Por que a Justiça embargou a reforma de Trump na Casa Branca

Imagem aérea da obra na Ala Leste da Casa Branca

A Justiça federal dos Estados Unidos acusou formalmente na segunda-feira (27) o americano Cole Tomas Allen, de 31 anos, de tentativa de assassinar o presidente do país. Se condenado, ele pode pegar prisão perpétua.

Donald Trump usou o ataque no sábado (25) — que ocorreu durante o jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, em Washington D.C. — para defender a construção de um salão de baile na sede do governo americano. A reforma na Casa Branca, defendida pelo republicano desde que voltou ao poder, enfrenta problemas judiciais. A próxima audiência está prevista para 5 de junho.

Neste texto, o Nexo detalha o projeto defendido por Trump e explica por que há um imbróglio judicial em torno da estrutura. Também mostra como o mandatário usa o ataque para defender as obras.

A construção do salão de baile

Em outubro de 2025, o governo Trump começou a demolir a Ala Leste da Casa Branca, construída em 1902, sob a justificativa de construir um salão de baile com capacidade para 1.350 convidados. Trata-se de uma área de 8.361 m².

US$ 400 milhões

é o orçamento apresentado pelo governo para a reforma do salão de baile

Além do salão de baile, o projeto inclui escritórios, um cinema, uma cozinha e uma colunata (sequência de colunas) de dois andares conectando as instalações ao prédio principal da Casa Branca. Abaixo desse espaço fica o PEOC (Centro de Operações de Emergência Presidencial), nome dado ao bunker da Casa Branca, que também será reformado. A instalação tem como objetivo fornecer segurança aos principais funcionários do edifício em caso de ataque.

Numa publicação de 2024 no Facebook, a Associação Histórica da Casa Branca escreveu sobre o PEOC que “esse espaço secreto apresentava paredes grossas de concreto e tetos revestidos de aço, com um pequeno quarto e banheiro presidencial em seu interior. Salas próximas forneciam máscaras de ventilação, armazenamento de alimentos e equipamentos de comunicação”.

Para além de falas de Trump, não há detalhes públicos sobre o projeto do salão de baile e sobre o estado atual do bunker após a demolição da Ala Leste da Casa Branca.

“Os militares estão construindo um enorme complexo sob o salão de baile. A construção está em andamento e está indo muito bem”, disse Trump a jornalistas a bordo do avião presidencial Air Force One em 29 de março. “O salão de baile, essencialmente, se tornará um abrigo para o que está sendo construído pelos militares, incluindo defesa contra drones e qualquer outra coisa.”

Trump acrescentou que o projeto do bunker tem defesa biológica, telecomunicações e comunicações seguras, instalações militares e médico-hospitalares. Tanto o salão de baile quanto o bunker terão “vidro à prova de balas de alta qualidade”.

Quem financia a obra

A Casa Branca afirmou que o projeto está sendo financiado inteiramente por doadores privados.

O contrato da reforma da Ala Leste, obtido pelo Public Citizen, ONG americana dedicada à defesa da democracia, e compartilhado com o canal CBS News, revelou o acordo entre a Casa Branca, o Serviço Nacional de Parques e a organização Trust for the National Mall para a obra.

O documento autoriza a Trust for the National Mall a aceitar doações em valor suficiente para cobrir os custos do projeto.

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O acordo não menciona a construção subterrânea, o que sinaliza que essa parte do projeto será reformada com dinheiro dos contribuintes americanos. No entanto, o custo específico do bunker não foi informado.

Por que a Justiça embargou a construção

O National Trust for Historic Preservation (“Fundo Nacional para a Preservação Histórica”), organização criada pelo Congresso em 1949 para proteger locais históricos americanos, entrou em dezembro de 2025 com um processo contra Trump e membros de sua administração, alegando que a construção do salão era ilegal.

Segundo a organização, a obra foi iniciada sem que os planos tenham sido protocolados junto à Comissão de Planejamento da Capital Nacional, agência federal de planejamento do Distrito de Columbia, conforme exigido pela Lei de Planejamento da Capital Nacional, de 1952.

Donald Trump em evento no John F. Kennedy Center, Washington DC

Donald Trump em evento no John F. Kennedy Center, Washington DC

Ademais, não foi elaborada uma avaliação ambiental pública adequada ou um estudo de impacto ambiental, conforme exigido pela Lei Nacional de Política Ambiental, de 1970, e o Congresso ainda não autorizou a construção do edifício, como é obrigatório quando uma construção é proposta em qualquer parque federal no Distrito de Columbia.

Após meses de litígio, o juiz distrital Richard Leon determinou, em 16 de abril, a interrupção da obra na Casa Branca até que o Congresso autorize sua conclusão. “Segurança nacional não é carta branca para prosseguir com atividades ilegais”, escreveu Leon.

O Tribunal de Apelações dos EUA para o Distrito de Columbia concedeu, em 18 de abril, uma liminar, permitindo temporariamente a construção da parte necessária para garantir a segurança presidencial — sem detalhar o que seja — até a resolução do impasse judicial. Uma audiência está prevista para 5 de junho.

O ataque ao jantar de correspondentes

No sábado (25), Cole Tomas Allen invadiu armado o salão de baile do hotel Washington Hilton, na capital americana, durante um jantar de gala da Associação dos Correspondentes da Casa Branca. Ele passou pela barreira inicial de segurança, atirou num agente — que foi hospitalizado, mas já recebeu alta — e foi imobilizado.

Essa foi a primeira vez que Trump participou do evento anual durante seus governos. Entre outros membros do governo presentes no evento, estavam o vice-presidente JD Vance, os secretários Marco Rubio (Estado), Pete Hegseth (Defesa) e Scott Bessent (Finanças) e o diretor do FBI, a polícia federal americana, Kash Patel.

Horas depois do incidente, Trump defendeu a construção do salão de baile na Casa Branca, destacando que será grande e seguro, com vidros à prova de drones e à prova de balas. “Precisamos do salão de baile. É por isso que o Serviço Secreto e os militares querem”, disse.

Trump afirmou no domingo (26) na Truth Social que o processo judicial é “ridículo” e “deve ser imediatamente arquivado”. “Esse acontecimento nunca teria ocorrido se o Salão de Baile, de nível militar ultrassecreto, estivesse atualmente em construção na Casa Branca”, repetiu.

“O que aconteceu ontem [sábado, 25] à noite é exatamente a razão pela qual as nossas Forças Armadas, o Serviço Secreto, as Forças da Lei e, por diferentes razões, todos os presidentes dos últimos 150 anos têm vindo a exigir a construção [do salão de baile]”, disse.

Após o atentado, congressistas passaram a apoiar a aprovação da reforma na Casa Branca – embora Trump não tenha pedido autorização do Congresso para iniciar as obras.