Como obras de Socorro Acioli viralizaram entre jovens leitores

Socorro Acioli em entrevista para a TV Brasil

Socorro Acioli em entrevista para a TV Brasil

“Cabeça do santo” (2014) e “Oração para desaparecer” (2023), da autora cearense Socorro Acioli, ganharam forte repercussão nas redes sociais, especialmente entre o público jovem. Ambas as obras estão entre as principais recomendações de “booktokers”, influenciadores literários no TikTok. 

Com enredos que transitam entre o misticismo, a religiosidade e a ancestralidade, os livros — que já haviam estado entre os três mais vendidos da Flip (Festa Literária de Paraty) de 2023 — passaram a figurar entre os mais procurados na Amazon após a onda de visibilidade digital. Para especialistas, o fenômeno é resultado da escrita estética e simbólica de Acioli, capaz de gerar identificação com os jovens leitores.

Neste texto, o Nexo mostra a repercussão de ambas as obras nas redes sociais e analisa por que os enredos de Acioli chamam a atenção desse público.

Quem é Socorro Acioli

Nascida em Fortaleza (CE), Socorro Acioli é mestre em literatura pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e doutora em estudos de literatura pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Atualmente, dedica-se à escrita e atua como professora na Unifor (Universidade de Fortaleza). Ao todo, já soma mais de 20 obras publicadas.

Um de seus sucessos no TikTok, “Cabeça do santo” marcou a estreia da autora na literatura voltada ao público adulto. Até então, ela se dedicava principalmente à literatura infantil e juvenil, área em que foi reconhecida e premiada com o Jabuti por “Ela tem olhos de céu” (2012).

Ambientado no sertão do Ceará, o romance narra a trajetória de Samuel — jovem que, após a morte da mãe, decide procurar a avó e o pai. Determinado a encontrá-los, ele caminha de Juazeiro do Norte (CE) até a cidade fantasma de Candeia, enfrentando fome e desidratação.

Ao chegar e fracassar na primeira tentativa de contato com a avó, Samuel passa a dormir na rua. É então que encontra a cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio. Sem alternativa, ele se refugia dentro dela e começa a ouvir vozes femininas e súplicas amorosas, que dão início à dimensão fantástica da narrativa.

Outro sucesso de Acioli, “Oração para desaparecer” também explora o sobrenatural e as incertezas que cercam a vida e a morte, enfatizando os recomeços e os afetos. A trama se passa entre Portugal e o Brasil — mais especificamente, a região de Almofala, distrito de Itarema (CE) — e acompanha quatro personagens: Cida, Jorge, Joana e Miguel.

Cida é encontrada por um casal após escapar de um perigo iminente. Sem memória do passado, ela tenta reconstruir sua identidade num território desconhecido, tendo a língua portuguesa como único ponto de apoio. Nesse processo, ela conhece Jorge, que se apaixona por ela e a ajuda na busca por pistas sobre quem foi.

Paralelamente, a narrativa acompanha Joana, fantasma de um amor antigo de Miguel. À medida que as histórias avançam, esses afetos se entrelaçam, compondo uma trama que atravessa magia, ancestralidade e pertencimento.

A febre nas redes sociais

O sucesso de Acioli não é recente. Em maio de 2025, a autora alcançou 200 mil exemplares vendidos pela Companhia das Letras, número que reúne tanto seus romances mais recentes quanto obras infantojuvenis publicadas pela editora, como “A bailarina fantasma” (2015). 

Na Flip de 2023, dois de seus romances figuraram entre os três mais vendidos: “Oração para desaparecer” ficou em primeiro lugar e “Cabeça do santo”, em terceiro.

A repercussão extrapolou o circuito literário tradicional e ganhou força nas redes. As obras de Acioli passaram a ocupar espaço em conteúdos produzidos pela comunidade “BookTok” — fenômeno que, além de impulsionar vendas, tornou-se um estímulo importante à leitura entre jovens.

Parte dos vídeos de recomendações e resenhas das obras de Acioli ultrapassam 35 mil curtidas e acumulam milhares de visualizações no TikTok. 

@jucasares2

Faz tempo que eu nao lia um livro bom assim! Pode confiar e começar “Oraçao para desaparecer” #booktokbrasil #booktok #oracaoparadesaparecer #dicadelivro

♬ original sound – Xuliana

As obras também aparecem em vídeos de personalidades conhecidas, como Fátima Bernardes, que compartilha recomendações literárias em formato semelhante ao dos “booktokers”.

