentes do Estado. Na direita, são: extrema direita, membros do agronegócio, conservadores cristãos e empresários.

“No meio, estão os verdadeiros ‘swing voters’ brasileiros, liberais sociais e empreendedores individuais”, afirmou. Ele acrescentou que são esses eleitores que vão decidir a eleição presidencial deste ano.