
Outdoor da Polymarket na Bolsa de Nova York
O governo federal bloqueou 27 plataformas de mercados preditivos no Brasil – entre elas, Polymarket e Kalshi. A medida entrou em vigor na segunda-feira (4).
O bloqueio foi feito em duas frentes. A primeira é a Resolução nº 5.298 da CMN (Conselho Monetário Nacional), que busca fechar uma brecha regulatória e definir regras mais claras para esse tipo de mercado. A segunda é a Nota Técnica nº 2.958 da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, que alerta para riscos de manipulação, uso de informação privilegiada, lavagem de dinheiro e até financiamento do terrorismo.
Neste texto, o Nexo explica o que é mercado preditivo e mostra os riscos e debates éticos envolvidos nessas plataformas.
Os mercados preditivos (ou mercados de previsões) são plataformas onde a pessoa pode apostar no resultado de eventos futuros – como eleições, temas políticos, programas de TV, resultados econômicos ou esportivos etc – num modelo binário de “sim” ou “não”. As plataformas mais conhecidas são o Polymarket e a Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara.
Em essência, tanto o mercado de previsões quanto as “bets”, as apostas online, são formas de apostar. Há, todavia, diferenças estruturais entre elas.
No caso das bets – que já foram reguladas no país –, as casas de apostas definem as odds (chances, em inglês), que são as probabilidades de ocorrerem determinados resultados e o valor que cada apostador pode ganhar ao acertá-los. Quanto mais improvável for o resultado, maior o valor pago por ele. Nesse caso, a pessoa aposta contra a casa de aposta, que lucra com a perda do cliente.
Já no mercado de previsões, as plataformas cobram uma taxa pela corretagem, assim como o mercado futuro, e não lucram com o prejuízo do cliente. Além disso, há, de um lado, compradores e de outro, vendedores, e é isso que estabelece o preço futuro.
O mercado futuro funciona num ambiente de bolsa em que contratos de compra e venda de ativos são negociados no presente com base num valor futuro. Isso ocorre normalmente com câmbio, ações e commodities. Esses contratos oferecem ganhos e proteção contra riscos.

Reprodução de uma aposta no site da Kalshi
Por exemplo, uma empresa precisa comprar dólares numa determinada data no futuro para realizar pagamentos. A companhia negocia o valor hoje para evitar perdas bruscas ou para obter ganhos com a potencial oscilação da moeda americana num futuro. O mesmo serve para uma empresa que quer comprar soja em algum período futuro.
Ou seja, a lógica do mercado futuro é se proteger dos riscos futuros. No entanto, há pessoas que negociam nesse mercado apostando contra ou a favor de determinados produtos – esses são chamados de especuladores.
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor de administração da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), esse mercado de previsões se tornou grande e tem o poder de influenciar a opinião pública, assim como uma pesquisa de opinião. “É um formador de opinião sólido”, afirmou ao Nexo em dezembro de 2025.
Os riscos mais evidentes associados às apostas – seja de bets ou de plataformas de mercado de previsão – são o vício em apostar e os problemas financeiros, com pessoas perdendo muito dinheiro e ficando endividadas, comprometendo assim as finanças pessoais e da família.
O artigo “Mercado preditivo como ameaça à saúde pública”, publicado por Nizan Geslevich Packin e Sharon Rabinovitz na revista científica americana Science em abril, aponta que a abordagem científica desse mercado, o design das plataformas semelhante ao de jogos de azar online e as lacunas regulatórias criam riscos de um novo vício comportamental e manipulação democrática.
Packin e Rabinovitz avaliam que validação social, influenciadores financeiros e campanhas algorítmicas normalizam o engajamento contínuo e geram medo de ficar de fora, comportamento de manada e pressão competitiva.
“Muitas características dos mercados de previsão são compartilhadas com plataformas de negociação, jogos, apostas, mídias sociais e diversos aplicativos. No entanto, os mercados de previsão se encontram em uma interseção singular: eles intensificam técnicas pioneiras dessas indústrias, aplicam-nas a conteúdo social e politicamente relevante e as envolvem na autoridade epistêmica da ‘previsão’”, destacam.
“Essa convergência de características, e não um elemento isolado, distingue os riscos relacionados aos mercados de previsão e justifica uma atenção dedicada da saúde pública”.
Diversos casos recentes revelam que o mercado preditivo também tem se mostrado um campo propício para que pessoas com informações privilegiadas ganhem bastante dinheiro.
