O Reino Unido quer se livrar do tabaco, mas não da nicotina

Pessoa fumando vape

Em 2018, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) começou a reavaliar se vapes – proibidos desde 2009 – deveriam ser liberados no Brasil, a indústria do tabaco apresentou o Reino Unido como uma espécie de modelo a ser seguido. Com base em dados britânicos, a British American Tobacco (BAT), a antiga Souza Cruz, disse que os produtos reduzem os danos do fumo, ajudam a parar de fumar e não atraem adolescentes. A empresa citou um relatório inglês de 2015 sobre vapes serem “95% menos danosos” que cigarros comuns, e estudos da Action on Smoking and Health (ASH), uma tradicional ONG antifumo do país, sobre como poucos jovens estariam usando os produtos.

Na época, alguns centros médicos do país incluíram os dispositivos entre as suas opções de ajuda antitabagismo, ao lado de adesivos de nicotina, bupropiona e acompanhamento médico. Cigarros eletrônicos eram bem diferentes – trambolhos quadrados, de cores sóbrias e bobinas à vista à boca do fumante. No entanto, o cenário mudou conforme novas marcas, como a norte-americana Juul, se tornaram fenômenos de vendas e referência até mesmo para as gigantes do tabaco. A partir daí, ganharam cores, designs sofisticados e líquidos mais saborosos e viciantes, o que atraiu adolescentes em massa ao vaping, inclusive no Reino Unido. No fim, os argumentos da indústria não convenceram a Anvisa, que manteve o banimento.

“Às vezes falamos em ‘tornar o vaping chato de novo’, como quando as únicas pessoas que se importavam com eles eram os fumantes”, disse ao Joio a diretora-executiva da ASH, Hazel Cheeseman, que ressalta que o plano é que esses produtos sejam uma saída do tabagismo, e não uma entrada. “Eles voltam a ser apenas algo que um fumante usa para parar, que não estão visíveis em toda loja, não são coloridos, não são vistos como algo de estilo de vida jovem, como definitivamente aconteceu no Reino Unido”, afirma. Segundo dados da ONG, a experimentação de vapes entre adolescentes de 11 a 17 anos saltou de 10% em 2016 para 20% em 2025, enquanto a de cigarros comuns foi de 18% para 21%. Já o uso de sachês de nicotina também se espalhou entre a faixa etária, indo de menos de 1% em 2022 para 4% no último ano, segundo um estudo publicado em janeiro.

Enquanto outros países, como o Brasil, seguem estratégias de combate ao fumo recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – o que inclui restrições pesadas contra cigarros eletrônicos –, o Reino Unido abraçou uma tática própria, baseada na “redução de danos”. Nessa visão, eliminar a combustão do fumo e o uso de produtos da folha acaba com a maioria dos riscos ligados à nicotina, uma substância que, por si mesma, seria quase inofensiva, apesar de viciante. Por isso, vapes e sachês são bem-vindos e encarados mais como algo próximo a adesivos e gomas de nicotina, usados como ajuda ao fumante, do que como cigarros comuns. Os eletrônicos não contém tabaco, e sim um líquido que contém uma “nicotina turbinada” dissolvida e misturada com uma série de químicos e sabores.

“A ideia básica é que fumantes que não conseguem ou não querem parar de usar nicotina possam mudar para produtos de entrega de nicotina que são muito menos danosos”, explicou por e-mail ao Joio o psicólogo Peter Hajek, professor da Queen Mary University of London e co-autor de muitos dos estudos e relatórios usados pelo governo britânico em favor da redução de danos via vapes, inclusive as revisões da Cochrane sobre a eficácia desses produtos para cessação do tabagismo. “Banir produtos desse tipo ou fazê-los menos atrativos fecha esta ‘saída’ para fumantes, protege cigarros de seus competidores muito menos arriscados e ameaça a saúde pública.”

Por um lado, o plano tem dado certo. O número de “vapers” superou pela primeira vez o de fumantes em 2024. Enquanto 10% usavam os dispositivos, 9% fumava, segundo os dados oficiais mais recentes. Por outro, o consumo de nicotina seguiu estável desde que vapes passaram a ser monitorados pelo governo. Em 2013, último ano antes deles entrarem nos cálculos, o índice de tabagismo era 19%. Em 2024, apesar da queda no tabaco, vapers e fumantes somados seguiam 19%. A liberação também não impediu o avanço do mercado ilícito no país. Entre 2023 e 2025, o Reino Unido confiscou pelo menos 4,8 milhões de vapes ilegais, segundo um levantamento de varejistas.

