A investida dos EUA é interferência nas eleições do Brasil?

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou na quarta-feira (3) Marco Rubio, após as declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos dizendo que o Brasil não é amigável e do anúncio por parte do governo americano de novas tarifas ao Brasil.

O petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente, também trocaram acusações sobre quem provocou o novo tarifaço. Autoridades do governo americano, alinhadas ao bolsonarismo, anunciaram diversas medidas nos últimos dias que impactam a política brasileira. Os dois são hoje os principais concorrentes na disputa eleitoral de 4 de outubro. 

Neste texto, o Nexo resume as medidas americanas recentes contra o Brasil, mostra a guerra de narrativas entre Lula e Flávio Bolsonaro e analisa essas ações às vésperas da disputa eleitoral brasileira.

As medidas dos EUA contra o Brasil

Entre 28 de maio e 2 de junho, o governo dos Estados Unidos anunciou diversas medidas que impactam diretamente o Brasil. A ofensiva ocorre a quatro meses das eleições.

A primeira medida foi a designação por parte do Departamento de Estado americano, comandado por Marco Rubio, das facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. A medida abre margem para intervenções militares e financeiras dos EUA no Brasil.

Já na segunda-feira (1º), o USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) propôs uma sobretaxa geral de 25% sobre produtos brasileiros, sob o argumento de que o país mantém práticas comerciais “irrazoáveis”. A investigação cita o Pix e ações do Supremo Tribunal Federal contra redes sociais americanas.

Um dia depois, o mesmo órgão propôs uma nova tarifa ao Brasil de 12,5%, como parte de uma investigação comercial aberta sobre falhas no combate ao trabalho escravo.

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As duas investigações são baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio, de 1974, que autoriza o presidente a tomar medidas contra países que adotem medidas prejudiciais ao comércio americano. Relatórios preliminares das investigações propuseram a aplicação de tarifas. A decisão de aplicá-las ou não, no entanto, cabe a Donald Trump.

Na terça-feira (2), Trump publicou na rede social Truth Social uma imagem da visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato a presidente, à Casa Branca no fim de maio, com a mensagem: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!”.

Rubio afirmou também na terça-feira (2), numa audiência no Senado americano, que o Brasil não faz parte do grupo de nações consideradas amigáveis aos interesses dos EUA no Hemisfério Ocidental. Ele destacou ainda que o país está “no meio de um ciclo eleitoral”.

“Com exceção da Nicarágua, com exceção de Cuba, obviamente com exceção da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e, claro, do Brasil, embora estejam no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, do atual governo da Colômbia também — pelo menos o presidente tem sido problemático — mas, de modo geral, [o Hemisfério Ocidental] é agora uma região repleta de aliados dos Estados Unidos, de líderes amigos dos Estados Unidos e com uma orientação favorável aos Estados Unidos”

Marco Rubio

secretário de Estado dos EUA, em audiência no Senado americano, na terça-feira (2)

O Hemisfério Ocidental corresponde às Américas do Norte, Central e do Sul, além da Groenlândia, que é uma região autônoma da Dinamarca.

Em resposta à declaração, Lula afirmou na quarta-feira (3), durante reunião ministerial, que Marco Rubio não gosta da América Latina, tampouco do Brasil. “É um latino-americano frustrado”, disse, em referência ao fato de o secretário de Estado ser filho de imigrantes cubanos.

A guerra de narrativa

As medidas dos EUA se tornaram combustível retórico em ano eleitoral no Brasil. Enquanto o governo Lula e o PT associam os anúncios americanos — que podem impactar diretamente a economia brasileira — à família Bolsonaro, Flávio e os bolsonaristas buscam se desvincular da associação, acusando Lula de ser o culpado.

“Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele. São, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores”, afirmou Lula num evento em Catalão, em Goiás, na terça-feira (2).

“Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merecem os traidores da pátria, que vão pedir intervenção de um país no nosso país?”

Luiz Inácio Lula da Silva

presidente da República, em declaração na terça-feira (2); na verdade, o enforcado foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em 1792

Petistas passaram a usar a expressão “tariflávio” nas redes sociais.

Flávio, por sua vez, disse que pediu expressamente a Trump que não aplicasse tarifas ao Brasil. “Precisamos sentar de maneira séria na mesa de negociação, não com bravatas, como faz Lula”, declarou em entrevista na terça-feira (2) à Rádio Itatiaia.

A pré-campanha do senador também decidiu entrar com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra o presidente, acusando-o dos crimes de ameaça e incitação ao crime.