O exemplo mais evidente disso foi o do soldado das Forças Especiais do Exército dos EUA Gannon Ken Van Dyke, de 38 anos, preso em 23 de abril. Van Dyke ajudou a planejar a intervenção americana na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Ele apostou cerca de US$ 33 mil em possíveis desdobramentos da operação no Polymarket, ganhando mais de US$ 400 mil, segundo o Departamento de Justiça.
As autoridades americanas acusaram Van Dyke de uso indevido de informações confidenciais sobre a operação para ganho pessoal, entre outros crimes.
O jornal americano The New York Times analisou dados do Polymarket do período que antecedeu o ataque de EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro. A análise identificou mais de 150 contas fazendo apostas de US$ 1.000 no dia anterior, prevendo corretamente o ataque. Essas apostas renderam cerca de US$ 855 mil aos apostadores.
A análise do Times constatou que era relativamente incomum alguém apostar um valor significativo na possibilidade de um ataque americano no dia seguinte.
Outra análise da agência de notícias AP (Associated Press) identificou que pelo menos 50 contas recém-criadas no Polymarket apostaram milhares de dólares no cessar-fogo entre os EUA e o Irã em 7 de abril, horas antes de Donald Trump anunciar a trégua.
Autoridades de Israel anunciaram em 12 de fevereiro o indiciamento de dois israelenses – um reservista e um civil – por usar informações confidenciais para fazer apostas sobre operações militares do país no Polymarket.
Esse caso veio à tona semanas depois da Kan, agência de notícias israelense, noticiar que as forças de segurança do país estavam investigando atividades suspeitas dentro do Ministério da Defesa. Indivíduos teriam usado informações confidenciais para fazer apostas no Polymarket, inclusive sobre o ataque de Israel ao Irã na guerra de 12 dias em junho de 2025.
A Kalshi anunciou em 22 de abril a suspensão de três candidatos ao Congresso americano para 2026 da sua plataforma por uso de informação privilegiada política, após uma investigação interna da plataforma constatar que eles apostaram em suas próprias eleições. As midterms (pleitos de meio de mandato) estão previstas para 3 de novembro.
Os problemas não ocorreram apenas com apostas sobre política e guerra. Diversas pessoas lucraram milhares de dólares no Polymarket ao apostarem com precisão nos picos repentinos e anômalos de temperatura no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, em 15 de abril, segundo o jornal americano The Wall Street Journal. A Météo-France, serviço meteorológico francês, está investigando o incidente, que pode estar relacionado a adulteração de dados.
Uma reportagem da revista britânica The Economist reúne argumentos de que a existência de apostas com informações privilegiadas não quer dizer que os mercados preditivos devam ser proibidos.
Um dos argumentos é que plataformas como Polymarket e Kalshi são regulamentadas nos EUA pela CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities), agência que regula o mercado futuro de commodities, e, portanto, já lidam com regras próprias sobre uso de informações privilegiadas – que são menos rigorosas do que para o mercado de valores mobiliários, como ações ou títulos.
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O outro argumento, associado ao primeiro, é que os mercados de ações servem para que empresas consigam capital junto ao público. Se investidores puderem negociar com base em informações privilegiadas, os investidores que não possuem esse conhecimento vão escolher ficar de fora do mercado, privando as empresas de capital e afetando a economia real. Segundo essa linha de raciocínio, como os mercados preditivos não têm essa função de trazer dinheiro para as companhias, o dano causado por operações com informações privilegiadas seria menor.
O Polymarket e a Kalshi se apresentam como ferramentas que mudam a vida de pessoas comuns, dando a entender que todos têm uma chance justa de ganhar. Porém, reportagem do Wall Street Journal mostrou que um pequeno número de contas nas duas plataformas, geralmente profissionais que usam negociação baseada em dados, fica com a maior parte dos ganhos.
Segundo o texto da Economist, os mercados de previsão podem ser benéficos para a descoberta de preços. Seria uma forma de investidores tomarem decisões com mais informações.
Por exemplo, os cinemas poderiam identificar nas plataformas de mercados preditivos quais filmes têm maior probabilidade de ganhar o Oscar e, assim, aumentar as receitas com o aumento na frequência de público. Ou importadores que monitorassem essas plataformas poderiam ter perdido menos dinheiro com as sanções de Trump ao perceberem as chances de os tribunais anularem o tarifaço.
