A 1ª vez que um candidato ao STF foi reprovado em 132 anos

O Advogado-Geral da União, Jorge Messias, em sabatina na CCJ do Senado. Ele é um homem branco de cabelo e barba preta. Usa terno preto e camisa branca. Está sentado e segura a Constituição com as mãos

O Advogado-Geral da União, Jorge Messias, em sabatina na CCJ do Senado

O Senado reprovou na quarta-feira (29) o nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Foi a primeira vez que a Casa Alta barrou a indicação de um ministro desde 1894, no governo de Floriano Peixoto. A rejeição dos senadores é lida politicamente como uma derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

34 a 42

foi o placar da votação no plenário do Senado; para ser aprovado, Messias precisava da maioria absoluta da Casa, ou seja, 41 votos 

Messias foi rejeitado após uma sabatina de oito horas na Comissão de Constituição e Justiça. O advogado-geral da União passou pelo escrutínio dos senadores cinco meses depois de ter sido escolhido por Lula, em novembro de 2025. Pesou na derrota a articulação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), insatisfeito com a indicação. 

Neste texto, o Nexo mostra como foi a sabatina de Messias e analisa o que a rejeição significa para Lula e sua relação com o Senado. 

O que marcou a sabatina

A sabatina de indicados ao Supremo na Comissão de Constituição e Justiça do Senado serve para que os parlamentares avaliem se o nome escolhido pelo presidente tem reputação ilibada e notório saber jurídico. Os membros do colegiado se inscrevem para fazer perguntas ao sabatinado. 

Formado em direito pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e mestre e doutor pela UnB (Universidade de Brasília), Messias tem 46 anos, é servidor de carreira da Advocacia-Geral da União e procurador da Fazenda Nacional desde 2007. Também atuou como subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil no governo de Dilma Rousseff (PT). 

O advogado-geral da União, Jorge Messias, durante sabatina na CCJ do Senado. Ele é um homem branco, de barba e cabelos pretos, usar terno preto e camisa branca e está sentado falando em um microfone

O advogado-geral da União, Jorge Messias, durante sabatina na CCJ do Senado

No discurso de apresentação aos senadores, Messias falou de sua trajetória, destacando que o período como subchefe para Assuntos Jurídicos no governo Dilma foi “desafiador”. Na época, seu nome ficou nacionalmente conhecido num telefonema entre a então presidente da República e Lula, vazado no âmbito da Operação Lava Jato. 

“O Bessias vai levar aí o papel pra você, você assina só em caso de necessidade”
Dilma Rousseff
ao citar Messias como o emissário que levaria o termo de posse para Lula assumir a Casa Civil em 2016; o episódio ficou conhecido como “Bessias”, e a nomeação de Lula para a pasta foi barrada

Indicado por Lula como forma de aceno ao eleitorado evangélico, que rejeita o petista, Messias também falou de sua criação numa família religiosa. Ele garantiu que, caso fosse aprovado ao Supremo, sua atuação seria “discreta”. 

“Sou um servo de Deus. Para mim, ser evangélico é uma bênção, não um ativo. Minha identidade é evangélica. Todavia, eu tenho plena clareza de que o Estado constitucional é laico”
Jorge Messias
advogado-geral da União

em sabatina no Senado, sobre sua fé evangélica 

Questionado por Weverton Rocha (PDT-MA), Messias disse ser contrário ao aborto, que definiu como uma “tragédia humana em qualquer circunstância”. Apesar disso, afirmou que é necessário respeito ao que está previsto em lei (o aborto é permitido no Brasil em casos de risco de vida à mãe, estupro ou anencefalia), e é competência do Congresso legislar sobre o tema. 

O advogado-geral também respondeu a perguntas sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023. Indagado sobre as condenações dos envolvidos, ele disse que pediu sua prisão em flagrante por dever de ofício, pois seu papel no cargo é defender o patrimônio federal. 

“O 8 de janeiro é um dos episódios mais tristes da história recente, e fez muito mal ao país”
Jorge Messias
advogado-geral da União

em sabatina no Senado, sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023

Com o Supremo sob uma crise de confiança aprofundada pelas revelações do caso Master, os senadores perguntaram ainda se Messias é a favor ou contra o código de conduta para a corte, principal bandeira do presidente Edson Fachin.

“Meu primeiro código de ética é a Constituição. O segundo é a minha formação, e o terceiro, meu currículo. Mas digo com tranquilidade que qualquer medida de aperfeiçoamento do Poder Judiciário em prol da sociedade brasileira terá de mim apoio total
Jorge Messias
advogado-geral da União

em sabatina no Senado, sobre a instauração de um código de conduta aos ministros do Supremo

A tese de doutorado defendida por Messias na UnB foi outro tema de perguntas de parlamentares da oposição, como Sergio Moro (PL-PR). No texto, o advogado-geral criticou o monopólio das empresas que operam as redes sociais, disse que o Brasil passou por um período de “ultraliberalismo” sob Jair Bolsonaro (PL) e chamou o impeachment de Dilma de “golpe”. 

Na sabatina, Messias afirmou que a qualificação do afastamento como golpe é uma “visão política de parte da sociedade que assim o entendeu” e está dentro da liberdade e do contexto acadêmico. “Não desqualifico o sistema institucional conduzido pelo parlamento. Coloco a expressão como crítica política ao processo”, disse. 