Donald Trump e Flávio Bolsonaro após encontro na Casa Branca

Os anúncios americanos sobre as tarifas e a classificação do PCC e do CV como terroristas ocorreram pouco depois da visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca, entre os dias 26 e 27 de maio. Na ocasião, o senador afirmou que pediu pessoalmente a Trump e a Rubio, em reuniões diferentes, que designassem as facções dessa forma.

O governo americano analisava a medida desde maio de 2025 e desde então, ela se tornou uma bandeira bolsonarista para a segurança pública. O tema é uma das principais preocupações dos brasileiros nas eleições de 2026, segundo pesquisas de opinião.

A viagem de Flávio ocorreu num momento de desgaste por causa das revelações do site The Intercept Brasil sobre sua relação com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, que está preso.

Antes da visita de Flávio, Lula se reuniu com Trump no dia 7 de maio. Na época, o presidente brasileiro disse que a conversa entre os dois versou sobre temas como terras raras e combate às organizações criminosas e ao narcotráfico. Ele afirmou que não tratou com Trump do Pix ou da classificação de facções brasileiras como grupos terroristas.

O petista também se encontrou com o presidente americano em busca de uma agenda positiva após o desgaste da rejeição pelo Senado da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

Três análises sobre a investida dos EUA

As investigações que podem resultar em tarifas ao Brasil decorrem de processos já conhecidos, cujo prazo de conclusão era iminente. A classificação de facções como organizações terroristas também estava no radar há um ano, porém não havia prazo estabelecido para a medida, que foi anunciada às vésperas da eleição.

Para Carlos Gustavo Poggio, professor de ciência política da Berea College, o governo Trump não trabalha de forma coerente, o que dificulta entender a racionalidade por trás das ações. Ele ponderou que, de modo mais amplo, os objetivos podem ser a diminuição da influência chinesa na América Latina e no Brasil e, consequentemente, a questão dos minerais de terras raras.

Poggio acrescentou que Trump enxerga as negociações internacionais como se fossem empresariais e adota, como praxe, o mecanismo de fazer o máximo de pressão para extrair concessões.

“Se é uma interferência eleitoral, é mal feita, mal pensada e mal planejada, o que é a característica, em certa medida, desse governo [de Trump]”, afirmou. “É possível que o objetivo seja conseguir uma ou outra concessão, mas, do ponto de vista estratégico, é uma estratégia muito mal desenhada”, afirmou.

Por outro lado, o professor destacou que Rubio tem uma agenda estratégica e age de modo mais claro. Ele acrescentou que a interferência aberta em outros países tende muitas vezes a surtir o efeito contrário, levando parte da população do país-alvo a ficar do lado do ator que defende a nação, como ocorreu no Canadá, na Austrália e em outros países da União Europeia.

Luiz Inácio Lula da Silva fala durante reunião ministerial

Isso também ocorreu no Brasil em 2025, quando Lula encampou a defesa da soberania como resposta ao tarifaço americano, articulado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão de Flávio, que vive nos EUA desde fevereiro de 2025. Na época, a popularidade do petista subiu, enquanto a família Bolsonaro sofreu desgastes.

Para a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), as medidas podem, sim, ser interpretadas como uma interferência americana já visando às eleições. “Não só porque é ano eleitoral, mas porque é um tipo de sanção que pode interferir na economia do país”, disse ao Nexo.

Assim como Poggio, Rocha avaliou que as novas tarifas podem ser um tiro no pé de Flávio. “Por causa de o primeiro tarifaço ter explicitamente sido feito por Trump, alegando que era uma resposta à prisão de Jair Bolsonaro, isso fez com que, no imaginário do eleitor brasileiro, essa ideia de tarifaço e filhos de Bolsonaro fossem uma coisa só”, afirmou.

Enquanto isso, o discurso da soberania e da autonomia nacional está mais associado a Lula, segundo ela.

Já Nara Pavão, professora de ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), destacou que a interferência americana em assuntos de outros países é um tema intermitente desde os anos 1960 em países latino-americanos, inclusive no Brasil.  Como tema eleitoral, no entanto, isso não tem nenhum precedente recente forte.

“O governo Trump tem pretensão de fortalecimento de um movimento internacional de políticos populistas de direita. Ele faz isso [interfere em assuntos domésticos de outros países] para fortalecer essa rede”, disse Pavão ao Nexo.

Ao mesmo tempo, ela acrescentou que a polarização despertou o interesse da população por política externa, que, por isso, naturalmente se tornou um tema das eleições. “É um fenômeno do nosso tempo”, complementou.