
Material de divulgação do álbum “Só no foveris” (1999), do Raimundos
O documentário “Andar na pedra – A história do Raimundos” estreou no Globoplay em 19 de março. Formada em Brasília em 1987, a banda obteve bastante sucesso no rock nacional da década de 1990, com letras pesadas e críticas às autoridades e à sociedade da época. Um de seus principais hits é “Mulher de fases” (1999), com mais de 211 milhões de reproduções no Spotify.
Segundo Daniel Ferro, diretor do documentário, a autenticidade era a principal característica do Raimundos, mesclando elementos do forró com o punk e o hardcore. “Uma mistura completamente inusitada, muito brasileira e com letras incríveis da parte do Rodolfo [Abrantes], que misturavam experiências pessoais com essa brasilidade muito impressionante e um ritmo incrível”, afirmou ao Nexo.
Para além do estrelato, a produção retrata os conflitos internos da banda, como a saída conturbada e surpreendente de Rodolfo Abrantes em 2001 – que passou a se dedicar ao mundo evangélico – e a reaproximação do vocalista com os outros integrantes após quase duas décadas. “Andar na pedra” também mostra como reverberou a morte do baixista Canisso, em 2023.
Ferro disse que ter a confiança dos membros da formação original foi essencial para a produção: “Eles entenderam que eu não puxava para o lado sensacionalista. Sempre falei que nenhum deles teria a palavra final sobre o conteúdo”.
Nesta entrevista, o Nexo falou com Daniel Ferro sobre a produção do documentário, o lugar dos Raimundos no rock nacional e o momento do mercado audiovisual brasileiro.
Quando surgiu o projeto de contar a história do Raimundos? E quais os principais desafios para botar esse projeto de pé?
Daniel Ferro De alguma maneira, o projeto nasceu em junho de 2001, quando o Rodolfo saiu da banda e as explicações não foram muito convincentes, a meu ver. As explicações não se encaixavam, eu achava tudo muito frágil.
Comecei a me aproximar daquele universo quando gravei com o Raimundos, em 2007, para um programa chamado Rock Estrada, no Multishow. Em 2011, também tive a chance de gravar com o Rodolfo, ele já evangélico e completamente fora desse circuito mainstream. Então eu sempre tinha os dois lados por perto.
Até 2020, o Rodolfo e o Digão [guitarrista da banda] não se falavam e era um tabu tremendo, eles nem podiam tocar no nome do outro. Na noite em que eles fizeram uma live e anunciaram que tinham se perdoado, eu tive uma insônia tremenda. Escrevi todo o roteiro e, no dia seguinte, liguei para os dois e falei que era a hora de contar essa história.
Acho que o grande desafio de botar de pé esse projeto foi, na verdade, conciliar os quatro [integrantes]. Porque embora Rodolfo e Digão tenham voltado a se falar, Canisso [baixista] e Fred [baterista] ainda não estavam numa situação muito boa.
Foi um processo trazer todo mundo para a mesma página, porque eu tinha certeza que para contar essa história do jeito que eu queria contar, eu precisava dos quatro. Então foi um processo longo de convencimento, de confiança e de muita conversa. Por isso que o projeto foi extenso, ao longo de tantos anos.
Por que “Andar na pedra” foi a música escolhida para batizar a série?
Daniel Ferro Quando eu comecei a fazer o roteiro, já batizei de “Andar na pedra – A história do Raimundos”, porque é a música que abre o [álbum] “Lapadas do povo” [de 1997]. Ao pé da letra, fala sobre um cara que vai surfar e ele pega um caminho para chegar no mar.
Embora tenha sido escrita com um contexto completamente diferente, olhando em retrospecto, eu achei quase que uma letra premonitória e super metafórica sobre a própria trajetória do Raimundos. Especialmente um trecho que fala “Caminha pela trilha que leva por outra trilha / E lá você vai ver a queda d’água e que senhora queda / Lhe peça para limpar o mal que a tanto tempo assola a Terra / Pra saber só quem erra que sangra o pé na subida da Serra”.
Mostra que os trajetos vão forçando você a levar outros caminhos, e esses caminhos nem sempre vão ser fáceis. Mas você tem que ter fé que o caminho está te levando para algum lugar.
