
Gustavo Petro durante a votação
Os candidatos Abelardo de la Espriella, de extrema direita, e Iván Cepeda, de esquerda, vão disputar o segundo turno da eleição presidencial da Colômbia. De la Espriella obteve 43% dos votos no primeiro turno, enquanto Cepeda ficou com 40%, segundo apuração preliminar. A próxima votação ocorre em 21 de junho.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, afirmou no domingo (31), pela primeira vez na história do país, não reconhecer o resultado da apuração preliminar. O processo fica parcialmente a cargo de uma empresa privada que tem contratos com sua administração. O resultado oficial só será divulgado em alguns dias, mas, historicamente, a divergência entre a apuração preliminar e o resultado oficial é baixa.
Neste texto, o Nexo explica como se desenvolveu o turbulento cenário eleitoral colombiano.
A Colômbia é uma das maiores economias da América Latina. É governada desde 2022 pelo presidente Gustavo Petro, de esquerda. O país é historicamente um dos maiores produtores de cocaína do mundo.
Ao longo de 2025, após retornar para o segundo mandato na Casa Branca, Donald Trump passou a focar suas atenções na América Latina, incluindo a Colômbia. Para isso, o presidente dos EUA tem usado o discurso de combate ao narcotráfico, por questão de ameaça à segurança nacional americana.
O primeiro desentendimento entre os dois presidentes ocorreu em janeiro de 2025, quando Trump começou sua operação de deportação em massa de imigrantes indocumentados. O governo Petro se recusou a aceitar voos americanos com colombianos deportados com algemas. Trump impôs tarifas à Colômbia, mas recuou dias depois.

Donald Trump discursa na Casa Branca
Em outubro de 2025, em meio à iminente operação militar dos EUA na Venezuela, a Casa Branca passou a bombardear ilegalmente embarcações no Mar do Caribe, alegando — sem provas — se tratar de narcotraficantes latino-americanos. Ao menos um barco colombiano foi alvo de ataques, e Petro criticou a atitude americana.
Além disso, Trump interferiu nas eleições da Argentina e Honduras a favor de candidatos alinhados ideologicamente a seu governo, como Javier Milei e Nasry Asfura. Diante disso, o americano e o colombiano trocaram críticas e ofensas públicas.
Em outubro de 2025, os EUA sancionaram Petro, a primeira-dama, Verónica del Socorro Alcocer Garcia, o filho mais velho do presidente, Nicolás Petro, e o ministro do Interior, Armando Villaneda, por suposto envolvimento com narcotráfico. Eles tiveram bens congelados e restrição de transações internacionais.
O Departamento de Justiça americano também abriu uma investigação contra Petro por suposto envolvimento com indivíduos ligados ao narcotráfico, além de suspeitas sobre a entrada de recursos ilícitos em sua campanha presidencial de 2022.
Em meio ao embate com Trump, Petro melhorou sua popularidade, assim como ocorreu com o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e a mexicana Claudia Sheinbaum durante o tarifaço.
Isso também reverberou positivamente nas pesquisas de intenções de voto de Cepeda. A partir de janeiro, com o cenário eleitoral mais claro, o candidato governista figurava entre os favoritos.
A tensão arrefeceu após o encontro entre Petro e Trump em 3 de fevereiro na Casa Branca, com troca de elogios. Em 12 de março, os dois presidentes conversaram novamente por telefone. Porém, isso não afastou o receio de interferência americana nas eleições do país.
A Colômbia vive uma das piores crises de segurança desde 2016, quando o Estado e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) assinaram um acordo de paz.
O governo Petro não conseguiu avançar com as negociações de paz com outras organizações, como ELN (Exército de Libertação Nacional), e grupos dissidentes. Nos últimos meses, algumas dessas organizações entraram em confronto pelo controle de rotas de tráfico, realizando atentado com bombas e deixando dezenas de mortos.
Em agosto de 2025, o então senador e pré-candidato Miguel Uribe Turbay, de direita, foi alvo de um atentado durante um comício em Bogotá, morrendo dois meses depois. O episódio foi o prenúncio de uma campanha eleitoral marcada pela insegurança.
Nos meses seguintes, a violência não deu trégua. O senador governista Alexander López sobreviveu, em maio, a um ataque a balas numa rodovia no sudoeste do país conhecida pela presença de grupos criminosos. Em fevereiro, a senadora indígena Aida Quilcué, candidata a vice-presidente na chapa de Cepeda, foi sequestrada e liberada horas depois.
Os candidatos mais bem posicionados — De la Espriella, Cepeda e Paloma Valencia, da direita tradicional — fizeram campanha sob forte escolta de segurança. Os três foram alvos de ameaças de morte.