A tática segue uma premissa criada nos anos 70 pelo pesquisador sul-africano Michael Russell, radicado no Reino Unido e um dos idealizadores das terapias de reposição de nicotina. Um dos primeiros a identificar a substância como o fator que levava fumantes à dependência, achado que só se tornou consenso no fim dos anos 80, Russell dizia que “as pessoas fumam pela nicotina, mas morrem pelo alcatrão”. Nos anos 50, pesquisadores identificaram o alcatrão como  o “coquetel carcinógeno” produzido pela queima do fumo. Ele foi o mentor de uma geração inteira de especialistas do país, como o próprio Hajek, e por anos apoiou iniciativas que buscavam criar um tipo de “cigarro seguro”. O pesquisador chegou até mesmo a receber secretamente recursos da BAT, o equivalente a 300 mil libras (cerca de R$ 2 milhões), para pesquisar se produtos em desenvolvimento pela empresa podiam ser “menos danosos” aos fumantes, como um protótipo do que hoje são dispositivos de tabaco aquecido.

Em 1991, Russell teorizou que produtos de nicotina “alternativos”, como adesivos, gomas e sprays de nicotina, usados na época em terapias de reposição, traziam potencial para a “virtual eliminação do tabaco como uma meta realística no futuro”. “Avança o caso para que produtos de substituição da nicotina sejam feitos da forma mais palatável e aceitável possível e ativamente promovidos em um mercado aberto que os permita competir com produtos de tabaco”, escreveu Russell no artigo “o futuro da substituição da nicotina”. “Isso irá precisar do endosso de autoridades de saúde, vantagens tributárias e apoio do movimento antifumo se for para o uso de tabaco ser eliminado gradualmente”, disse.

São ideias que se inserem em uma longa tradição do controle do tabaco britânico de buscar a “redução de danos” por meio da “modificação do risco” de produtos de nicotina. Entre 1972 e 1991, o país manteve um comitê científico independente em fumo e saúde (ISCSH) que se destinava a criar “um cigarro seguro” em colaboração com a indústria do tabaco.

O grupo partia de premissas semelhantes às usadas hoje com os vapes, como a de que o vício em nicotina é inevitável, que a redução de certos componentes tóxicos é sinônimo de redução de risco e que produtos que combatem o tabagismo devem ser competitivos em um mercado de consumo.

O próprio Russell, por exemplo, foi um dos entusiastas da tese de que produtos “de baixos teores”, os antigos cigarros light, seriam centrais para um “tabagismo mais seguro”. Anos depois, conforme evidências epidemiológicas se acumularam, especialistas chegaram à conclusão de que não protegem os fumantes e podem até mesmo ser mais perigosos.

Uma geração livre de tabaco à moda inglesa

Não foi à toa que, em abril, o Reino Unido incorporou várias medidas alinhadas com as ideias de Russell na Lei de Tabaco e Vapes, uma nova legislação que substituiu leis antitabagismo que, na prática, eram uma herança de regras incorporadas durante a participação britânica na União Europeia, até sua saída formal do bloco em 2020. Apesar disso, a regulação incluiu alguns freios à abertura aos cigarros eletrônicos, já que muitos desses produtos passaram a mirar não só fumantes adultos, mas também jovens e adolescentes não fumantes. A ideia, no entanto, é continuar impulsionando a migração do uso de um para o outro.

Em 2025, o país baniu vapes descartáveis, o tipo mais comum do dispositivo entre os vendidos ilegalmente no Brasil via marcas como Ignite e Elfbar, e que o lobby do fumo tenta liberar por aqui. Já a Lei de Tabaco e Vapes vedou a publicidade de produtos de nicotina e permitiu que o governo crie restrições parecidas às já usadas contra cigarros comuns, como vedações a sabores, embalagens e pontos de venda. Isso não quer dizer que medidas do tipo serão necessariamente adotadas. Pelo contrário, entre especialistas britânicos, o apoio a esses dispositivos segue em alta, inclusive diante de riscos do uso por camadas mais jovens, tratados como “hipotéticos”.