Um dos pontos destacados pela crítica e pelo público é a abertura que os ex-integrantes da banda tiveram para falar sobre os momentos difíceis que passaram. Como foi o processo de convencê-los? E de deixá-los à vontade na frente das câmeras?
Daniel Ferro Eu diria que foram décadas para chegar até aqui, além obviamente da minha relação como fã. E eles já me conheciam como fã naquela época, apesar deles não se lembrarem de mim. Porque eu estava na gravação do “Só no forevis” (1999), por obra do destino. Eles gravaram na Barra da Tijuca e eu sou de lá. Eu conheci os caras surfando e eles me levaram para o estúdio.
Minha carreira de audiovisual começou engrenando e eu sempre fui gravando com eles. Eu fui o diretor de vídeo de dois DVDs com a formação recente do Raimundos, o “Cantigas de garagem” [2014] e “Acústico” [2017]. Então eu sempre estive muito próximo e acabei navegando nesse meio de registro audiovisual do rock. Com o Rodolfo, idem.
E nesse registro documental, eu sempre fui muito honesto e transparente com todo mundo. Eles entenderam que eu não puxava para o lado sensacionalista. Sempre falei que nenhum deles teria a palavra final sobre o conteúdo. Eu deixei isso muito claro para a gente poder seguir, com a certeza de que o outro lado ficava mais tranquilo de saber que não ia contar a versão de um ou suprimir a de outro.
Eu acho que a questão da isonomia entre as partes aconteceu de uma maneira um pouco menos turbulenta. Quando eu marcava alguma coisa com um, fazia questão de marcar com os outros três. Todos os termos de negociação foram iguais para os quatro. Mesmo no diário de gravação, eu fazia tudo muito igual.
Foi um processo de confiança, e está sendo até agora, na verdade. Até no pós-documentário isso permanece. É uma relação complicada, mas chegamos até aqui e o resultado veio.
O sr. conseguiu resgatar muito material raro de arquivo e também coletou depoimentos inéditos. Alguma coisa te surpreendeu mais? O sr. teve que mudar o rumo do projeto original diante de alguma descoberta?
Daniel Ferro O material de arquivo foi um grande prazer desse processo todo. Boa parte veio do próprio acervo que a Adriana [Toscano, viúva de Canisso] e o Canisso filmaram ao longo de todos esses anos. Muito disso não estava digitalizado, estava no fundo do armário, e eu consegui resgatar e digitalizar. Talvez eles soubessem que isso ia virar um documentário um dia.
Também contei com um acervo muito rico da MTV, a única emissora que pegou o Raimundos antes de a banda acontecer, antes de assinar contratos. Fora as fotos do Patrick Grosner e do Marcelo Rossi, que eram fotógrafos “oficiais” da banda.
O grande tesouro é mexer com esse material junto com os depoimentos, porque ajuda a trazer um peso histórico. Acho que nenhum outro documento audiovisual de bandas tem uma riqueza desse tamanho. E nisso, eu preciso agradecer especialmente a Adriana e o Canisso, que foram captando ao longo dos anos por vontade própria. Como fã, foi um prazer incrível.
Eu comecei o projeto em 2021 e o Canisso estava participando. O roteiro já estava pronto quando ele faleceu, e foi preciso adaptar. Seriam quatro episódios e acabou se estendendo em cinco para caber essa fase final, que não tinha como ser ignorada. Inclusive, é uma parte fundamental para entender todo o trajeto do Raimundos.
Eu já tinha gravado com ele de maneira remota, 90% do material de áudio que eu usei do Canisso na série foi dessa reunião remota longa.
O streaming americano tem um vasto repertório de documentários e séries documentais de bandas. Qual é o potencial do mercado brasileiro? O que falta para termos mais produções como a sua?
Daniel Ferro O mercado de documentários está em alta não só no Brasil, mas no mundo. Eu acho que são as histórias mais impactantes, especialmente com a falta de criatividade que a gente vê no mercado de cinema de ficção.
E a gente está entrando em uma era de cansaço até prematuro por causa da inteligência artificial, em que tudo vai se padronizando. Os documentários trazem histórias e personagens reais. A produção do Raimundos está tendo essa repercussão tremenda porque ela transparece a sinceridade e o coração aberto de todo mundo.
