
Crianças indígenas nos arredores caminham em Boa Vista (RR)
Quando indicadores das áreas de saúde, educação e mercado de trabalho pioram em determinados locais, suas populações perdem dinheiro. Essa é uma das conclusões de um relatório do Banco Mundial publicado em 12 de fevereiro. No Brasil, essa perda chega a 40%.
Os deficits estão, em parte, relacionados às características dos territórios, que, segundo o documento, podem influenciar as oportunidades e a geração de renda de seus habitantes no futuro.
Neste texto, o Nexo explica quais as conclusões do estudo sobre a relação entre bairros e renda futura. Também conta quais as recomendações do Banco Mundial para contornar o cenário.
Para o estudo do Banco Mundial, publicado em 12 de fevereiro, economistas cruzaram dados de 129 países entre 2010 e 2025 buscando entender quais os elementos essenciais para a construção de capital humano – um conjunto de fatores, como qualidade em saúde, conhecimentos e experiências, que influenciam a geração de renda.
De acordo com o documento, as condições do lar e do bairro onde uma criança nasce influenciam seu capital humano e podem fazer com que ela ganhe menos ou mais dinheiro no futuro. Contribuem para isso:
Os autores afirmam que, aos 5 anos, crianças de zonas rurais do Peru cujas mães têm apenas o ensino fundamental, ou menos, dominam cerca de metade do vocabulário de outras crianças cujas mães concluíram pelo menos o ensino médio. Padrões semelhantes foram observados na Etiópia, na Índia e no Vietnã.
Além disso, deficits em áreas da saúde, educação e trabalho — observados, via de regra, em regiões menos favorecidas — podem comprometer pouco mais da metade da renda futura das pessoas. É o que o Banco Mundial chama de “preço invisível” da desigualdade.
51%
da renda futura dos países são perdidos, na média global, devido a falhas em áreas como saúde, educação e mercado de trabalho, segundo relatório do Banco Mundial
Os dados mostram que o bairro é um fator significativo no desenvolvimento das crianças, podendo se sobrepor, muitas vezes, às condições que seus pais tiveram, segundo o órgão internacional.
“Isso foi observado nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Brasil, onde os filhos de pais de baixa renda concluem dois anos a mais na escola, aprendem mais e ganham o dobro na idade adulta se crescerem num bairro rico em vez de um bairro pobre”
Banco Mundial
em relatório publicado em 12 de fevereiro
O prejuízo na renda futura do Brasil por conta de deficits nas áreas da saúde, educação e emprego está pouco abaixo da média global, mas ainda é alto, segundo o relatório.
40%
é o quanto crianças brasileiras perdem na renda futura devido às condições dos territórios onde nasceram e vivem
Junto com o estudo, o Banco Mundial lançou o HCI+ (Índice de Capital Humano Plus), indicador do capital humano que uma criança pode acumular durante sua vida produtiva a depender das condições disponíveis. Quanto maior o valor, maior é a capacidade de o país converter seu potencial estrutural no desenvolvimento da população. A pontuação máxima a ser atingida é de 325 pontos.

Crianças correndo ao lado de fontes de água
De acordo com o documento, embora o Brasil (203 pontos) tenha pontuação acima da média da América Latina e Caribe (194), o principal gargalo enfrentado está na qualidade da educação — que pode variar, a depender das condições dos territórios.
“Crianças que crescem em bairros periféricos costumam frequentar escolas com piores condições, passam mais tempo em deslocamento, estão mais expostas à violência e têm menos acesso a espaços culturais e esportivos”, disse ao Nexo Michael França, doutor em economia pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Neri (Núcleo de Estudos Raciais do Insper).
França é um dos autores de “A loteria do nascimento” (2025), livro que discute como certas condições estruturais afetam as chances de mobilidade social de uma pessoa, mesmo que ela conclua o ensino superior.
“Quem cresce em bairros mais favorecidos tende a acumular vantagens desde cedo, inclusive por meio das conexões familiares e sociais”
Michael França
doutor em economia pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Neri (Núcleo de Estudos Raciais do Insper), em entrevista ao Nexo
Para o pesquisador, essa relação entre territórios e desenvolvimento no futuro aparece “de forma muito evidente” no Brasil. No estudo do Banco Mundial, os economistas concluíram que mesmo entre famílias com renda semelhante, crianças que vivem em bairros mais estruturados têm melhores resultados na vida adulta — como rendas maiores.
25%
mais chances têm a criança que nasceu em um bairro brasileiro mais favorecido de conseguir um emprego formal, segundo o relatório do Banco Mundial
Além do território onde a criança nasceu, há outros fatores que “interagem entre si e ampliam ou reduzem suas chances futuras”, segundo França. Eles incluem:
O relatório do Banco Mundial ainda cita a desigualdade de gênero no cálculo do HCI+, já que, segundo o órgão, os deficits em saúde, educação e mercado de trabalho afetam mais as mulheres do que os homens na construção de capital humano.
De forma geral, o relatório do Banco Mundial publicado em 12 de fevereiro recomenda que os países invistam em programas de desenvolvimento infantil e de educação para reduzir o custo das desigualdades. Isso incluiria recursos para ferramentas de aprendizagem e de incentivo ao consumo de alimentos nutritivos, por exemplo.
Os autores também sugerem a implementação de políticas públicas focadas em bairros desprivilegiados, incluindo políticas que garantam a coleta de lixo, o abastecimento de água potável, o saneamento básico e o acesso a serviços de saúde.

Rua em saneamento básico
Para identificar esses territórios, o relatório recomenda recorrer aos cadastros sociais e aos centros de assistência social. No Brasil, essa é uma das atribuições do CadÚnico (Cadastro Único), criado em 2001 para reunir informações sobre famílias em situação de pobreza ou de extrema pobreza.
Para França, as políticas focadas nos bairros precisam ser combinadas com frentes como mercado de trabalho, mobilidade urbana e condições de moradia.
“Políticas de educação territorializadas, fortalecimento da primeira infância, mobilidade urbana que reduza o tempo de deslocamento, integração entre moradia e emprego e redução da segregação residencial são medidas relevantes para enfrentar esse cenário no Brasil”, acrescentou.