Após as perguntas, Moro antecipou que votaria contra a indicação. “Temos uma eleição logo mais, e o STF será o tema das eleições. Deixemos para o próximo presidente a próxima escolha. Lula não cumpriu a promessa de não indicar pessoas próximas a ele [para o Supremo]”, disse.

Rogério Carvalho (PT-SE) rebateu o colega, chamando a manifestação de “autoritária”. “Algum senador abriria mão de votar num candidato ao Supremo hoje por estar no fim do mandato? O povo delegou poderes plenos a um presidente por quatro anos. Nós não podemos normalizar esse tipo de atitude num parlamento.” 

As articulações de Alcolumbre

Após a indicação de Messias ao Supremo, Alcolumbre demonstrou insatisfação com a escolha de Lula, defendendo, no lugar, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Para o presidente do Senado, a indicação do colega, ex-presidente da Casa, seria um aceno de “agradecimento” aos senadores, que, até então, geravam menos instabilidade ao governo que a Câmara dos Deputados. 

O presidente do Senado Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) em sessão deliberativa

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), em sessão deliberativa

Alcolumbre tomou várias decisões incomuns desde a indicação. Primeiro, acelerou a tramitação do processo, dizendo que a sabatina de Messias no Senado seria em dezembro de 2025 — o que deixaria poucos dias para o AGU defender seu nome junto aos parlamentares. Depois, voltou atrás.

O recuo deu tempo para que, nos meses seguintes, o governo costurasse um acordo político a fim de que Lula garantisse a aprovação, contando com a ajuda de nomes como André Mendonça, ministro do Supremo indicado por Bolsonaro. Assim como Messias, o magistrado é abertamente evangélico. 

Para Felipe Recondo, jornalista e escritor considerado referência na cobertura do Supremo, o longo período de negociações foi negativo para Messias. “Para o processo de indicação de um ministro, isso não é bom. Não faz bem para o tribunal e fragiliza o processo”, disse em entrevista ao Nexo em 22 de abril.

Após meses de conversas, Lula enviou a indicação formal de Messias ao Senado em 1º de abril. Na época, o movimento foi lido como uma garantia de que o AGU teria votos suficientes, num acerto com Alcolumbre.

O governo deu mais um passo a favor de Messias nas vésperas da sabatina. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o Executivo negociou com o presidente do Senado a liberação de emendas parlamentares e a indicação de cargos em agências reguladoras.

Mesmo assim, a Casa impôs a derrota. Informações de bastidores publicadas pela imprensa dão conta de que Alcolumbre pediu a colegas que votassem pela rejeição de Messias na quarta (29) – o que o senador nega.

“Se, por um lado, essa é uma derrota muito grande para o governo, por outro, é uma vitória muito grande para Alcolumbre”, afirmou ao Nexo o cientista político Daniel Máximo, consultor da Metapolítica Consultoria. “Ao que tudo indica, ele mostra ao governo que consegue contornar direcionamentos do Executivo.” 

Qual peso da derrota 

Messias se manifestou após a rejeição pelo Senado. Disse que é grato pelos votos que recebeu e se submeteu à sabatina de “coração aberto e alma leve”. 

“Falei a verdade, o que penso, o que sinto. A vida é assim. Tem dias de vitórias e derrotas. Nós temos que aceitar. O plenário do Senado é soberano”
Jorge Messias
advogado-geral da União

sobre a rejeição de seu nome para a vaga no Supremo

Ao saber da votação, Lula disse que, como presidente, tem o direito de indicar o ministro do Supremo, enquanto o Senado tem a prerrogativa de rejeitar a indicação, segundo apuração de bastidores da jornalista Natuza Nery, do canal GloboNews. Ele ainda não havia feito declarações públicas sobre a derrota até a publicação deste texto.

Senadores de oposição após resultado da sabatina de Jorge Messias na CCJ do Senado. Eles estão em pé e comemoram

Senadores de oposição após resultado da sabatina de Jorge Messias na CCJ do Senado

O presidente também sinalizou nos bastidores que não enviaria outra indicação ao Supremo em caso de derrota de Messias, segundo o jornal O Globo. Se isso se confirmar, a corte deve ficar com apenas 10 ministros até o fim de 2026, quando se encerra o atual mandato do petista. 

Para Álvaro Jorge, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) Direito Rio, “a rejeição de um nome para o Supremo é sempre uma possibilidade. Isso faz parte do modelo. Em relação ao processo em si, não é bom, nem é ruim. É o processo funcionando”.

“O Senado não rejeitava nenhum dos nomes. Após 1988, [a sabatina] era considerada apenas um rito de passagem. Este é um caso que demonstra que o Senado tem o poder de discordar e não aprovar o nome indicado pelo presidente”, afirmou ao Nexo

Já Vitor Sandes, professor do curso de ciência política da UFPI (Universidade Federal do Piauí) e coordenador do GPPOL (Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Partidos Políticos), disse a reprovação de Messias marca um novo momento do Congresso, mais reativo ao Executivo e, particularmente, a governos de centro-esquerda. 

“Essa derrota, ainda mais num momento tão próximo das eleições, tem um significado simbólico bastante importante. Indica que, para conseguir vitórias no Congresso e, particularmente, no Senado Federal, é preciso alinhar com as lideranças do centrão. Sem isso, o governo não tem votos suficientes para aprovar sua agenda nem suas indicações ao Supremo”, disse ao Nexo