A atração do Vale do Silício pelo universo de Tolkien

Peter Thiel no Converge Tech Summit, em 2022

Peter Thiel no Converge Tech Summit, em 2022

O papa Leão 14 divulgou na segunda-feira (25) sua primeira encíclica – texto que aborda temas de fé ou problemas sociais dirigido a bispos e fiéis católicos –, na qual se dedicou principalmente a falar sobre a humanidade na era da inteligência artificial.

Num dos trechos, o papa trouxe uma citação de Gandalf, personagem do livro “O retorno do rei”, escrito por J. R. R. Tolkien. As obras do escritor britânico têm ganhado fãs como Elon Musk e Peter Thiel, expoentes do uso da IA.

“Não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar”

Gandalf

personagem de J. R. R. Tolkien, em fala do livro “O retorno do rei”

Neste texto, o Nexo explica de que maneira figuras do Vale do Silício e políticos conservadores aliados desses empresários se apropriam do universo de Tolkien.

Tolkien e o Vale do Silício

Peter Thiel – um dos criadores do sistema de pagamentos PayPal – fundou a Palantir, que fornece softwares e plataformas digitais para a análise de grandes quantidades de dados, em 2003. Hoje, boa parte do Departamento de Defesa americano mantém contratos com a empresa.

O nome da companhia veio da trilogia “O senhor dos anéis”. Nos livros, Palantir é uma bola de cristal que pode ver passado, presente e futuro. Thiel também se refere ao seu fundo de capital de risco, o Founders Fund, como “meu precioso” – uma referência à maneira como o personagem Gollum chama o Um Anel, artefato mágico símbolo do poder absoluto no universo de Tolkien.

10

foi a quantidade de vezes que Peter Thiel leu “O senhor dos anéis”, disse o empresário em entrevista à revista The Atlantic

Outras empresas de Thiel também receberam nomes inspirados na literatura de Tolkien, como Mithril Capital, Valar Ventures, Lembas Capital e Rivendell One LLC. As escolhas são referências, respectivamente, a um metal, criaturas míticas, um tipo de pão e uma cidade élfica.

No caso de Elon Musk, o empresário fez referência às obras de J. R. R. Tolkien em outubro em seu perfil na rede social X, da qual é dono.

“Quando Tolkien escreveu sobre os hobbits, ele se referia aos nobres habitantes dos condados ingleses, que não tinham noção dos horrores que aconteciam longe dali. Eles conseguiam viver em paz e tranquilidade, mas apenas porque eram protegidos pelos homens valentes de Gondor”, escreveu Musk, sugerindo que a trama de Tolkien poderia ser entendida como um manifesto anti-imigração.

Em outra postagem no X, Musk escreveu que “O senhor dos anéis” era seu livro favorito. Os heróis da obra e os da série “Fundação”, de Isaac Asimov – que “sentiam o dever de salvar o mundo” –, inspiraram o empresário a buscar seu propósito, disse ele em entrevista à revista The New Yorker em 2009.

Além de Elon Musk e Peter Thiel, Jeff Bezos, fundador da Amazon, é fã de Tolkien. Ele supervisionou a compra dos direitos da história de “O senhor dos anéis” pela Amazon. “Os anéis do poder”, série derivada do universo mágico, é exibida no streaming Prime Video.

US$ 250 milhões

foi o valor pago pela Amazon para adquirir os direitos para uma adaptação televisiva de “O senhor dos anéis”

Já o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, – cuja campanha eleitoral foi apoiada por bilionários do Vale do Silício – declarou em 2021 ao podcast Grounded que grande parte de sua “visão de mundo conservadora foi influenciada por Tolkien durante a infância”. Sua empresa de venture capital (capital de risco), a Narya Capital, recebeu esse nome em homenagem ao anel de fogo mágico de Gandalf.

Os usos políticos

“O senhor dos anéis” foi popular nos anos 1970 especialmente na comunidade hippie. Entre 1965 e 1971, o universo de Tolkien foi adotado como parte da cultura pop.

