
Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em encontro na Casa Branca, nos EUA
Lula e Donald Trump se reuniram nesta quinta-feira (7), por cerca de três horas, na Casa Branca, em Washington DC, nos Estados Unidos. Foi o primeiro encontro entre os presidentes brasileiro e americano desde a reunião na Malásia, em outubro de 2025.
Não houve declarações conjuntas sobre a reunião. O presidente americano disse na rede social Truth Social que a reunião foi produtiva, classificando Lula como “muito dinâmico”. Já o brasileiro falou com jornalistas na Embaixada do país em Washington sobre os assuntos tratados.
Neste texto, o Nexo contextualiza e explica os principais pontos da reunião entre Lula e Trump na Casa Branca.
A reunião entre Lula e Trump vinha sendo negociada desde janeiro. O governo brasileiro chegou a cogitar a possibilidade de ocorrer em março, mas foi adiada por causa da guerra israelo-americana contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro.
Encontro com o presidente dos Estados Unidos, @POTUS, em Washington.
🎥 @ricardostuckert pic.twitter.com/bfg2qqYxIg
— Lula (@LulaOficial) May 7, 2026
Agora, o encontro ocorre num momento delicado para os dois presidentes. Lula tem sofrido derrotas políticas no Congresso Nacional, como a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto ao projeto de lei da dosimetria, que reduz penas dos condenados por crimes cometidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Pesquisas recentes têm mostrado avaliação negativa do governo. O momento atual contrasta com o auge do tarifaço e da tensão diplomática em julho de 2025, quando a postura do brasileiro, defendendo a soberania nacional, rendeu um pico de popularidade.
42%
foi a avaliação negativa do governo Lula em pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de abril; outros 31% avaliam positivamente e 26%, regular, e apenas 1% não soube responder
As pesquisas também têm observado o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e pré-candidato ao Planalto, consolidar-se como principal adversário eleitoral de Lula, empatando tecnicamente com o atual mandatário. A eleição está marcada para 4 de outubro.
Já Trump lida com a queda de popularidade por causa da guerra no Irã e dos resultados da economia americana. O tarifaço já vinha impactando a imagem do republicano, mas o conflito no Oriente Médio o pressionou ainda mais — o que preocupa o governo diante das midterms, eleições de meio de mandato, previstas para 3 de novembro.
Desde que retornou à Casa Branca para o segundo mandato, o republicano tem buscado ampliar o acesso dos Estados Unidos às chamadas terras raras e reduzir a dependência da China, que tem as maiores reservas desses minerais e domina quase toda a cadeia produtiva.
O Brasil tem a segunda maior reserva desses recursos, considerados estratégicos para a economia global, por serem usados na fabricação de bens como carros elétricos, computadores e componentes necessários à transição energética e à indústria da defesa.
Ao longo do segundo mandato, Trump também tem consolidado alianças estratégicas com governos de direita e de extrema direita da América Latina, como Argentina, Equador e Paraguai, com os quais firmou acordos militares.
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Em março, o governo americano anunciou uma iniciativa de cooperação com países da região, chamada de Escudo das Américas, com o objetivo de lidar com cartéis de narcotráfico. Brasil, Colômbia e México, que lidam com o problema, mas têm governos de esquerda ou centro-esquerda, não foram convidados a se juntar.
Ao mesmo tempo, Trump se reuniu em fevereiro com o presidente colombiano, Gustavo Petro, após acusações e críticas mútuas. O americano também conversou em janeiro, por telefone, com a presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, após a intervenção e captura de Nicolás Maduro, preso nos EUA. Ela foi convidada a visitá-lo em Washington.
Na reunião com Trump, Lula afirmou que o Brasil está aberto a parcerias internacionais sobre minerais de terras raras, mas descartou a possibilidade de o país ser um mero exportador.
“Não temos preferências. O que queremos é fazer parceria. Quem quiser participar conosco para ajudar a fazer a mineração está sendo convidado para ir ao Brasil. Isso é permitido pela regulação que foi feita ontem [quarta-feira (6)] e deve ser aprovada hoje [quinta-feira (7)] no Senado”, disse Lula.
