
A antropóloga, filósofa e feminista Lélia González
Pesquisas sobre raça aparecem no campo científico pelo menos desde o século 19 como forma de forjar e validar a inferioridade de certos grupos.
Embora parte dos teóricos tenha se debruçado sobre esse viés por mais algum tempo, outros intelectuais dedicaram-se a explicar criticamente as origens e os efeitos do racismo.
Traçar essa espinha dorsal mais recente foi o que impulsionou pesquisadores da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) a criar a Rede de Referências dos Estudos do Racismo, plataforma que mapeia autores nacionais e internacionais para evidenciar quem explica o racismo e suas nuances no Brasil.
A Rede de Referências dos Estudos do Racismo funciona como uma espécie de teia interativa, que conecta autores nacionais e internacionais por sua proximidade de argumentos e ideias em estudos sobre raça e racismo no Brasil.
A plataforma foi criada pelo núcleo Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo), vinculado ao Iesp (Instituto de Estudos Sociais e Políticos) e coordenado por Luiz Augusto Campos, professor de sociologia e ciência política na Uerj e colunista do Nexo. O doutorando em ciência política Gabriel Delphino é o principal pesquisador do projeto.
O ponto de partida para a conexão dos intelectuais foi o registro de seus nomes em referências bibliográficas. Para encontrá-las, o grupo filtrou artigos sobre raça e racismo publicados entre 2000 e 2026 e disponíveis na Web of Science, uma das maiores bases de literatura acadêmica.
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trabalhos foram mapeados pela Rede de Referências dos Estudos do Racismo
Um software processou a seleção de artigos e mapeou os autores citados nas referências de cada trabalho, desconsiderando aquelas institucionais e que não são de pesquisadores individuais — como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Banco Mundial.
“Cada um desses artigos carrega, em suas referências bibliográficas, uma espécie de assinatura intelectual a partir da lista de obras que o autor considerou essenciais para sustentar seus argumentos. É dessa camada normalmente invisível que a rede é construída”, explicou Delphino a jornalistas.

Plataforma reúne e conecta autores nacionais e internacionais
Finalizada essa etapa, o grupo mapeou os autores e os posicionou em grupos de nomes mais ou menos citados, que podem ser vistos como comunidades de diálogo dentro do campo de estudos sobre raça e racismo.
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autores foram identificados pela Rede de Referências dos Estudos do Racismo
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conexões foram criadas entre os autores mapeados
Ao Nexo, Luiz Augusto Campos explicou que, embora o Brasil tenha uma grande produção acadêmica sobre raça, não há o mesmo volume de pesquisas sobre racismo.
“Além de incentivar os estudos e as leituras de quem tem interesse no tema, nossa ideia é organizar essas referências para que o conhecimento possa ser transparente e acessível, além de avançarmos nesse campo de estudos do racismo”, disse.
Os pesquisadores do Dara mapearam quatro grupos a partir da seleção e conexão de autores.
No primeiro grupo, estão os intelectuais mais citados, que refletem sobre as relações raciais a partir da experiência negra no Brasil e fora dele. Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento e Patricia Hill Collins são alguns nomes.
Outros, como Michel Foucault e Judith Butler, também estão no grupo por serem citados como teóricos auxiliares para o entendimento das dinâmicas do racismo.
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No segundo grupo, estão autores que explicam o racismo desde suas origens no pensamento social brasileiro, o que inclui nomes mais ou menos contemporâneos — como Lilia Moritz Schwarcz, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes.
O terceiro grupo, predominantemente internacional, conecta autores que estudam raça e racismo no Brasil a partir de abordagens quantitativas e comparativas — como estudos das desigualdades socioeconômicas e da estratificação. O sociólogo americano Edward Telles é o ponto de partida para a correlação com outros nomes.
Já o quarto grupo reúne autores predominantemente da área da saúde, que pesquisam raça e racismo sob eixos como a epidemiologia, a saúde coletiva e as políticas públicas sanitárias. Nancy Krieger, David R. Williams e Cláudia Travassos são alguns desses nomes.