Ele também encontrou eco entre os anos 1960 e 1970 no Vale do Silício. Na época, hackers se identificavam com os hobbits que ajudavam a salvar a Terra Média, em oposição a grandes corporações como a IBM.

Além de nomes do Vale do Silício, as obras de J. R. R. Tolkien atraíram figuras da extrema direita global.

O Vox, partido de extrema direita espanhol, apropriou-se da iconografia de “O senhor dos anéis” em 2019. A legenda publicou no X uma imagem do guerreiro Aragorn enfrentando um grupo de inimigos – representados como grupos de esquerda, feministas e pessoas LGBTI+.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, também é conhecida por ser fã de Tolkien. Principal liderança do Fratelli d’Italia, partido nacionalista e conservador, Meloni já se referiu a “O senhor dos anéis” como um livro sagrado e, em sua autobiografia, relatou que, quando jovem, ela participou de um acampamento temático de Hobbit organizado por membros da direita fascista.

“Queremos usar a oportunidade como um incrível vulcão para ajudar as pessoas a entender nossa visão de mundo. Existe um profundo significado nesta obra. ‘O senhor dos anéis’ é a batalha entre o indivíduo e a comunidade”

Basilio Catanoso

deputado pelo Fratelli d’Italia, mesmo partido de Giorgia Meloni, em declaração em 2002

Em entrevista à revista Jacobin, Craig Franson, professor associado de literatura britânica, drama e escrita na La Salle University, na Filadélfia, afirmou que a recepção de Tolkien variou entre países.

“Na Inglaterra da década de 1980 havia uma crítica muito forte, também um pouco mais cedo com Raymond Williams, Fredric Jameson e outros, que o enxergavam [Tolkien] dessa forma (como um fascista ou um criptofascista)”, disse Franson.

A atração conservadora

Reinaldo J. Lopes, jornalista, escritor e tradutor das obras de Tolkien, afirma que parte da atração de figuras conservadoras pela literatura do britânico pode ser explicada pela visão restauracionista da obra.

Em “O senhor dos anéis”, os personagens lutam pela destruição do anel de Sauron, que concede poderes absolutos. Uma vez que o objeto fosse destruído, seria possível reunificar os reinos de Arnor e Gondor com o personagem Aragorn como líder.

“É o retorno a uma era de prosperidade com uma figura monárquica no centro. Acho que essa leitura superficial da obra atrai conservadores num momento em que a extrema direita também se apropria da retórica de retorno a um passado idealizado, sem criminalidade e com uma figura paterna como uma autoridade clara”, disse Lopes, que também é cofundador do site especialista em Tolkien Valinor e apresentador do podcast “Passos pela Terra-Média”, em entrevista ao Nexo.

Segundo o pesquisador, Tolkien era conservador, mas não pode ser equiparado às figuras de extrema direita da atualidade. 

“Ele tem um perfil de outra época – ligado à autoridade moral do papado e ao monarquismo – e em sua obra há um lado mais anarquista, contrário à ideia de restrição das liberdades por uma força estatal muito invasiva”, disse ele, explicando que a vigilância, feita hoje a partir do monitoramento eletrônico, era vista com desconfiança pelo escritor.

Memorial em homenagem a J.R.R. Tolkien em Pembroke College, Oxford

Memorial em homenagem a J.R.R. Tolkien em Pembroke College, Oxford

Lopes também aponta que Tolkien acreditava que a criação artística era uma marca do que significa ser humano e filho de Deus, o que o colocaria como contrário às produções geradas por inteligência artificial hoje. 

“Para ele, uma pessoa afirma a sua humanidade e sua natureza como criatura de Deus criando arte. Se você abre mão disso, delegando a criação a um sistema computacional, você está jogando uma parte importante da sua humanidade fora”, disse o jornalista.

A atração de figuras diferentes – de hippies a empresários do Vale do Silício – faz parte da capacidade das obras de Tolkien de gerar muitas possibilidades de interpretações, segundo o pesquisador.

“Tolkien encorajava as possíveis interpretações para as suas obras. Para ele, o leitor tinha toda a liberdade de interpretar uma obra literária e aplicá-la à sua vida, à sua visão de mundo.”