“O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas. Nós queremos que o Brasil seja o grande criador dessa riqueza que a natureza nos deu”
Luiz Inácio Lula da Silva
presidente da República, em declaração nesta quinta-feira (7)
Lula se referiu à aprovação, pela Câmara dos Deputados, na quarta-feira (6), do projeto de lei nº 2.780/24, que institui uma política nacional de minerais críticos e estratégicos. A proposta cria, entre outras coisas, um fundo garantidor de R$ 5 bilhões para estimular projetos na área e um conselho nacional, vinculado à Presidência, para assessorar a formulação de políticas voltadas ao desenvolvimento do setor.
A proposta foi aprovada em meio ao avanço dos EUA sobre recursos brasileiros. Em abril, por exemplo, a empresa americana US Rare Earth comprou uma parte da mineradora Serra Verde, que explora terras raras em Goiás.
Nesse contexto, Flávio Bolsonaro pediu, em março, na CPAC (Ação Política Conservadora, da sigla em inglês), evento da extrema direita mundial, “pressão diplomática” dos EUA nas eleições brasileiras, dizendo que o “Brasil é a solução para que os EUA não dependam da China”.
Pré-candidato a presidente, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) assinou em abril, antes de deixar o governo, um memorando de entendimento com os EUA para promover pesquisa e exploração de minerais críticos no estado, embora a exploração desses minerais seja da competência da União.
Lula disse que Trump não citou o Pix na reunião desta quinta (7).
“Ele não falou do Pix, e eu também não”
Luiz Inácio Lula da Silva
presidente da República, em declaração nesta quinta-feira (7)
Trump também não tratou da investigação comercial dos EUA contra o Brasil, mas disse que o país sul-americano está cobrando mais impostos aos americanos, segundo Lula. O petista disse que sugeriu a formação de um grupo de trabalho bilateral para encontrar uma solução para o tema em 30 dias.
Lula se refere à investigação aberta pelos EUA sobre o Brasil em 2025 por supostas irregularidades comerciais. A Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 autoriza o presidente americano a tomar medidas contra países que violem regras internacionais de comércio ou adotem medidas que restrinjam o comércio com o país. Dentre outros pontos, a investigação cita o Pix e a rua 25 de Março, em São Paulo.
A investigação foi aberta após Trump impor tarifas de 50% aos produtos brasileiros, sob justificativa política. Posteriormente, o presidente americano suspendeu as sobretaxas contra o Brasil. Em fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou as tarifas que atingiam produtos brasileiros. Dias depois da decisão, Trump reafirmou que seu governo seguia investigando o Brasil por supostas práticas comerciais desleais.
O combate a organizações criminosas e ao narcotráfico também entrou na pauta da reunião. Lula afirmou ter proposto a Trump a criação de um grupo internacional de combate ao crime organizado, envolvendo países da América Latina e “quiçá de todo o mundo”.
O presidente brasileiro disse que não tratou da ideia americana de designar facções como organizações terroristas, mas apresentou as ações que o governo está conduzindo sobre o assunto, reforçando a proposta de cooperação no combate ao crime organizado.
“Muitas vezes os EUA falavam em combater o crime organizado com bases militares em outros países, quando, na verdade, para fazer com que outros países deixem de fabricar o que chamamos de droga, é preciso criar alternativas econômicas para esses países”, disse.
O governo brasileiro propôs no encontro uma cooperação com os EUA em segurança pública, que inclui colaboração no combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro. Nesse sentido, o Brasil implementou também a Lei Antifacção (lei nº 15.358/26), que endurece penas contra facções criminosas.
Nesta quinta (7), a gestão Lula também apresentou à administração Trump o plano de combate ao crime organizado que deve ser lançado na terça-feira (12). A proposta, que prevê investimento de R$ 960 milhões em 2026, inclui:
Esse tema é uma preocupação para Lula em ano eleitoral, não só porque a segurança pública pressiona negativamente a avaliação do governo, mas por causa da possibilidade de o governo americano designar as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas.
Se concretizada, a medida abriria brecha para intervenções militares e financeiras americanas no território brasileiro e daria aos bolsonaristas um mote para ser explorado durante a campanha eleitoral.