
Elon Musk durante o Fórum Econômico Mundial
Elon Musk anunciou na segunda-feira (2) que a SpaceX, sua empresa de foguetes, vai adquirir a xAI, sua startup de inteligência artificial. O bilionário sugeriu que a fusão vai possibilitar a construção de data centers orbitais.
US$ 1,250 trilhão
é o valor estimado da transação, segundo a agência de notícias Reuters
A aquisição pode fortalecer as ambições de Musk na corrida pela inteligência artificial no espaço. Outras empresas também têm dado passos nesse sentido.
Neste texto, o Nexo explica a dimensão das empresas SpaceX e xAI, fala sobre o plano de construir data centers orbitais e contextualiza o momento de Musk.
A SpaceX é uma empresa aeroespacial criada por Musk em 2002. Uma de suas principais inovações foi a criação de foguetes reutilizáveis, que tornaram as missões espaciais mais baratas. A companhia também construiu o primeiro foguete de combustível líquido a chegar à órbita da Terra com financiamento privado e foi a primeira empresa privada a transportar seres humanos para a Estação Espacial Internacional.

Foguete Falcon 9, da SpaceX, sendo lançado
No fim dos anos 2010, a SpaceX desenvolveu a Starlink, projeto de constelação de satélites de baixo custo e alto desempenho. A plataforma oferece conexão de internet para cidades e áreas remotas com pouca ou nenhuma estrutura, além de funcionar em movimento, em meios de transporte como aviões, barcos e carros.
A SpaceX é uma potência no setor aeroespacial. A empresa fornece diversos serviços para a Nasa, a agência aeroespacial americana, o Departamento de Defesa do país e outros órgãos. É a companhia de capital fechado (não listada na bolsa de valores) mais valiosa do mundo.
US$ 800 bilhões
é o valor de mercado da SpaceX
Já a xAI é uma startup de inteligência artificial fundada por Musk em março de 2023. A empresa desenvolveu em novembro do mesmo ano o Grok, uma IA generativa integrada à rede social X (ex-Twitter). A partir de comandos dos usuários, o chatbot é capaz de gerar respostas em texto ou em imagens. Em março de 2025, Musk vendeu o X para a xAI.
US$ 230 bilhões
é o valor de mercado da xAI
Musk entrou mais tarde na corrida da inteligência artificial do que seus principais concorrentes. O empresário foi um dos fundadores da OpenAI, em 2015, mas deixou o negócio três anos depois. A empresa ficou famosa após a criação do ChatGPT, a partir de 2020. O Gemini, IA generativa do Google, foi criado em março de 2023.
A SpaceX solicitou na sexta-feira (30) à FCC (Comissão Federal de Comunicações americana) a permissão para lançar 1 milhão de satélites que funcionarão como “data centers orbitais”. A empresa afirmou que os implantará em órbitas com altitude entre 500 e 2.000 km e inclinações de 30 graus.
Data centers — ou centros de dados — são grandes armazéns que abrigam inúmeros computadores. Eles armazenam e processam imensas quantidades de dados utilizados por sites, empresas e governos.
Empresas têm alegado problemas para a instalação de data centers em solo terrestre, como a disponibilidade de terrenos com bom acesso à energia solar e à água, além da resistência popular à sua instalação por causa de seus impactos ambientais e nos serviços públicos.
Nesse contexto, o processamento no espaço poderia reduzir o custo de geração do poder computacional usado para operar e treinar modelos de IA, segundo a agência de notícias Reuters.
Isso porque a instalação de data centers na órbita da Terra possibilita acesso contínuo à luz solar, sem problemas de disponibilidade de terrenos para construir e manter os centros. Além disso, as transferências de dados entre dois pontos no espaço são mais rápidas do que na superfície terrestre.
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Em 2024, Thales Alenia Space, uma joint venture entre o grupo espacial francês Thales e o italiano Leonardo, divulgou os resultados do Ascend, um estudo financiado pela Comissão Europeia sobre a viabilidade de data centers instalados na órbita terrestre.
O documento diz que a instalação de data centers no espaço é “mais ecológica” e “poderá transformar o cenário digital europeu”. Mas, para isso, será necessário fazer com que os lançadores de foguetes emitam 10 vezes menos gás carbônico durante sua vida útil.
A viabilidade comercial desses centros ainda é uma incógnita. Os principais desafios são os custos de lançamento — visto que as estruturas são lançadas aos pedaços e construídas no espaço por robôs —, os riscos relacionados ao lixo espacial — como o choque com poeira e restos de satélites — e os custos de manutenção das instalações.
Para Daniel Barreiros, professor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a real motivação dos projetos de data centers orbitais é geopolítica. “Quando o sistema internacional entra em fase de crise, a tendência é as potências anunciarem de modo precoce coisas que não são necessariamente factíveis. Isso coloca o oponente na berlinda”, disse ao Nexo.
Data centers orbitais buscam contornar restrições energéticas e reforçar a segurança de dados, segundo ele. Se a competição por sua construção continuar acirrada, esses equipamentos devem ser instalados dentro de 10 a 20 anos.
“Construir isso fora do espaço territorial de um país impede a intervenção física ou a interferência política”, acrescentou o professor. “Esses data centers vão operar numa zona quase cinzenta em termos jurídicos.”
O único acordo que trata do assunto é o Tratado do Espaço Sideral (ou do Espaço Exterior) de 1967. Segundo a norma, o Estado que lança um ativo no espaço — como foguete ou satélite — é responsável por ele, mas não pode reivindicar a soberania do espaço orbital.
Musk é o homem mais rico do mundo, com fortuna avaliada em US$ 775 bilhões, segundo o ranking da revista americana Forbes. Além da SpaceX e xAI, ele é dono da empresa automotiva Tesla, da construtora de túneis The Boring Company e da neurotecnológica Neuralink.
O empresário, no entanto, enfrentou desgastes após suas incursões políticas no governo de Donald Trump, ao comandar, em 2025, o Doge (Departamento de Eficiência Governamental), que fez uma devassa na máquina pública americana, acabando com agências e promovendo demissões em massa.
A Tesla foi alvo de protestos nos EUA e em países da Europa e perdeu valor de mercado. Ao longo de 2025, Musk chegou a perder o posto de homem mais rico do mundo, mas o recuperou.
O bilionário não foi o primeiro a anunciar a empreitada dos data centers. O Google anunciou em novembro de 2025 que estava trabalhando em um projeto de centros de dados no espaço e começaria a realizar testes em 2027. A Meta, a Amazon e a OpenAI também têm estudado essa possibilidade.