O documentário é esse lugar em que a gente consegue abrir e tocar as feridas. Fica muito delicioso de ver, porque são histórias que reverberam muito além da biografia de uma banda. O telespectador vê e se relaciona com aquilo. Ainda mais uma história que está falando sobre uma trajetória de 40 anos, sobre perdão tardio, arrependimento e escolhas. Isso acaba sendo um espelho.
‘A história do Raimundos é de perdão tardio, arrependimento e escolhas’
A gente ainda tem algumas amarras jurídicas aqui no Brasil [para documentários terem mais espaço]. Tem uma questão burocrática de autorização de imagem, o Fair Use é um pouco mais aberto nos Estados Unidos. Fazer esse documentário do Raimundos foi um processo, especialmente a parte de pós-produção, porque não tem nada que esteja no documentário que não tenha sido autorizado.
Mas eu entendo que faz parte de uma segurança jurídica também. Seria muito bom um meio termo aqui no Brasil, pra gente poder incentivar mais documentaristas a fazerem esse tipo de conteúdo.
É curioso porque você vê várias biografias mais modernas nos canais de YouTube, que usam muito material e ficam muito ricos. Mas um documentário já é difícil de ter, porque entram essas amarras jurídicas.
O que permitiu que o Raimundos, uma banda pesada e experimental, se tornasse um sucesso fonográfico nacional?
Daniel Ferro Eu acho que o que permitiu o Raimundos ser esse fenômeno todo é um mérito 100% deles. A originalidade e a coragem deles para serem completamente eles.
Tem uma passagem muito boa no primeiro episódio da série que fala sobre isso. Um diretor de gravadora multinacional queria adaptar e lapidar o som deles, obrigá-los a fazer uma aula de dicção, diminuir o som da guitarra. Quantas bandas fizeram isso e perderam a sua identidade?
O Raimundos nunca fez isso. Eles fizeram uma fusão incrível misturando um típico estilo brasileiro, que é o forró, com o punk rock e o hardcore. Uma mistura completamente inusitada, muito brasileira e com letras incríveis da parte do Rodolfo, que misturavam experiências pessoais com essa brasilidade muito impressionante e um ritmo incrível.
Seria possível surgir um Raimundos hoje?
Daniel Ferro Sem dúvida nenhuma. Talvez não fizesse o sucesso tremendo que foi como foi nos anos 1990, porque a gente estava vivendo essa liberdade recém-descoberta após a volta da democracia e o fim da ditadura militar. O jovem estava experimentando novos limites.
A gente está em outro lugar hoje, mas existe espaço para artistas autênticos que desafiam o sistema, que não ficam se adequando a padrões. Isso que falta na música de um modo geral hoje em dia. O Raimundos marcou a história por causa disso.
Espera que o seu documentário atinja o público mais jovem, que não viveu a época da banda? Como?
Daniel Ferro Aí entra o poder da plataforma do Globoplay, que tem uma penetração muito grande. O documentário foi pensado também em sair do nicho e acho que ele está tendo êxito em furar a bolha. As pessoas estão assistindo não somente pela biografia da banda, mas já entendendo que é uma história muito poderosa.
Documentário é um gênero do cinema de uma faixa etária um pouquinho mais elevada. Mas eu acredito que esse jovem vai pensar em assistir. Ainda mais que o jovem está começando a resgatar essa música dos anos 90. O Deftones é um exemplo de banda com 30, 40 anos de carreira, e os jovens pegaram no TikTok e foi um dos sucessos do Lollapalooza de 2026.
Faz parte desse revival, da nostalgia dessa geração que não viveu isso. O jovem sempre vai buscar a autenticidade. Então, no momento que eles pegarem pra assistir, vão entender o quão foi espontâneo, um movimento incrível. Obviamente, retrata muito do que foi aquela geração dos anos 1990 e 2000, mas eu acho que tem um poder incrível.
Acho e espero que esse documentário tenha vida longa por isso. Tudo que é autêntico vai e merece perdurar por décadas. O Raimundos é um exemplo para lembrarmos o quão impressionante é a criatividade humana, talvez um dos maiores exemplos musicais que a gente teve nesse tema.