A pasta que guardava 35 gravuras esquecidas de Rembrandt

Auto-retrato de Rembrandt

Uma pasta encontrada por Charlotte Meyer, uma holandesa que vive na cidade de Zutphen, levou à descoberta de 35 gravuras do pintor holandês Rembrandt van Rijn (1606–1669). A descoberta ocorreu durante o confinamento da covid-19, em 2020, quando Meyer revisava objetos antigos da família. As gravuras pertenciam à coleção de seu avô, que as havia adquirido entre 1900 e 1920.

Redescobertas de obras de Rembrandt não são incomuns. Na terça-feira (3), a pintura “Visão de zacarias no templo”, de 1633, considerada perdida por muito tempo, foi redescoberta e autenticada por especialistas. Tanto essa obra quanto as gravuras encontradas por Meyer integram o legado de Rembrandt, artista responsável por algumas das mais importantes obras de arte visual do mundo ocidental.

Neste texto, o Nexo explica por que o nome do artista holandês se tornou uma referência na arte do retrato e qual é a importância das novas obras encontradas para a história da arte.

O legado de Rembrandt van Rijn

Conhecido principalmente pelos retratos e por sua habilidade em representar os mais diversos estados de espírito e expressões humanas, Rembrandt van Rijn nasceu em Leiden, nos Países Baixos, e dedicou grande parte de sua vida à arte.

O intenso jogo de luz e sombra, característico de sua pintura, tornou-se uma de suas marcas mais reconhecidas. Essa forma particular de trabalhar a iluminação levou alguns críticos a afirmar que Rembrandt parecia preferir a feiura à beleza idealizada. Suas obras se destacavam por se afastar dos padrões tradicionais de sua época.

Pintura ‘São Pedro na prisão’, de 1631

Ao longo de sua carreira, o artista passou por mudanças graduais em seu estilo de pintura. Elementos como o contorno, as formas, as cores e o peso das pinceladas foram se transformando com o tempo. 

Essa evolução pode ser percebida até mesmo dentro de uma única obra, como em “A ronda noturna” (1642), frequentemente apontada por especialistas como um exemplo representativo do desenvolvimento estilístico do pintor holandês.

A produção artística de Rembrandt também inclui cenas históricas, bíblicas e mitológicas, embora em menor quantidade. Ainda assim, foi sobretudo na retratística que ele alcançou maior destaque e reconhecimento.

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Além de retratar outras pessoas, Rembrandt produziu numerosos autorretratos. Estima-se que cerca de um décimo de toda a sua obra, entre pinturas, desenhos e gravuras, seja composto por estudos de seu próprio rosto, variando desde experimentações expressivas até retratos mais formais.

A arte do holandês rapidamente alcançou renome entre os amantes da pintura e entre o público comprador da época. Suas gravuras contribuíram para que Rembrandt conquistasse fama internacional ainda em vida, despertando grande interesse inclusive por seus rascunhos e esboços. Dessa forma, o artista se consolidou como um dos grandes nomes da arte holandesa.

Da dúvida à confirmação da autenticidade

Apesar de conhecer o trabalho do artista holandês, Charlotte Meyer não tinha certeza da autenticidade das peças. Por isso, entrou em contato com especialistas da Casa Rembrandt para que realizassem uma análise detalhada.

Gravura ‘A mulher panqueca’, de 1635. Coleção de Charlotte Meyer

Após a avaliação, os pesquisadores constataram não apenas que as obras pertenciam de fato a Rembrandt, mas que todas as 35 peças eram autênticas.

Assim como ocorre em parte da produção do artista, as obras encontradas eram miniaturas. Algumas peças da coleção medem cerca de 10 cm por 5 cm, o que ressalta ainda mais a precisão e a delicadeza dos traços.

Auto-retrato de 1630. Coleção de Charlotte Meyer

Estimativas oficiais sobre o valor das obras encontradas não foram divulgadas. Ainda assim, especula-se que o conjunto possa alcançar milhões de dólares, com base em vendas recentes de trabalhos do artista.

Um exemplo é o retrato de Arnout Tholinx, inspetor de uma faculdade de medicina em Amsterdã, produzido pelo artista por volta de 1656. A gravura foi vendida na Christie’s, em dezembro de 2025, por US$ 4,1 milhões — o valor mais alto já pago em leilão por uma obra gráfica do artista holandês.

A descoberta não representou apenas um achado significativo para a história da arte, mas motivou Meyer a seguir o exemplo de seu avô e continuar colecionando obras em sua residência.

Com o tempo, ela adquiriu novas peças e ampliou seu acervo para cerca de 70 gravuras, incluindo trabalhos de outros artistas contemporâneos do pintor holandês.

Da gaveta ao museu

O novo acervo de Meyer, somado às obras herdadas de seu avô, agora também poderá ser visto pelo público. As peças estarão em exibição no Museu Stedelijk de Zutphen, na Holanda, entre 21 de março e 14 de junho, como parte da mostra intitulada “Rembrandt, das trevas à luz”.

A própria Meyer conduzirá uma visita guiada no dia 29 de março. Na ocasião, ela apresentará seu acervo e discutirá o simbolismo presente nas gravuras de Rembrandt.