Num artigo publicado no site Jota, Ana Sofia Signorelli e Thiago Signorelli afirmam que os mercados preditivos devem ser regulados como a bolsa, não como bets. Eles argumentam que, nesse contexto, a probabilidade – inerente ao mercado de previsões – deixa de ser narrativa e passa a ser preço.
“E o preço passa a carregar informação. Por isso, mercados de previsão são frequentemente descritos como mecanismos de agregação de expectativas – com utilidade potencial em gestão de risco, alocação de capital, monitoramento de indicadores e até tomada de decisão, dizem.
O mercado de previsões torna qualquer evento real futuro numa aposta – ou seja, uma forma de ganhar ou perder dinheiro -, o que promove uma espécie de cassinização da vida, como mostra este vídeo da agência de notícias Bloomberg.
Packin e Rabinovitz também argumentam no artigo publicado na Science que mesmo pequenas negociações podem alterar substancialmente os preços e criar a aparência de consenso sobre determinado resultado, transformando, por exemplo, as apostas eleitorais em instrumentos de influência em vez de julgamento coletivo.
Ou seja, isso poderia moldar “as percepções dos eleitores, as expectativas, as doações de campanha e a cobertura da mídia em ciclos de reforço mútuo”.
Eles apontam ainda que o fato de veículos de mídia exibirem probabilidades de previsão em tempo real — o que é comum nos EUA — juntamente com indicadores econômicos tradicionais (como PIB e inflação) dá às plataformas de predição uma aparência de objetividade, sem a devida ponderação.
Além do uso de informações privilegiadas e da manipulação eleitoral, Packin e Rabinovitz destacam a possibilidade de lavagem de dinheiro e incentivo a comportamentos ilegais, entre outros riscos. “Quando incêndios criminosos, manipulação de mercado ou provocações geopolíticas se tornam lucrativos, o mercado preditivo deixa de funcionar como ferramentas de descoberta de preços e se transforma em instrumento de manipulação, distorcendo a realidade em vez de refleti-la”, afirmam.
Outro texto da Economist pontuou que, em duas circunstâncias, os reguladores devem se preocupar com a negociação com informações privilegiadas: uma delas são os casos em que a divulgação de uma informação é prejudicial para uma ou mais partes, como ações militares iminentes ou negociações que envolvem empresas de capital aberto, como a aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount ou Netflix.
O outro caso é quando os investidores podem influenciar os resultados em que apostam. Um exemplo foi um mercado sobre a explosão do foguete lunar tripulado Artemis 2, que o Polymarket retirou da plataforma porque criava uma recompensa financeira para sabotagem.
O Brasil proibiu plataformas de mercado preditivo de negociar contratos relacionados a resultados esportivos, eleições e temas políticos, entretenimento e eventos sociais ou culturais. Apenas contratos ligados a variáveis econômicas e financeiras, como taxa de juros, inflação, câmbio, preço de petróleo ou outras commodities estão permitidos. Esses são casos que já estão sob supervisão da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que regula o mercado financeiro.
A medida, aprovada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), busca fechar uma brecha regulatória e definir regras mais claras para esse tipo de atividade.
“A medida tem como objetivo evitar a consolidação de um novo mercado de apostas, o chamado mercado de predição, para evitar que ele se consolide sem controle”, disse Miriam Belchior, ministra da Casa Civil, a jornalistas. Ela acrescentou que a medida visa proteger a renda, evitar perdas financeiras e reduzir a exposição das famílias a práticas inseguras.
A decisão ocorre em meio à preocupação do governo federal com o aumento do endividamento das famílias brasileiras, sobretudo num ano eleitoral.
O mercado de previsão também é proibido em diversos países, como Portugal, França, Itália, Hungria, Polônia, Argentina e China, inclusive em Taiwan. Operam sob restrições na Alemanha. Os EUA permitem que plataformas de predições operem com o registro na CFTC, agência americana que regula o mercado futuro de commodities. Porém, são proibidos em diversos estados americanos.
Em 24 de abril, horas antes do soldado americano ser indiciado por usar informações privilegiadas para apostar em mercado preditivo, Donald Trump afirmou que “nunca foi muito a favor” do mercado de previsões. “O mundo inteiro, infelizmente, se tornou uma espécie de cassino”, disse.
A declaração do presidente americano revelou uma contradição familiar. Em 2025, a sua empresa, a Trump Media & Technology Group, anunciou a Truth Predict, que permitirá aos usuários da rede social Truth Social negociar contratos de previsão. A plataforma ainda não está em operação. Além disso, Donald Trump Jr., filho do presidente, atua como consultor na Kalshi e no Polymarket.