De La Espriella e sua família
Em meio a esse cenário, De la Espriella ascendeu como alternativa à direita, com um discurso de segurança linha dura, ao estilo do presidente salvadorenho, Nayib Bukele. Ele prometeu liberar o porte de armas, construir megaprisões e acabar com os esforços de acordo de paz na Colômbia.
A maioria das pesquisas de intenção de voto apontavam Cepeda na liderança da corrida presidencial, com De la Espriella e Valencia disputando o segundo lugar.
Um levantamento do instituto brasileiro AtlasIntel para a revista colombiana Semana mostrou em 24 de maio o candidato governista à frente de De la Espriella, com diferença de 1,4 ponto percentual (a margem de erro foi de um ponto percentual, para mais ou para menos). Por outro lado, a pesquisa também demonstrou o crescimento do candidato da extrema direita.
Os candidatos
ABELARDO DE LA ESPRIELLA
De la Espriella, de 47 anos, é um advogado e empresário que disputa pela primeira vez um cargo público. Ele é filiado ao Movimento de Salvação Nacional, de extrema direita. Admirador de Trump e de Bukele, de quem emula o visual com barba alinhada e boné, fez sua campanha focada na bandeira anticorrupção e no resgate dos valores conservadores. Ele ganhou notoriedade após advogar em casos de pessoas famosas e até do empresário Alex Saab, ex-ministro da Indústria e da Produção Nacional venezuelano, suspeito de ser laranja de Nicolás Maduro.
IVÁN CEPEDA
Cepeda, de 63 anos, é senador desde 2014. Foi deputado na Câmara dos Representantes, semelhante à Câmara dos Deputados brasileira, entre 2010 e 2014. O filósofo é filiado ao Pacto Histórico, mesmo partido de esquerda de Petro. Filho do político Manuel Cepeda, morto em agosto de 1994, menos de um mês após ele assumir como senador, o político é defensor dos direitos humanos e articulador de diversas tentativas de acordo de paz.
Apesar do cenário de polarização e violência, a votação no primeiro turno ocorreu sem graves incidentes. O resultado, no entanto, abriu um novo capítulo na já turbulenta eleição colombiana.
Cepeda questionou o resultado, dizendo que houve um “padrão de votação atípico”, sem dar detalhes. Petro foi mais direto ao rechaçar. “Como presidente, não aceito os resultados da contagem preliminar da empresa privada dos irmãos Bautista”, afirmou.

Iván Cepeda cumprimentando apoiadores
Sem apresentar provas, Petro disse que houve a inclusão de 800 mil cédulas na contagem da companhia que não constam no censo oficial do país. “As mesas já impugnadas demonstram que centenas de milhares de votos foram agregados sem existência de votantes. Portanto e conforme a lei, os resultados vinculantes que o presidente atenderá e aceitará são os das comissões escrutadoras dirigidas pelos juízes da República”, acrescentou.
No discurso pós-resultado eleitoral, De la Espriella defendeu o resultado. Ele pediu que os EUA e a comunidade internacional vigiem o segundo turno para evitar que “roubem a democracia”.
A empresa parcialmente responsável pela apuração preliminar é a Thomas Greg & Sons, uma das maiores prestadoras de serviço para o Estado colombiano, comandada pelos irmãos Felipe, Camilo e Fernando Bautista. A companhia era responsável pela impressão dos passaportes colombianos de 2007 até abril de 2026.
A troca ocorreu após uma crise que começou em 2023, quando empresas deixaram uma licitação para a produção de passaportes alegando que o processo estava viciado para favorecer a Thomas Greg & Sons. O governo Petro cancelou a licitação, e a empresa entrou com ação contra a administração. O processo está em curso.
A lei colombiana estabelece que, na noite da eleição, o Registro Civil Nacional, órgão responsável pelo processo eleitoral, realiza uma contagem preliminar para fins de divulgação.
Essa contabilização é feita por mesários logo após o fechamento das urnas, na presença de observadores eleitorais e autoridades. Eles informam os números dos votos para a sede do Registro Civil Nacional, que insere os dados num software pertencente à Thomas Greg — a empresa dos irmãos Bautista referida por Petro.
A contagem preliminar não tem efeito legal, mas tem um efeito político que partidos e políticos não costumam contestar.
As queixas ocorrem após a contagem oficial, que é a revisão formal de toda a documentação e o processo eleitoral, com folhas de apuração, formulários e até os votos depositados nas urnas pelos cidadãos. Por lei, essa contagem começa no dia seguinte à eleição no Cartório Eleitoral Nacional. É feita por juízes, tabeliães e outros funcionários.
Como alguns formulários são modificados, os resultados finais mostram divergências em relação à contagem preliminar. Essa diferença é historicamente pequena, com média de 0,5%, segundo o site de jornalismo independente colombiano La Silla Vacía. Essa divergência, porém, se torna relevante se as eleições forem decididas por poucos votos.
Embora as queixas sobre a apuração preliminar – como Petro fez – sejam incomuns, há dois precedentes de divergências entre essa contagem e o resultado oficial.
O primeiro é o do partido de direita tradicional Mira (Movimento Independente de Renovação Absoluta) nas eleições legislativas de 2014. A legenda ficou sem representantes, mas levou suas reivindicações ao Conselho de Estado, que, três anos depois, decidiu a seu favor.
O órgão constatou sérias irregularidades em 1,4% de todas as seções eleitorais. O partido recuperou mais de 16 mil votos, o que permitiu ultrapassar a cláusula de barreira do Senado e obter três assentos.
O segundo precedente ocorreu nas eleições legislativas de 2022. Nessa ocasião, muitos dos contratados responsáveis pela transmissão de dados ao Registro Nacional durante a contagem preliminar não incluíram nos formulários os dados referentes ao partido de Petro. A diferença, de cerca de 390 mil votos, foi corrigida em cerca de uma semana durante a recontagem.