@fatimabernardes

Escolhi um trechinho do livro ‘A Cabeça do Santo’, de @socorroacioli, pra compartilhar com vocês. Esse é o segundo livro dela que leio. Achei mais uma vez muito instigante, envolvente. Li em poucas horas, tão presa à história que não conseguia parar! Esse trecho ficou na minha cabeça e achei que seria uma ótima ideia dividir esse momento de leitura com vocês. Gostaram? 😘

♬ som original – Fátima Bernardes

Bastidores e entrevistas sobre o processo criativo da autora também ganharam destaque na plataforma, ampliando o debate entre criadores sobre a sociedade brasileira.

@leiacombianca

#livrostiktok #booktok #booktokbrasil #acabecadosanto

♬ som original – leiacombianca

Por que Acioli desperta o interesse jovem

Um dos fatores que explicam o interesse jovem pelas obras de Acioli é sua construção simbólica aliada a uma linguagem direta e acessível. Para Claudicelio Rodrigues, professor adjunto de literatura brasileira da UFC, a escrita da autora é ágil e marcada por uma sintaxe sem excessos.

“A linguagem que ela utiliza não ergue uma espécie de muro que impeça esses leitores de entrar no universo de realismo mágico que ela constrói. Isso permite que eles mergulhem de cabeça na história”, afirmou ao Nexo.

Os recursos fantásticos da autora também são um elemento de atração. Rodrigues afirmou que Acioli transporta para os romances procedimentos que já utilizava na literatura infantil — como a personificação de objetos e a presença de fenômenos naturais carregados de mistério.

“No caso da literatura para adultos, você se apropria do real a partir de uma perspectiva factível e o reconstrói, ou lhe dá um novo colorido, ao inserir nele a fantasia, o mágico e o fantástico”, disse.

A identificação dos leitores também pode se explicar pela familiaridade cultural com os elementos de Acioli. “Temos, na nossa formação, uma espécie de enciclopédia de fantasia presente nas histórias que chegaram até nós. Isso, misturado aos saberes ancestrais no Brasil e à força do fantástico que emerge da religiosidade popular — e não apenas da religião católica oficial —, forma um caldeirão que romances como os da Socorro utilizam a seu favor”, afirmou Rodrigues.

 

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Um post compartilhado por Socorro Acioli (@socorroacioli)

Além disso, tanto “Cabeça do santo” (2014) quanto “Oração para desaparecer” partem de motes inspirados em fatos reais, o que exige pesquisa sobre acontecimentos transformados em lendas, estudo da oralidade local e criatividade para entrelaçar esses elementos em narrativas envolventes. “Ela parte do real e do mágico, que já estão entranhados na história acontecida, e os narra de modo a torná-los mais maleáveis à perspectiva do realismo mágico.”

A articulação entre linguagem, enredo e temática resulta em romances de leitura fluida — característica valorizada por leitores fora do meio acadêmico —, segundo o professor. Essa dinâmica aproxima o trabalho de Acioli de uma estética cinematográfica. “Ela tem uma forma de escrever essencialmente imagética”, afirmou.

“Cabeça do santo” está em processo de adaptação para os cinemas. Na segunda-feira (2), Acioli confirmou o início da produção do longa, que terá a atuação de Antônio Pitanga no elenco principal.

Uma construção plural

Para Rodrigues, a leitura de obras que dialogam com o realismo mágico — não apenas de Acioli — contribui para um conhecimento plural e desmistificador. 

Obras como “Redemoinho em dia quente” (2019), de Jarid Arraes, por exemplo, desconstroem a ideia do sertão como regional, enquanto trabalhos como “Gótico nordestino”, de Cristhiano Aguiar, valorizam estéticas do interior do país. Essas produções ajudam a disseminar “a estética do Brasil profundo, ao invés de falar da estética do regional”, segundo ele. 

O contato com essas obras também favorece o autoconhecimento. “Essas obras trazem um realismo mágico, mas, no fundo, elas nos ajudam a encontrar nossas fantasmagorias, os nossos problemas de ordem subjetiva, que também são de ordem coletiva, política e social”, disse o professor.

Para ele, o interesse juvenil ultrapassa o entretenimento. “Muito possivelmente, esses jovens, fora do ambiente acadêmico, estão querendo ler não só para se entreter, mas para entender essa riqueza, esse Brasil colorido. Acho que é uma redescoberta do Brasil”, afirmou.