“Até o momento, vapes têm sido muito menos viciantes do que fumar”, garante Hajek, cujos colegas defendem que restrições a sabores de cigarros eletrônicos, por exemplo, poderiam atrapalhar a migração por parte de fumantes adultos mesmo frente ao apelo indesejado aos adolescentes. “A larga maioria dos jovens que experimentam vapes não se tornam usuários regulares; a pequena minoria com genes ou circunstâncias que os conduz a buscar e gostar de nicotina, sim, mas eles estão muito melhores usando vape do que fumando”, diz, ainda que pesquisadores de outros países discordem.

A mesma norma também proibiu a venda de tabaco a quem nasceu após 2009, o que cria um limite de idade progressivo para sufocar o acesso ao fumo – primeiro aos adultos jovens e, no longo prazo, à população inteira. Um dos novos produtos que a indústria tenta liberar no Brasil, os dispositivos de “tabaco aquecido”, um tipo de cigarro eletrônico que aquece uma espécie de “fumo ultraprocessado” – no lugar do líquido com nicotina utilizado nos vapes – foram incluídos nessa mesma regra que também pretende aposentar cigarros comuns, charutos, fumo bolado e narguilé. Na prática, o plano é criar uma “geração livre de tabaco” e abrir espaço para que o consumo de nicotina migre de vez para alternativas tidas como menos nocivas, na linha do futuro previsto por Russell.

A abordagem britânica e seus pressupostos, por isso, não é consenso. “Penso que a implementação britânica é particularmente ruim porque eles isentam cigarros eletrônicos e sachês de nicotina da lei, o que significa que os dois produtos mais usados por adolescentes e adultos jovens estão imunes”, avalia o sanitarista Stanton Glantz, professor aposentado da Universidade da Califórnia (UCSF) e um dos principais nomes do ativismo antifumo. “Eu não consigo acreditar que daqui a 10 anos, alguém com 25 ou 30 anos que quiser usar tabaco não vai conseguir comprar, então meu palpite é que, quando o bicho pegar, [a norma] vai ser revogada”, diz.

Antes do Reino Unido, a Nova Zelândia também aprovou em 2022 uma regulação que criava uma “geração livre de tabaco”, mas a medida foi revertida em 2024 após uma troca de governo, com apoio de lobistas do fumo. Muitos especialistas, inclusive, acreditam que os britânicos têm dado munição ao lobby do tabaco no exterior, inclusive no Brasil. Já que empresas como BAT e Philip Morris, a fabricante do Marlboro, também vendem vapes e sachês de nicotina, elas passaram a se posicionar como parte da solução contra o tabagismo junto a governos – o que tem lhes permitido voltar à mesa de conversas com autoridades de saúde, posição que haviam perdido nas décadas anteriores, com o avanço das regulações antifumo.

“Há quem diga que, se você usar cigarros eletrônicos como um método de cessação do tabagismo, você não precisaria se preocupar em nada com outras regulações de tabaco, e penso que esta é a estratégia que a indústria está tentando empregar em outros países”, diz Cheeseman, da ASH, que vê o setor “convenientemente se esquecendo que fazemos isso em um contexto de uma categoria de tabaco fortemente regulada”. “Parece pouco provável para mim que você possa fazer um [apoiar vapes] sem o outro [restrições pesadas a tabaco].”

Em 2018, a BAT chegou até mesmo a incluir aspas de Cheeseman em sua apresentação à Anvisa para sugerir que a empresa estava alinhada às posições da ASH. Até 2025, o setor tratava o Reino Unido como “referência” de regulação em artigos de opinião e audiências públicas no Brasil, ao mesmo tempo que tentava impedir que medidas antifumo aplicadas lá fossem adotadas aqui. Nos últimos anos, os britânicos promoveram aumentos de impostos, adotaram embalagens-padrão nos maços (sem logotipos, cores ou marcas), restringiram pontos de venda e proibiram sabores de fumo. Ainda assim, empresas de tabaco ignoram essas medidas e atribuem a redução de fumantes no país somente a seu entusiasmo com vapes.

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Em 2025, a OMS até mesmo emitiu um posicionamento em que alertava que empresas do setor estavam “se apropriando indevidamente” do conceito de redução de danos para propagar o “marketing em massa de produtos perigosos [como vapes e sachês] para o público em geral”, o que, na prática, também soou como uma indireta aos britânicos. “O nível real dos riscos desses produtos só ficará claro através do tempo e mediante um compromisso contínuo de avaliação imparcial”, disse a entidade, que recomendou o fortalecimento da fiscalização nos países que já os banem, como o Brasil. “O quão perigosos esses produtos são na vida real também depende de como as pessoas os usam, o quão são largamente utilizados, por quem, e como são vendidos e regulados.”

E as evidências científicas?

A controvérsia sobre vapes serem úteis ou uma ameaça ao controle do tabaco ecoa uma divisão que o modelo britânico gerou entre especialistas. Parte deles, sobretudo em países como Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia, influenciados pelas ideias de Russell, veem vapes e sachês como produtos capazes de aposentar o fumo em uma disputa de mercado. É preciso liberá-los com menos restrições e criar alguns incentivos para apoiar fumantes a migrar. Trata-se de uma estratégia de “redução de danos” que não deve buscar eliminar o consumo da nicotina, já que seu amplo uso seria inevitável e se trataria de uma substância que em si mesma seria quase inofensiva, e sim seu uso verdadeiramente nocivo, como por meio do tabaco, dizem.

No geral, essa posição parte de quatro premissas:

Já outros especialistas enxergam cigarros eletrônicos como armadilhas da indústria. Em uma era em que fumar saiu de moda, eles atraem jovens e tentam emplacar a venda de um portfólio ampliado de produtos para manter os lucros, ainda que às custas da saúde pública. Além disso, a nicotina é uma substância altamente viciante, a dependência por si só já deve ser encarada como um desfecho perigoso e seu uso não é inevitável, e sim algo construído e mantido por uma indústria. Essa visão é mais comum no Brasil, Índia e alguns países da Europa, como Finlândia e Países Baixos, que implementam regras pesadas contra esses novos produtos.

Como resposta, esses pesquisadores costumam avaliar que faltam boas evidências para a posição de ativistas de “redução de danos” no tabagismo de quatro maneiras:

Contudo, não é aí que a disputa termina. Ainda assim, os debates persistem sobre qual o tipo de evidência que “conta”. “Os pilares de todo o argumento em prol da redução de danos são factualmente incorretos, e se você olhar para a evidência disponível agora em 2026, eles estão apenas errados”, diz Glantz. “Mas se você for ler o que eles produzem, eles apenas ignoram todas essas evidências.”

Por exemplo, o pesquisador publicou uma revisão que concluiu que o uso combinado de vapes e cigarros comuns é até mais perigoso do que o consumo isolado de qualquer um dos dois. “Uma literatura crescente melhora a confiança de que o uso de cigarros eletrônicos está associado a desfechos de doenças indistinguíveis ou próximos do uso de cigarros, com o uso dual associado a maiores taxas de risco”, concluiu o estudo. “Cigarros eletrônicos não devem ser promovidos como uma alternativa mais segura do que cigarros.”

Já Hajek vê o uso dual como uma forma de se reduzir a exposição do fumante à combustão do tabaco, e como uma estratégia que melhora as chances de se parar de usar ambos. “Considerando que o uso de vapes será regular no lugar de ocasional, há boas evidências de que esses usuários significativamente reduzem seu consumo de toxinas (logo reduzem seus riscos) e alguma evidência de que usuários duais são mais propensos a parar de fumar ambos em seguida”, considera o psicólogo. “Logo o uso dual é uma boa coisa, um passo na direção certa.”

Ainda assim, apesar do consenso britânico em torno dos vapes, alguns pesquisadores locais não encaram esses produtos de forma tão entusiasmada. “O ponto é que você poderia individualmente reduzir o seu risco ao usar um produto menos arriscado, mas isso não significa que, no nível da população, se jogarmos esses produtos no mercado, isso será benéfico à saúde pública”, diz a médica sanitarista Anna Gilmore, professora da Universidade de Bath.

Na prática, segundo ela, o contexto do país é o que mais importa, já que medidas britânicas podem não ser aplicáveis em outros lugares. “Outros países podem não ter a capacidade [regulatória] de fazer o que fazemos, então é fundamentalmente errado para a indústria tentar posicionar o Reino Unido como uma solução”, diz. “Em outros países, é provável que será muito, muito mais seguro continuar com produtos farmacêuticos [adesivos, gomas] para ajudar as pessoas a pararem [de fumar].”

Apesar da abertura aos vapes, os dispositivos não estão disponíveis sob prescrição médica no país e nem via National Health Service (NHS), o sistema de saúde pública britânico. Ainda que alguns postos de saúde ofereçam kits de vapes para fumantes, fabricantes não se interessaram em tentar registrá-los oficialmente como um medicamento para cessação do tabagismo.